Dançando com Krisna em Nova York

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Adoro “primeira vez”. Funciona como um elixir. Me sinto jovem de novo por minutos, horas ou dias. Rejuvenesço desde sexta-feira, 8 de agosto. Estou em Nova York, pela primeira vez, sem crachá. Sim, tudo fica diferente. Estou sozinha, de dieta e com um novo padrão de consumo. Decidi radicalizar, porque ao estar só não preciso negociar desejos com ninguém. Desde sexta, faço só o que eu quero, obedecendo os horários nos quais preciso estacionar em uma Starbucks para filar wifi. Daí, respondo e-mails e vendo diárias.

O que mudou na cidade da maçã? Nova York sem crachá, fica absurdamente mais cara, especialmente com o dólar a R$ 3,50 (este é o valor que eu paguei). Fica também maior, porque é possível e necessário expandir os limites de conhecimento e exploração. Esqueça o circuito Mad Men. Ele pertence aos passageiros da classe Executiva – confesso, dá saudade na hora de cruzar esse trecho do avião.

Comecei a mudar na hora de booking.com o hotel. Queria algo barato (100 dólares), central (em Manhattan, entre a terceira e oitava avenidas) e de preferência mais perto do sul. Encontrei o hotel 17, renovado, charmoso e bem localizado. Não fiz milagre, nem consegui tarifa de hoteleiro. Apenas aceitei as condições. Meu quarto tem uma cama, um armário e um criado mudo. O tamanho é semelhante ao do quarto de serviço do meu apartamento. Tem uma vista bonita, janela que abre e ar-condicionado que não uso. A TV de LCD tem 20 polegadas e fica sobre o cofre. Este item, sim, é importante para quem viaja com cash porque não quer pagar a taxa absurda do cartão de crédito. A televisão não tem canais a cabo e consigo entender porque a Globo é uma das melhores TVs abertas do mundo. Assisto Netflix no meu computador, porque o 17 tem serviço de wi-fi grátis.

O banheiro? Fica no corredor. Tem dois. Um com chuveiro, privada e pia. Outro só com chuveiro e privada. Não passei sufoco, nem peguei fila. Quando a gringa do quarto 219 tomou uma cachaça errada de vinho tinto barato e vomitou a alma na madrugada, no dia seguinte o banheiro estava recuperado do vexame. Felizmente, não sofro de incontinência e durmo a noite inteira na maior paz.

Ontem, acordei cedo e segui a pé para o Ground Zero. Estou de dieta, lembra? Caminhar cinco horas por dia tem sido o meu exercício. Gasto calorias, economizo o bilhete de metro e vejo uma outra cidade. Em constante mudança. Lugares abrem e fecham. Prédios seculares passam por retrofit. Áreas abandonadas são renovadas como o Noho, um pouco antes do Soho. Com a câmera nova no pescoço, caminho registrando tudo. Fico com vontade de catar na calçada um abajur lindo, meio avariado. Nova York tem o lixo mais luxuoso que eu conheço.

Estou de dieta mas adoro comer. Ando e negocio calorias na bolsa de valores da minha culpa. Sem crachá ficou mais fácil. Não tenho almoços de negócio para fazer. Não tenho jantares nem coquetéis para ir. Não fiz listinha de restaurantes estrelados para ir. Não preciso visitar nem ter opinião sobre os lugares da moda. Essa fase passou. Confesso que cansei dessa vida.

Como pela rua. Comida boa e barata. Também frequento delis bacanas, como Gourmet Garage em Tribeca. Compro, procuro um banco e como na rua, olhando o movimento na boa. Estou corada, limpa e decentemente vestida. Não me pareço com um homeless. Tenho uma cota diária de calorias e de dólares. Posso economizar em um dia para gastar em outro. É lícito. A meta são 1800 kcal e 60 dólares diários para gastar com alimentação, transporte e entretenimento – museus, claro. Ontem eu gastei tudo, porque o museu do 11 de setembro custou 25 dólares. Valeu cada centavo.

Tenho prática de viajar assim. Fui mochileira na juventude. A mudança mais importante dessa minha primeira vez é outra. Mais séria. Mais profunda. Hoje, quando eu saia do hotel para tomar café no David’s Bagel da Avenida 1, minha amiga Shirley mando um whatsapp que resume tudo:

– Tá gastando a aposentadoria?

Vou explicar. Vim para cá comprar equipamento para registrar casamentos na Pousada A Capela (www.pousadaacapela) e colocar de pé o projeto de “A Vida sem crachá” no Youtube. Gastei várias aposentadorias na B&H. Acho que também gastei nessa compra o meu desejo de consumo. Entro nas lojas, olho, mexo, faço o cálculo em reais (muitas vezes ainda vale a pena), chego a pegar o cabide e no caminho do caixa, desisto. Desisto porque tem fila. Desisto porque minha mala é pequena. Desisto porque não preciso daquilo.

A sensação é muito libertadora. Ontem terminei o dia como comecei. Sem nenhuma sacola nas mãos. Passeei pelo Noho, Soho e Tribeca. Vi as tendências. Apreciei vitrines lindas. Namorei quadros de um pintor de rua. Não passei vontade. No fim da tarde, parei para descansar com minha máquina e garrafinha d’água na Union Square. Estava uma festa. Turistas, locais, jovens, velhos, vagabundos, doidos, solitários, jogadores de xadrez, dançarinos de hip hop e hare krisnas. E aí chego ao título desde texto.

Não sou muito simpática às religiões orientais. Não sei meditar. Detesto incenso. Acho a estética feia e o discurso haribô chato, muito chato. Ontem, no entanto, fiquei fascinada com um grupo de hare krisnas que dançava na praça para recolher donativos. Eles dançavam com alegria, leveza e sem compromisso. Não tinha coreografia ensaiada, como o grupo hip hop ao lado. Sentiam a música e saltitavam muito, agitavam os braços e torciam o tronco. A farra ia num crescente, quase um carnaval de rua na cidade que nunca dorme. Fiquei ali um bom tempo observando. Quando dei por mim, estava sorrindo também e dançando. Dançando com Krisna em Nova York. Foi muito bom.

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4 comentários sobre “Dançando com Krisna em Nova York

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