A falta que a experiência faz

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Nasci no dia 2 de novembro. Finados. Dia dos Mortos. Feriado. Quando eu era criança, era uma data triste. As famílias, inclusive a minha, iam ao cemitério em cortejo lembrar e chorar seus mortos. Era nobre. Era digno. Era emocionante. Mas eu queria festa, farra e presente. Queria alegria. Pique-pique. Bolo, Coca-cola e coxinha. Não tinha, porque não havia clima e porque muitos amigos viajavam logo depois da visita ao cemitério, já que sempre era feriado. Tiro essas memórias do baú para falar de experiência. E da falta dela. E do medo absurdo que tenho de ficar sozinha nas minhas festas ou eventos, como por exemplo a próxima terça-feira, dia 25, data do lançamento do meu livro.

Sempre que organizo uma festa, sofro loucamente. É um paradoxo, porque adoro fazer e organizar festas e eventos. Já fiz algumas antológicas e gigantes. O meu sofrimento é psiquiátrico, eu sei. Ele está relacionado ao medo patológico que tenho de que ninguém virá. Pode ser o meu aniversário ou um grande prêmio da televisão brasileira. Pode acontecer na sala da minha casa ou no Golden Room do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Não importa. A paura e o descontrole são iguais. Horas antes de começar, tenho todos os sintomas. Dor de barriga, suor, nervoso, ansiedade, falta de ar e descontrole. Fico pálida. Trêmula. Caquética. Me xingo por ter inventado moda e entrado naquela roubada.

É irracional, eu sei. Como sou pragmática, pesquisei e encontrei um motivo, uma razão para esse sentimento. Descobri que ele é fruto da minha falta de experiência em ter e fazer festa de aniversário. Uma deficiência iniciada na infância, que não consertei na adolescência nem na idade adulta. Comecei a festejar minha nova idade depois dos 40, quando criei coragem de enfrentar esse medo. Farei 50 em novembro, me falta experiência e aprendizado.

Quem nunca fez, não sabe se sabe fazer. Nem se sabe fazer certo. A experiência e a repetição vão, com o tempo, tranquilizando a gente. Por isso, os grandes empreendedores costumam errar, fracassar, abrir e fechar negócios. Sem cerimônia. Sem pudor. A tal da experiência e do conhecimento advindos da tentativa e erro. Eles têm uma média de cinco erros para um acerto!!! Assustador. Quer saber porque eles não se abalam nem cortam os pulsos? Porque têm experiência em empreender e sabem colocar os pingos nos “is”. Quando um EMPREENDEDOR maiúsculo fecha uma empresa, ele entende que o erro estava no negócio e não nele. Ele não fracassa, ganha experiência. Quem fracassa é o negócio. E mais. Ele entende que aquela experiência de erro e de fracasso será fundamental para próxima empreitada, que, portanto, nascerá com uma probabilidade maior de vingar e ser um sucesso.

Quem não tem experiência, como eu, olha para essa equação e duvida. Afinal, lançar-se ao mar com um projeto novo e vê-lo naufragar parece o ensaio do fim do mundo. A morte. Acordei pensando nisso hoje. Dia 25 de agosto, um ano depois de perder o crachá, lanço o meu livro. É o meu plano B virar escritora, palestrante e consultora. Se não emplacar, o que eu faço depois? Pensei, cogitei uma lista e decidi. Vou escrever um novo livro, outro e mais outro até o meu contrato comigo mesma acabar (tenho mais quatro anos e meio de pró-labore garantidos) e a vontade de escrever passar. Decidi experimentar, experimentar e experimentar. Aprender na marra, como os grandes. Sem medo de errar ou fracassar.

Essa tomada de decisão matutina, cheia de coragem e furor, não quitaram o meu temor original. Acordo e durmo pensando na possibilidade de ficar ali sozinha no primeiro andar da livraria Cultura, esperando os amigos e os leitores chegarem para comprar um livro e pedir um autógrafo. Fico imaginando o constrangimento dos vendedores, sem saber o que fazer com a pilha empoeirada e, principalmente da vergonha alheia dos amigos presentes tentando achar uma rota de fuga. “Desculpe, preciso ir embora, porque tenho um velório para ir”. A previsão do tempo diz que vai chover, o que já é uma desculpa para a fila pequena e sala vazia. Na dúvida, talvez, valha a pena contratar uma caravana de estudantes, como aquelas que iam no programa de auditório no Silvio Santos na minha infância. Se não tenho experiência, posso aprender com a dele.

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17 comentários sobre “A falta que a experiência faz

  1. Sou compradora, leitora e indicadora certa! Você é talentosíssima e com uma sensibilidade cativante.
    Que a serenidade seja sua parceira nesse projeto que com certeza JA DEU CERTO!
    Um abraço.

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  2. Não tem como dar errado amiga!!!! Já é um sucesso!!! Estarei aqui em Salvador e tenho certeza que dia 25 ai será sucesso!!!!! Afinal, talento vc tem demais!!! Um grande beijo, Martinha.

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  3. Oi Cláudia, você escreve com o coração. Conheci você hoje é já me sinto próximo. Parabéns! Certamente tentarei fazer parte de sua festa dia 25. Obrigado por esse ótimo texto.

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    1. Rodrigo, muito obrigada pela mensagem. Fico feliz que gostou do meu texto e do meu jeito de contar minhas histórias. Será um prazer conhecê-lo pessoalmente no dia 25. Se for, por favor, se apresente. “Sou o Rodrigo Lima que te escreveu na sexta-feira”. um beijo

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  4. Cláudia já sou sua fã, será um sucesso o lançamento do livro, estarei com ou sem chuva, e estou convidando meus amigos. Em Outubro estarei pela primeira vez em Salvador, e farei o possível para ficar na sua pousada. Beijos….até terça-feira.

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