“Você é uma ignorante. Não sabe ler?”

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“Você é uma ignorante. Não sabe ler?”

Os gritos do senhor septuagenário, de rosto redondo, cabeça lustrosa e barbichinha de bode, me despertaram do transe. Estava descendo a rua Artur de Azevedo, em Pinheiros, feliz com a possibilidade de entregar uma correspondência na TV Trip, de bicicleta, acompanhada do meu filho de 12 anos. Olhei para o lado e descobri que a ofensa era contra mim.

“Você é uma ignorante. Não sabe ler?”, repetiu o senhor pela segunda vez, agora com as maças do rosto rechonchudo vermelhas de ódio. Olhei para ele com cara de parva e lhe dei a chance de novo xingo. “Sua burra. Não sabe ler? Você tem que descer da bicicleta quando cruza a faixa de pedestres, senão vai matar um velhinho”.

Sim, sou burra, ignorante e parva. Demorei cinco segundos para entender que o senhor do Corola prateado, quatro portas, ano 2002, estava repetindo o discurso feito nos meios de comunicação durante toda a semana. Algo do tipo: cuidado com os ciclistas assassinos, patrocinados pelo prefeito vermelho, que andam à solta pela cidade procurando velhinhos carecas para atropelar. Respirei fundo, porque estava feliz e porque respeito todos os tipos velhinhos, mesmo os de barbicha de bode e Corola prateado ano 2002. Sorri em resposta ao comentário e, gentilmente, tentei explicar.

“Senhor, a ordem de descer da bicicleta é correta, mas apenas quando o ciclista passa por cima da faixa de pedestres. Aqui na ciclovia, não passamos pela faixa dos pedestres. Seguimos por nossa faixa vermelha, que é paralela. Veja, cada um tem o seu espaço. Não vou matar ninguém.”

A tréplica veio na esquina seguinte, quando emparelhamos novamente no farol. Tomei outra bordoada, agora xenofóbica, já que o velhinho acentuou o erre de um sotaque europeu.

“Você é uma ignorante mesmo. Uma incivilizada. Percebe-se que é uma brasileira despreparada. Tem que descer, sim, da bicicleta. Olha a placa”.

A placa, ali, ao nosso lado dizia: “Ciclista atravesse na faixa desmontado”. E eu e meu filho estávamos a três metros de distância da faixa de pedestre em nossa apropriada faixa vermelha. Uma fúria foi subindo pelo meu pescoço misturada a uma tristeza profunda. No passado, quando era um vulcão sempre pronto para explodir, talvez tivesse xingado ou agredido o homem. Agora, à beira da terceira idade, apenas olhei para ele e depois para a placa, como que dizendo “não vou perder meu tempo com o senhor” e segui o meu caminho.

Minha raiva passou, mas a tristeza ficou. Por que tanta intolerância? Por que tanto ódio contra quem acha mais bacana andar de bike do que de carro? Por que a decisão de trocar o conforto das quatro rodas pelo prazer das duas rodas traz tanta fúria e indignação? Por que é tão difícil aceitar e respeitar as diferenças? Por que os meios de comunicação de massa são incapazes de defender as mudanças de comportamento e de estilo de vida? Por que precisamos esperar que as novelas façam campanhas contra o preconceito e a intolerância para as coisas ficarem um pouco mais leves por ai?

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Segui na ciclovia, agora da Faria Lima, pensando nessa perguntas com respostas tão etéreas. Depois de cruzar com cinco dezenas de ciclistas felizes em seu passeio vespertino, voltei a sorrir. Eu ando de bicicleta com meu filho, mas meu pais não andavam comigo. Evoluímos. Na minha infância, os prefeitos construíam elevados, tuneis subterrâneos e avenidas. Hoje, prefeitos de várias cidades do Brasil constroem ciclovias e pintam ciclofaixas nas ruas. A mudança está em curso. É uma questão de tempo, de paciência e de resistência. Ainda haverá muito conflito, xingo e briga. Acredito, no entanto, que antes de passar dessa para outra melhor vou ver carros e bikes convivendo em paz na cidade em que dizem não haver amor.

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4 comentários sobre ““Você é uma ignorante. Não sabe ler?”

  1. Cláudia, essa é uma luta que está apenas começando, imagine em cidades em que o mínimo do comprometimento da administração é inexistente na construção das ciclovias e ciclofaixas Pior do que lidar com as regras no espaço, é não o tê-lo para desfrutar…

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