Tomara que eu tenha razão

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Tem uma música do Chico Buarque, dentre as muitas que amo, que gosto deveras. Diz o refrão:

“Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”

Pensei em Meu Caro Amigo enquanto construía o lego do meu texto. Estou longe da cidade onde não existe amor desde o final de junho. Mudei de cor. Não calço sapato há 30 dias. Acordo com o galo cantando e durmo com o uivo dos cachorros. Hoje vai ter festa. Rave animal. A lua cheia está azul. Blue Moon. Como o caro amigo do Chico, sei das coisas porque me escrevem, me contam e, às vezes, fuço na internet. Faz dias que não abro a edição digital da Folha, nem compro a Tarde ou o Correio. Não é falta de interesse, não. É excesso de trabalho.

“É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão.”

A coisa está preta eu sei. Os números são números. As notícias, fatos. Mesmo assim não consigo entoar o coro grego do fim do mundo. Excesso de sol na cabeça? Feitiço da lua? Abuso da cachaça na caipirinha de limão?

“Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão”

Definitivamente, não. Apenas uma percepção de quem está vivendo fora do centro e experimenta a rotina concreta da chuva, do sol, da compra e da venda na Ceasa, do serviço simples de um pequeno estabelecimento turístico. Da venda fiado. Do troco. Da moeda. Da paga diária do pedreiro que faz empreitada. Do pescador que pega o peixe e vende no caminho de casa. Não pretendo provocar nem atiçar economistas, jornalistas econômicos e especialistas em macro e micro economia. A intenção é, apenas, compartilhar uma percepção e uma conversa. Dar a luz a uma visão menos preta. Vamos a ela:

– “Você mora aqui?”, pergunta Renato, visitante, que almoça na Capela e se hospeda em Salvador.
– “Não, moro em São Paulo. Trabalho aqui na temporada”, respondo enquanto limpo a mesa de mármore na varanda frente ao mar.
– “As coisas estão feias por lá. E aqui, como estão?”, ele pergunta, fazendo que não sabe que estamos lotados e que por isso ele não pode se hospedar conosco.
– “Estamos lotados, graças a Deus. Julho foi muito bom. Acho que a alta do dólar nos ajudou”, argumento e tiro os pratos sujos da mesa.
– “Ele subiu pra valer. Mas como você consegue estar lotada no meio da crise?”, indaga, meio indignado com minha versão otimista para a alta das verdinhas.
– “Procuro oferecer um bom serviço e preços justos. Aumento a tarifa uma vez por ano apenas”, explico. “Tenho uma boa equação de custo e benefício”.
– “Mas e a inflação? Como você faz com a inflação?”, ele protesta. Descubro, depois, que é economista e gestor de uma grande empresa.
– “Aqui ela não é o mesmo monstro que ronda por São Paulo. O mercado se autorregula. Se tem muita oferta e pouca procura o preço até abaixa. A melancia, por exemplo, custava R$ 5 em janeiro e segue com o mesmo preço. Idem para o coco. Um real. Se não aumenta lá, estaria sendo desonesta em aumentar cá…”, defendo.
– “Verdade. Mas a gasolina aumentou. A luz aumentou…”, ele diz
– “A gasolina sim. A luz baixou. Estamos economizando com luzes de led e, agora no inverno, as pessoas usam menos ar condicionado”, contraponho.

Um hóspede me chama, peço licença e abandono a conversa sem um ponto final. O tom dela, no entanto, me acompanha há dias. Foi um diálogo nonsense. Eu defendendo a manutenção dos preços a despeito do discurso inflacionário reinante. Ele, cliente, me incitando a deixar a conta dele mais cara. Eu feliz com o resultado do meu mês, que teve crescimento de 40% em relação a 2014. Não voltamos a falar. Ele paga a conta do almoço. Cem reais para dois adultos e uma criança. Preço justo, considerando o lugar e a qualidade da comida. Preço de elite, considerando que na praça da vila um PF com arroz, feijão, salada e peixe sai por R$ 15.

Renato é economista. Se fosse jornalista, talvez, tivesse me jogado contra a parede com a pergunta que não quer calar: “Você tem medo da inflação?” A resposta é: sim. Tenho muito medo. E por isso, talvez, procuro enxergar a chance, a oportunidade, a sacada em meio a possibilidade de voltar a viver daquele jeito doido dos anos 80/90. Tenho tanto medo que talvez esteja perdendo dinheiro porque não quero ser mais um comerciante, mais um empresário, forçando a curva dos aumentos.

Tomara que eu tenha razão. Tomara que em janeiro, o valor da diária que eu vendi hoje faça sentido e que eu possa sentir cantando, com a licença do Chico:

“Meu caro amigo, eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá de novo azul”.

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4 comentários sobre “Tomara que eu tenha razão

  1. Tomara que tenha razão!

    Planejo montar uma pousada em MG, e estou finalizando o projeto de arquitetura e a fase de alvarás com a prefeitura da cidade.

    Gosto muito dos seus textos e sempre fico cheio de esperança quando os leio. Este daqui em particular, gostei muito. É exatamente como penso e como administrarei minha pousada.

    Sei que é uma informação irrelevante, mas por algum motivo fiquei com vontade de compartilhar esse sentimento com você.

    Grande abraço

    André Mota

    >

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