Minha primeira paixão

Hoje meu dia foi, verdadeiramente, descrachado. Acordei cedíssimo e cumpri todas as minhas obrigações. Tirei o atraso. Adiantei o serviço. Respondi e-mails, vendi diárias e resolvi pendências. Em quatro horas de expediente matutino, havia ganho meu dia. Sem lenço, sem documento, no sol de quase agosto, fui passear. De barco, na baía de Todos os Santos. Aprendi a desfrutar consciente e sem culpa.

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Na frente do Forte São Marcelo, que fica defronte ao Elevador Lacerda, tem um posto de gasolina naval. Enquanto o frentista enchia o tanque da embarcação, a visão dos arcos transformados em residência, cada um, uma casa, cada casa de uma cor, me fizeram viajar no tempo.

Me afundei em minha memória. 16 de julho de 1982. Eu tinha 16 anos. Perdi uma viagem para Machu Pichu e ganhei, de consolação, uma excursão rodoviária de doze dias, Soletur, pelas cidades históricas mineiras e pelo litoral brasileiro, de Vitória a Salvador. De Salvador ao Rio de Janeiro. Viajei sozinha. Meus amigos estavam no lago Titicaca tomando chá de coca.

Não foi ruim viajar só. Dividi o quarto com uma bancária carioca. Esqueci o nome dela, mas não sua feição. Era ruiva, usava óculos e manequim 44. Baixa, gordinha e simpática. Não tinha namorado, mas não havia perdido as esperanças. Pediu a Santo Antônio em todas as igrejas nas quais o santo se fez presente.

Por coincidência, eu estava ao lado dela, quando o ferry boat vindo da Ilha de Itaparica foi se aproximando da costa de Salvador. Era final de tarde. A luz era doce. A balsa navegava lentamente e a visão tornava-se mais nítida a cada milha naútica. Enfim, vi e entendi o que era a tal Cidade Baixa e Cidade Alta que eu lia nos livros de Jorge. Do mar, ela era ainda mais bonita e misteriosa do que eu imaginara.

Antes de seguir, preciso falar sobre o título. Botei primeira paixão porque título tem que ser direto e vendedor. Na verdade, não consigo hierarquizar esse sentimento. Não sei se a primeira paixão da minha vida adulta foi Salvador ou Jorge Amado. Talvez Salvador seja a segunda e colateral. Antes de visitar a cidade, eu a conheci e a percorri lendo Amado. Imaginava as ruas, vielas, ladeiras, igrejas, bares, praias, bibocas, favelas, cortiços, casarões, sacristias, Campos Santos, altares, avenidas e praças. Sentia os sons, odores e sabores e, criança, imaginava que poderia cruzar com meus personagens favoritos caminhando pelas ruas.

Daquela vez, não conheci ninguém mas me perdi para sempre. A cidade me arrebatou. Cedi aos seus encantos óbvios e também aos mais sutis e invisíveis. Tive medo e tentei fugir. Não teve jeito. Um ano depois daquela primeira visão, lá estava eu de volta. Dessa vez para conhecer pessoas que marcaram minha vida. No ano seguinte, de novo. Em cada retorno, mais paixão, mais tesão, mais encontro.

No final dos anos de 1990, depois de visitar Jorge Amado, já doente, fazer um perfil com Tieta/Sonia Braga nas ruas da cidade e compartilhar à mesa e o morro da Paciência com o ídolo Caetano Veloso, o destino me levou para longe. Fiquei 10 anos sem voltar. Sem estabelecer contato. Sem sentir desejo. A Bahia ficou guardada na minha caixinha de pandora do bem. Bem trancada. Bem escondida.

Olhando os arcos de casas, uma do lado da outra, uma de cada cor, pensei sobre a vida e o destino. Será que maktub estava escrito? Será que era mesmo inexorável eu me encontrar hoje, 35 anos depois, na mesma baía, fascinada pelos mesmos arcos? Será que teria sido diferente se eu tivesse me mudado para Berlim?

Na falta de uma resposta, lembrei da canção Cajuína de Caetano, que coincidência, apareceu em um site, pouco antes de eu começar a escrever, de cuecas ao lado da Carla Perez e do Xandy*.

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

Depois da música e antes do ponto final, aproveito para dizer que sou fã do Xandy e que sempre fui tratada com muito carinho pelo casal.

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2 comentários sobre “Minha primeira paixão

  1. Olá Cláudia! Boa tarde! Já tive a oportunidade de ler um pouco sobre você no LinkedIn… agora, vou passar a seguir o seu blog! A única coisa que tenho a lhe dizer: parabéns!! Parabéns por sua coragem e por suas realizações. Quem sabe um dia possamos conversar pessoalmente… Grande abraço.

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