Ouvi o nome dela errado, mas a história, juro, é verdadeira.

Sou fascinada pela Aldeia Hippie de Arembepe. Pouco vou lá. Talvez por isso meu fascínio. Tenho um projeto – daqueles que a gente tem para um dia fazer – de criar um museu à céu aberto para contar a história da aldeia. Para quem não sabe, trata-se de uma das mais importantes comunidades de malucos de estrada – o nome contemporâneo para hippie – do mundo. Desde que Janis Joplin baixou por lá e mostrou como se canta Summertime para seus amigos baianos, o lugar virou uma espécie de Santiago de Compostela para os adeptos do modelo de gestão Flower Power. Para ser hippie de verdade, é obrigatório passar por lá, ao menos, uma vez na vida.

foto G1/Janir Junior
foto G1/Janir Junior

No verão, chega um monte de gente. Muitos gringos vindos da Europa e da América do Sul, com destaque para argentinos sempre muy amigos. Na baixa temporada, o lugar fica calmo, quase pequeno burguês, graças à população fixa, que tem filho matriculado na escola, conta fiado no mercado e ponto fixo na porta do restaurante Mar Aberto, um dos melhores do litoral Norte da Bahia, para vender artesanato.

Já tive uma funcionária, Desirée, que tentou escapar do bantu da aldeia. Separou do amor da vida dela, aceitou a palavra fiel do Jesus Cristo Evangélico e trocou a bata de batik pelo uniforme de ajudante de cozinheira. Durou pouco. O suficiente para ganhar um salário, um fogão de quatro bocas – porque ninguém é de ferro, mesmo quando a proposta é viver o amor em uma cabana – e um bocado de roupas para os meninos. 40 dias depois do primeiro bom dia, Desirée partiu, sumiu, escafedeu. Traiu Cristo, o pastor, a palavra e voltou para a lida de vender a pulseira de couro ao meio dia para comprar no final da tarde a janta.

Sempre que vou para aquelas bandas, levar algum hóspede no projeto Tamar, vizinho à Aldeia, estico o olho. Tento enxergar razões, motivos, inspirações para aquele estilo de vida e de estética. Mais do que viver sem trabalho fixo, enfim, sem crachá, os hippies cultivam à liberdade e se lixam para a segurança financeira. O que vale é o agora. O hoje. Não estão nem ai se faltará comida, bebida ou fumo amanhã. Também têm hábitos e estética muito particulares. Ainda hoje, têm aflição à barbeiro e cultivam o cabelo comprido de modo radical. Na cabeça, no rosto, no sovaco, no púbis, nos braços e nas pernas. Pelos rebeldes, pelos selvagens (pelo ainda tem acento?). Cabelo, cabeleira, cabeluda. Sem xampu ou sem água doce, as madeixas volumosas e rebeldes dão uma impressão permanente de uma falta de limpeza. Em compensação, na maioria absoluta das vezes, cruzo o meu olhar com o deles e vejo doçura, paz e tranquilidade. Como a fala, arrastada, tranquila e leseirenta. Como o espírito, conformado, compreensivo e apaziguado.

Chovia domingo. Eu fazia minha segunda viagem ao projeto Tamar, desta vez para pagar uma dívida de seis reais. O porteiro nos deixou entrar no fiado. Prometi retornar logo e pagar. Cumpri. Estava no caminho de volta quando vi a menina. Alta, magra, tez morena, cabelos pretos. Bonita como todos os adolescentes conseguem ser. Alma e corpo frescos. Olhos vivos. Pele brilhante e rija. Só os cabelos, maltratados, roubavam um pouco da espetacular beleza daquela menina. Cheguei junto com o carro e ofereci carona. Queria tirá-la da chuva. Queria ouvir a história dela. Sim, confesso a minha péssima intenção.

Ela aceitou a carona, mas entrou muda no carro. Percebi que era nova, mais nova que seu 1m72 de puberdade.

“Você está indo para o mercado?”, perguntei.

Ela fez que sim com a cabeça, tímida. Parecia intuir que seria metralhada de perguntas. Tateei. “Qual é o seu nome?”

Com voz fraca, ela respondeu: “Ananaiara”. Ao menos é isso que a minha memória entupida de vinho e lixo digital conseguiu guardar.

“O que significa?”, perguntei. “Duas flores”.

Percebi que a entrevista seria difícil. Ela era lacônica. Ressabiada. Aceitara a carona porque vira confiança na “sueca cinquentona two reais”, mas não pretendia entregar sua história em troca de mil metros de transporte.

“Você mora na Aldeia Hippie?”. Ela fez que sim com a cabeça.
“Nasceu aqui?”. De novo, agora com movimentos laterais, ela fez que não. “Nasci na Chapada Diamantina”, respondeu trinta segundos depois.

“Veio de lá para cá?”, provoquei. De novo, silêncio. “Não. Chequei aqui com quatro anos. Antes passei por nove países”.

Me animei. A menina tinha história.

“Quais países você conhece?” “Não sei. Não lembro. Acho que Colômbia, Argentina…”

“Você foi para a Europa? Estados Unidos? Ou só viajou para a América do Sul?”

Silêncio. Estátua. Ela não respondeu nada, nem fez qualquer movimento. De verdade, não sabia. Nada.

Truquei. “Você é hippie?”

“Eu não. Meus pais são.”

