Uma semana do trabalho de Deus

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“Eu assistia às novelas da Globo, todas, para poder ver o Rio de Janeiro. Era apaixonado pela cidade, sua paisagem, sua história. Um dia decidi que ia partir.”

Estou comendo sozinha, tomando o café da manhã, quando ouço a conversa. Me interesso e presto atenção. José, 45 anos, fala com uma mulher sentada na mesa ao seu lado. Têm amigos em comum e estão no dia seguinte de uma feliz festa de casamento. À medida que fala, José se anima. Começa a discursar mais alto e levanta da cadeira. Impossível não prestar atenção. A história é incrível.

“Eu tinha apenas 20 anos e morava em Salvador. Briguei feio com a minha mãe, que não aceitava a ideia da minha aventura. Eu ia com um amigo para o Rio, apenas para conhecer a cidade. Fiquei amigo de uns motoristas de uma transportadora. A proposta era pegar uma carona. No dia de partir, meu amigo da onça deu para trás. Falou: “Zé, não vou mais”. Me retei. Como que ele destrói meu sonho do dia da largada? Juntei minhas coisas na mochila e fui sozinho para transportadora. Consegui uma carona até Governador Valadares, que é quase o meio do caminho.”

Nesta altura a conversa, José fala como se palestrasse em um TED. De pé, desenvolto, descreve as emoções com a mão. Faz pausas. Se emociona com seu próprio passado. “Nesta primeira parada, tratei de arrumar um jeito de comer. Estava morto, mas morto de fome. Tinha apenas uns trocados no bolso e o sonho de conhecer a Cidade Maravilhosa. Me aproximei de um grupo de caminhoneiros. Eles comem, muito, sabe? Sempre que sobrava comida, eles deixavam o prato para os cachorros. Não me fiz de rogado. Ficava ali rondando e roubava a boia dos cachorros.” José ri de sua fome. Toma, de pé mesmo, um gole de café e morde um sanduíche gordo de queijo e presunto. Parece estar se vingando daqueles dias difíceis.

“Eu precisava seguir em frente. Aceitei outra carona até Petrópolis. Pouco antes de chegar à Cidade Imperial, o motorista viu uma moça bonita na estrada, freou o caminhão e me mandou descer. Fiquei ali, parado, no meio no nada. Decidi seguir na rodovia. Fui descendo à pé. Andei bem uns 30 quilômetros. Sabe o que me salvou?”

A pergunta fica parada no ar. A plateia do café da manhã nem morde o pedaço de melancia para não estragar o clima. “Foi a desgraça alheia”, diz José. O baiano, hoje casado e pai de uma menina de oito anos, abraça as duas com carinho antes de continuar a conversa. “Aquela estrada é cheia de curvas. Estava andando quando vi um conversível a toda velocidade. Ele cortou a curva e não conseguiu voltar à pista. Seguiu reto para dentro do mato. A sorte do playboy é que naquele pedaço não tinha precipício. Corri perguntar se ele estava bem. Tinha apenas uns cortes. Pediu minha ajuda e eu dei.”

Graças ao Zé que ajudou-o a tirar o carro do matagal, o playba conseguiu seguir viagem. E foi justo e generoso. Levou o andarilho consigo. Zé fedia e tinha fome. Mas, maior do que esses dois tormentos era a vontade de chegar logo ao Rio. “Pedi para ele me deixar na rodoviária Novo Mundo. Ele ofereceu comida, ofereceu dormida e banho. Recusei. Só queria chegar. Descemos a serra voando. Ao estacionar na rodoviária, ele me deu uma nota de 5, não lembro mais qual era o dinheiro. Pude comer e tomar banho”.

