Olha o passarinho!

DG3A0225

Stop!!!

Stop shooting my children!

O grito da senhora de cabelos brancos me acordou do deleite de enxergar, pela primeira vez, através do visor da minha câmera nova. Antes de prosseguir com a história preciso de um parênteses.
(Câmera profissional é como carro de corrida. Tipo Brasília 77 versus Porsche RT. Dá para fotografar com xereta – Google, jovens leitores – , dá para andar de Brasília ou de Fusca, mas faz uma bruta diferença).
Tirei o olho direito da câmera e olhei na direção do grito. Achei a senhora de cabelos brancos ladeada por duas crianças louras bem branquinhas. Fiquei tão surpresa que balbuciei em português: “não, eu não fotografei”
A velha entendeu meu português e retrucou na língua do Obama.

– Sim. Vocês fotografou as crianças!!!!!

Encrenca. Encrenca. Na hora lembrei de uma matéria que fiz no início da década de 1990 em South Beach, Miami. O bairro art decô renascera das cinzas. Era, à época, o endereço preferido de Madonna, Elton John e do finado Gianni Versace. Vendi a pauta para minha chefe e voei para os EUA. As revistas tinham dinheiro. Jornalistas viajavam para fazer matéria. No meio da pauta, fotografada por um americano, John alguma coisa, quase fomos parar na delegacia. Um rapaz, patinando no calçadão da praia, se revoltou contra os cliques e partiu pra cima do fotógrafo. Empurra daqui. Empurra de lá. A coisa só terminou porque John era um gigante e o menino, candidato a modelo do livro rosa, afinou.

Lembrei disso tudo enquanto pedia desculpas e explicava para a velha que só estava olhando através da câmera. Que a máquina ainda não tinha bateria nem memória. A avó só sossegou quando abri os compartimentos vazios. Fez aquele bufo de senhora contrariada, que é igual em todas as línguas. Deu com os ombros e passou a me ignorar, como se eu fosse um pedaço do papel bolha que embalava a minha lente  24-70 mm. Foi quando parei para olhar as crianças. Eram feias, coitadinhas. Mirradas. Sem graças. Sem jeito. Sem cor, tipo espiga de milho passada.

Se minha mãe estivesse na cena diria:

– As senhoras americanas são estranhas. Se fosse aqui, qualquer avó ficaria babando de orgulho ao ver alguém fotografando os netos. Especialmente se eles fossem, assim, “engraçadinhos”. Você sabe o que eu quero dizer, não é, filha?

ontrariada que é igual em todas as línguas. Deu com os ombros e passou a me ignorar, como se eu fosse um pedaço do papel bolha que embalava a minha lente  24-70 mm.
Foi quando parei para olhar as crianças. Eram feias, coitadinhas. Mirradas. Sem graças. Sem jeito. Sem cor, tipo espiga de milho passada.
Se minha mãe estivesse na cena diria:

— as velhas americanas são estranhas. Se fosse aqui, a avó ficaria babando de orgulho ao ver alguém fotografando os netos. Especialmente a só fossem, assim, “engraçadinhos”. Você sabe o que eu quero dizer, não é, filha ?

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