“Você não quer ser hippie?”

“Não”.

“Por que?”

“Porque não gosto. Preferia viver de outro jeito”.

“Você estuda?”

“Sim”.

“Tem televisão em casa?”

“Sim”.

“Então?”…

Quando soltei o então percebi o quanto idiota e velha eu era. Ter televisão em casa é pergunta do IBGE do século XIX. Que adolescente de 12 anos, a idade de Anananaiara e a mesma do meu filho, está preocupado com televisão? Eles querem Face, Insta, tablete, zapzap. Eles produzem o conteúdo que consomem. Eles criam novas linguagens. Inventam programas, aplicativos e efeitos especiais. Fazem música. Produzem seu programas no Youtube e arregimentam milhões de fãs. Não estão nem aí para as tramas da 5, 6, 7, 8, 9 e 11 da noite do Plimplim. Quanto muito, acompanham uma temporada de Masterchef ou devoram uma temporada de Gracie and Frankie no Netflix em ritmo de Triátlon. De que adiantava para Anananaiarara ter uma TV se ela não tinha um celular?

“O que seus pais fazem? Eles ainda vivem juntos?”, perguntei testando a longevidade do amor hippie.

“Sim estão. Faz 20 anos. Meu irmão mais velho tem 18. Eles fazem e vendem artesanato”.

Não, na casa dela não tem wi-fi nem computador. Ela conhece e usa, mas apenas na escola. Quando crescer, quer ser médica, dentista ou professora. Hippie não, não mesmo. Não gosta.

Lembrei das minhas batas de linho branco com pespontos em linha colorida, que adorava usar nos meus quinze anos. Combinavam com shorts curtos de jeans e belíssimas sandálias de couro curtido, fedidas como quê, que comprava no Mercado Modelo ou na Ladeira da Barroquinha sempre que vinha para Salvador da Bahia. Era comprar e perder. Voltava para São Paulo feliz, pendurava no armário e descia a Serra para terminar as férias no Guarujá, habitat da minha geração dourada. Era o tempo que minha mãe precisava para dar cabo do meu figurino BG (bicho grilo, o sinônimo de hippie da época).

Por que aquilo que os pais gostam os filhos odeiam? Por que aquilo que os filhos odeiam os pais adoram? Por que aquilo que os filhos amam os pais detestam?

Porque assim é a vida. Talvez. Porque, dizem os psicólogos, é preciso realizar o processo de individuação e se desconectar, por meio da rejeição, do ódio, dos opostos, da nave-mãe. Será?

Chegamos ao mercado Fonseca. Parei o carro na porta. “Muito prazer Anananananaiara. Você é filha da Desirée?, perguntei tentando puxar o último fio de conversa. “Não, minha mãe se chama Rosana”, ela respondeu, abrindo a porta do carro.

“Obrigada”. “De nada”.

Entramos juntas no mercado, mas logo a perdi de vista. Tinha que comprar folhas para a salada e limão para a caipirinha. Hora de ter pressa. Pensei dar à menina de nome de duas flores um xampu Pantene de presente. Cheguei a pegar aquele que a Gisele Bundchen anuncia. No caixa, não a encontrei. Deixei para trás, tentando lembrar como era mesmo o nome dela.

A poesia acaba aqui. Para editar o post, comecei a pesquisar na rede imagens. Procuro o óbvio. Aldeia Hippie de Arembepe. Encontro uma reportagem bem apurada do G1. Janir Júnir, texto e foto, fotografou minha menina e toda sua família. O pai Leandro, uruguaio, o irmão mais novo, Queñoa, e seu Jegue, Moleque, e Anahinayá. Sim, ele ouviu direito. Anahinayá, que como eu disse, quer dizer nome de duas flores. Na foto, ela tinha dez anos. Agora tem doze. Continua linda. A casa da família agora tem televisão. Não tinha.

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2 comentários sobre “Ouvi o nome dela errado, mas a história, juro, é verdadeira.

  1. Adorei a história, como hippie de alma que sou. Um dia conseguirei e poderei viver assim. Passo apenas para comentar, e peço q não entenda como ofenda, mas só quem é hippie (de alma e/ou de fato) entende os hippies.Por mais que os demais seres humanos tentem, respeitem, achem interessante, turístico, divertido, e outras coisas mais, não conseguem. Ainda mais se vierem de um mundo corporativo como o seu…. mesmo vc estando ‘descrachada’ agora e levando uma vida ‘zen’, é muito distante… a filosofia hippie e o que os motiva escapa à compreensão comum. Como vc mesma menciona, “Tento enxergar razões, motivos, inspirações para aquele estilo de vida e de estética.” Talvez vc nunca consiga entender. E isso não é nenhuma ofensa ou agressão, viu..?! Acho que da mesma forma, eu busco compreender as razões de tantas pessoas viverem um estilo tão luxuoso, consumista, fútil e distante da natureza… me escapa. Sou incapaz de compreender. Beijos!

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    1. Claudia, compreendo perfeitamente o que você diz. Não tenho alma hippie, apesar de não ser consumista. Eles me encantam, fascinam mas não consigo a aproximação necessária para ter uma identidade de alma. Sou coxinha. Sou certinha. Sou careta. E acho que por isso ainda não levei adiante o projeto do Museu a céu aberto. Não sinto ter o direito de fazê-lo. um beijo grande

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