Os planos B de Belisário

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Belisário é um empreendedor. Nato. Não cursou escola de economia, muito menos administração. Não conhece a Endevor, nem a Fundação Getúlio Vargas. Sabe mais ou menos que existe um tal de Sebrae, mas nunca pensou em fazer um curso. Belisário é empírico, trabalhador e muito, muito gentil. Já fez de um tudo na vida. Nasceu na Paraíba e mudou-se jovem para a Bahia. Dirigiu caminhão, ônibus e trator. Teve oficina mecânica e com os rendimentos dela criou os três filhos, dois homens e uma menina. Tem duas casas próprias. Mora em uma e da outra recebe aluguel. Alugar coisas faz parte das listas de planos B do cara. Ele é craque.

Belisário é avô e aposentado. Quando largou a graxa da oficina mecânica, comprou a licença de um táxi. Isso foi muito antes do Uber e do aplicativo 99. Como acorda cedo e dorme tarde nunca dispensa corrida. Pode ser às seis da manhã ou às duas da madrugada. Dia de feriado ou véspera de Réveillon. Chega sempre, pontualíssimo. Faz traslados das praias do litoral norte de Salvador para o aeroporto. Para ele, não tem tempo ruim, nem viagem longa. Em casos de emergência, é ponta firme. Já levou viúva para velório do marido. Executivo com medo de avião para cidade com aeroporto. Criança pequena para casa da avó no interior.

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Cada vez que liga o carro fatura, em média, R$ 100. De nota em nota, vai enchendo o seu pé de meia. Já comprou outros dois táxi, que arrenda para seus parentes. Plano B2 do seu plano A. E como tem garagem sobrando em casa, arrumou outros dois veículos para alugar por dia, sem burocracia, sem seguro pesado, na base da confiança. Tem um bugre amarelo fofo e um outro sedan, novinho e sofisticado, com ar, trio elétrico e outras modernidade.. “É plano C”, diz Belisário. “O dinheiro não é seguro e certo, porque nem sempre tenho cliente. Mas acho que rende mais do que seu eu deixasse o dinheiro no banco”, analisa.

Belisário também é pescador. Quando não está rodando, estaciona o carro na beira da praia e corre atrás de peixe. Plano D, porque não? Mas peixe ele não vende, não. Dá de presente para os amigos. Gentil e contador de histórias, Belisário tem uma penca de amigos. Todo mundo gosta e confia nele. Por causa da disposição, da gentileza e da confiança, todo mundo procura Belisário em situações especiais ou de emergência. Foi assim no mês passado, quando um funcionário de uma grande montadora de Camaçari recebeu uma proposta de trabalho. O convite era para trabalhar em uma empresa concorrente no Paraná. Salário bom, promoção de cargo e desafio novo. Estava tudo certo para o José fazer a mudança. O único problema era o cachorro Prego, velhinho coitado. José achou que ele não aguentaria uma viagem de avião, trancado na gaiola dentro da área de carga.

Ele é muito apegado. Gosta demais de gente. Precisa de carinho. Por favor, Belisário, quebra essa para mim? Leva o Prego de carro para Curitiba?

Foi assim em tom de súplica que José contratou o serviço com o seu fiel motorista. Belisário, claro, não negou. Especialmente depois de saber qual seria o pagamento.

– “Você foi muito bom para mim nestes anos em que morei aqui e agora fará um grande favor para a minha família. Vou te pagar bem. Para levar o Prego até Curitiba te darei o meu carro Gol de presente. Sou o único dono. Ele é 2004, mas parece novo.”

Os olhos de Belisário brilharam. Além de ser um homem bom, é um homem de negócios. A oferta era irrecusável. O carro deveria valer uns R$ 10 mil e, no mais, transportar animais de estimação poderia ser um serviço novo na sua lista de planos B.

