O casal da rua 14

tudooquetemos

No cartão de papelão pardo está escrito em preto:

– Tudo o que temos é um ao outro.

Não li o cartaz na primeira vez que os vi. Estava do outro lado da rua. Reparei neles porque estavam juntos, grudados, corpo com corpo, como se fosse possível sentar em conchinha na calçada da rua. As malas preta e vermelha encostadas, lado a lado, repetindo o carinho dos corpos.

Do outro lado da rua pareciam bem. Saudáveis. Razoavelmente limpos. Não parei nem cruzei a rua. Segui caminhando em direção ao High Line. Era domingo. Queria ver o movimento. Fotografar. Comer gostosuras no Chelsea Market.

Eles não me saiam da cabeça. Antes de chegar ao mercado, já tinha o título óbvio. O casal da rua 14. Por que eles estavam na rua? Seriam uma versão nova-iorquina de Romeu e Julieta? Teriam fugido de casa? Eram viciados em droga? Teriam sido demitidos na última crise e caíram em depressão? Estavam de malandragem?

Enclausurei as perguntas no canto anterior da alma e subia as escadas do HL. Tinha ficado ainda melhor. Estive lá em 2010 e agora os espaços estavam ainda melhor ocupados pelo público. Era uma passarela orgânica. Colorida. Divertida. Variada. Fiquei por lá dois pares de hora. Me perdi no tempo e comemorei. É tão raro acontecer isso comigo.

Antes do pôr do sol, com fome e os pés cansados, decidi voltar. A memória do casal da rua 14 ocupou de novo a minha mente. Decidi repetir o caminho. Agora do outro lado da rua. Cruzo a sétima com a curiosidade pulsando na garganta. Será que eles ainda estarão lá?

Estavam. No mesmo lugar. Do mesmo jeito. Não arredaram o pé. Não curtiram o domingo. Ficaram ali esperando a bondade alheia. De longe, bem longe, fiz uma foto. Tenho horror a esse tipo de invasão. Pensei: quando chegar perto, pergunto se eles querem falar, se topam ser fotografados. Cacei uns trocados no bolso e fui chegando perto. Foi quando vi o cartaz.

– Tudo o que temos é um ao outro.

Não invejei a situação deles. Nem o estado deles. Confesso, no entanto, ter fantasiado ser coadjuvante de um amor assim. Puro, bruto, intenso, maldito, irracional, inconsequente.

A fantasia acabou quando fiquei na frente deles e me abaixei para colocar um dinheiro no copo vermelho. Eu podia ser mãe de um deles. O que eu teria feito de errado para estarem ali, jogados na rua? Cumprimentei o casal. Ele me olhou. Ela não. Estava aninhada, meio contorcida, meio que chorando. Estaria doente? Estaria arrependida de ter fugido? Estava com vontade de voltar para casa mas não sabia como dizer isso para ele?

Amarelei. Não tive coragem de perguntar o que havia acontecido. Engoli a pergunta do porquê eles estavam ali, vivendo na rua. Não ousei atrapalhar aquela comunhão de desamparo e solidão. Desejei sorte. Ela gemeu. Ele agradeceu. Levantei e fui andando para a rua 17. Antes de partir, preciso voltar lá. Não posso ir sem ter notícias do casal da rua 14.

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7 comentários sobre “O casal da rua 14

  1. Olá,
    Houvi sobre seu livro hojej na Rádio CBN RJ.
    Acho que você deveria mudar o template do seu blog, o WordPress, existem templates bem melhores que estes; com botões de contato, sobre, com versões pra tablet, celular e etc..ou faça um no Blogger que á mais fácil ainda, vc pode editá-lo via smartphone, ok!
    Espero ter ajudado com algo..bjs, abçs e muito sucesso!

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