Como milhares de migrantes, nos primeiros dias de capital, José fez da rodoviária seu pouso. Passeava pelas ruas de dia e dormia lá à noite. Dormir era fácil. Difícil era comer. Um dia, com o estômago fazendo passeata nas costas, ele se aproximou de um ambulante para ver se conseguia ajuda. “Me ofereci para fazer qualquer trabalho em troca de um lanche e um suco. O cara vendia frutas e fichas telefônicas. Pobre ainda usava orelhão. Celular era coisa de trilhardário. Ele me olhou de cima abaixo e falou: ‘toma aqui esse dinheiro. Cuida da banca para mim, que eu vou buscar mais mercadoria’. Me entregou o maço de notas e saiu. Não acreditei. Que maluco era aquele que confiava em um desconhecido com cara de faminto? Fiquei lá e vendi o máximo que pude. Precisava agradar. Precisava mostrar serviço.
Quando ele voltou com mais mercadoria, eu estava com o bolso cheio de dinheiro. Ele ficou feliz e me levou para a casa dele. No caminho perguntei porque ele havia confiado em mim. A resposta dele, senhor Amaro, é lição para mim.

“José, eu já vi de tudo nessa vida. Uma das coisas que aprendi cedo foi saber, à primeira vista, se a pessoa é honesta ou não. Estava e está escrito na sua cara que você é um homem honesto e trabalhador. Vamos para casa, comer e dormir.”

Zé se emociona quando relata essa passagem. Seu olhar transborda gratidão. Ele abraça novamente a filha e a mulher.

Curiosa, pergunto sobre os próximos capítulos. E ri. Faz outra pausa e conta. “Trabalhei com ele alguns meses, aproveitava minhas folgas e andava por toda a cidade. Conheci toda a zona Sul, Corcovado, Pão de Açúcar. Tudo à pé para não gastar dinheiro. Uma lindeza. Depois de um tempo, Amaro me indicou para um trabalho em uma padaria. Aprendi a fazer pães, a atender no balcão, a servir. Sempre fui bom de conversa. Lá conheci um cliente que foi com a minha cara e me indicou para trabalhar em uma empresa que explorava petróleo. Dá para imaginar? Eu, metido com o ouro negro? Comecei de baixo. Fui subindo, estudando muito, trabalhando duro. Em cinco anos, era técnico. Faz 18 anos que trabalho com isso. Ganho muito bem e nunca mais passei necessidade”, conta, agora transbordando orgulho. “Já fui dezenas de vezes para o Rio de Janeiro. Vou de avião. Me hospedo em hotel executivo. Atendo a Petrobras. E continuo achando que é a cidade mais linda do mundo.”

Antes de encerrar a conversa, peço licença para fazer uma pergunta. Ele aceita, de pronto.

“O senhor imaginava que havia tanta solidariedade no Rio de Janeiro?”

Ele para. Olha para o nada por alguns segundos e se entrega. “De verdade, não. Por isso essa aventura foi tão importante para mim. Mudou minha vida. Acredito no ser humano. Acredito na bondade. Acredito na generosidade. Assim como o Amaro também aprendi a separar o joio do trigo. Ando na rua sempre com algum dinheiro para ajudar quem está precisando. De longe eu vejo, analiso. É muito difícil eu errar. Ajudar o próximo é o mínimo que eu posso fazer para devolver ao Universo, a Deus, o bem que Me fizeram”, conclui. Toma mais um gole de café e pede licença. “A conversa foi boa, mas precisamos pegar a estrada. Foi um prazer.”

A música que toca na sala é do Gilberto Gil. Soa como a perfeita trilha sonora de um instante. Exemplar. Mágico.

A raça humana é
Uma semana
Do trabalho de deus
A raça humana é a ferida acesa
Uma beleza, uma podridão
O fogo eterno e a morte
A morte e a ressurreição
A raça humana é o cristal de lágrima
Da lavra da solidão
Da mina, cujo mapa
Traz na palma da mão
A raça humana risca, rabisca, pinta
A tinta, a lápis, carvão ou giz
O rosto da saudade
Que traz do gênesis
Dessa semana santa
Entre parênteses
Desse divino oásis
Da grande apoteose
Da perfeição divina
Na grande síntese
A raça humana é
Uma semana
Do trabalho de deus
A raça humana é
Uma semana

Bom dia.

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2 comentários sobre “Uma semana do trabalho de Deus

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