Belisário aceitou de pronto, feliz. Começou a organizar a viagem de Prego. Jeitoso, construiu uma caixa para o bicho ficar confortável durante os 2362 quilômetros da viagem. Convidou seu irmão, Bento, para ir junto e lhe fazer companhia. Fariam o trajeto em dois dias, parando no meio do caminho para dormir. Estava tudo certo até a antevéspera do passeio-serviço. O negócio melou na hora do Jornal Nacional, quando Maju, a moça do tempo, anunciou a temperatura na capital do Paraná.

“Nesta semana, os termômetros por lá não passam de 12 graus”.

“Doze graus? Eu não aguento esse frio, mulher”, disse Belisário, em pânico, à esposa que assistia o noticiário ao lado dele. “Vou morrer congelado. Não sou pinguim. Preciso arrumar um plano B já.”. Mestre no assunto, Belisário catou o celular e começou a ligar. Falou com um, falou com o outro até ter a ideia de convidar um sobrinho para acompanhar seu irmão. Não podia dar bandeira do motivo. “Vão me achar frouxo”, pensou. Com a proposta de uma boa gorjeta lá se foi a dupla rumo a Curitiba com Prego em sua casinha caixa na caçamba da camionete.

-“Você não imagina o que aconteceu. Quase perdi o amigo e cliente para todo o sempre”, contou Belisário, esbaforido, quando me buscou no aeroporto em minha última visita à terra Sagrada. “Aqueles dois trapalhões quase perderam o Prego na estrada.”

Curiosa e preocupada, faço silêncio e espero o fim da história que parece conversa de pescador das boas.

– “Eles pararam para tomar um lanche na estrada e resolveram abrir a caixa para ver se estava tudo bem com o cachorro. O bicho, assustado, viu a cara daqueles dois estranhos e achou por bem fugir. Deu um olé neles e saiu correndo pelo posto de gasolina. A sorte é que o bicho não foi na direção da estrada, senão estava morto agora. Prego correu para o mato e os dois matutos saíram correndo atrás dele”, ri Belisário. “Imagina você meu irmão, que tem duas vezes o meu tamanho, portanto é muito mais gordo do que eu, correndo atrás do cachorro. Ele quase perdeu o bicho e as calças na carreira.”

Felizmente, deu tudo certo e Prego já está deitado em sua poltrona preferida na casa do novo gerente da Renault. Pergunto para Belisário, como ficou a divisão do dinheiro da venda do carro. Meio a meio?

– “Que nada. Meu irmão, além de quase perder o cachorro, demorou tempão para voltar porque parou em São Paulo para conhecer a cidade e depois subiu por Minas Gerais para comprar cachaça e vender aqui no verão. Ou seja, ele passeou um bocado e ainda vai faturar com um plano B só dele. Por isso, paguei os custos do diesel, da dormida, da comida e dei 500 reais para cada. E está ótimo, não está?”

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9 comentários sobre “Os planos B de Belisário

  1. Comecei a ler seus posts há dois dias e me apaixonei por você, por sua história, pela leveza que você passa. Parabéns pela bela mensagem de garra. Tão difícil arrancar as raízes e criar asas, reinventar-se.

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  2. Oi Claudia,
    Li seu livro, tenho um blog literário e normalmente crio conteúdo com resenhas, mas após lê-lo me senti à vontade pra expor o que só os mais próximos sabiam , que fui demitida há 4 meses.
    Fiz pela primeira vez uma vídeo resenha porque quis mostrar a todos – íntimos ou não – o como há o Plano B, o como mesmo sem crachá ainda estamos vivas.
    Segue o link caso queira assistir. Parabéns pelo livro!

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  3. Bom dia Claudia, como a leitora acima disse, muita leveza mesmo nas palavras, e olha que é facil para um ogro como eu ver leveza. Como vc disse no outro post, esta esperando minha historia, como esta muito no comeco, mas de coracao vou aguardar ansioso para informa-la. Parabens novamente pela inciativa.
    Grande abraço

    Diego

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