A melhor coxinha do mundo

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Descobrir o talento é um divisor de água. Algumas pessoas nascem com habilidades tão evidentes que isso está longe de ser um problema. Mozart compôs sua primeira sinfonia aos cinco anos. Pelé ganhou sua primeira Copa do Mundo aos 17. Mark Zuckerberg fundou o Facebook aos 20. Pessoas normais também se revelam cedo. Minha sócia, Nil Pereira, aprendeu a fazer a melhor coxinha do mundo aos 15 anos, quando ainda morava em sua cidade Natal, Ilhéus. Aprendeu com a mãe dela, dona Aidil, para juntar um dinheirinho e comprar um sapato “cavalo de aço”. Para quem não é das antigas, a explicação: cavalo de aço é um sapato de couro com salto plataforma, que fez muito sucesso na época da Jovem Guarda.

Nascida na terra do cacau, Nil não era filha de fazendeiro rico. Longe disso, dividia o orçamento de classe média com outros quatorze irmãos. Por isso, desenvolveu seu dotes culinários, dignos de Gabriela, para subir na vida. Começou fazendo coxinhas para fornecer às cantinas das escolas da cidade. Foi ficando craque e rápida. Uma coxinha por minuto. Sessenta coxinhas por hora. Um real por coxinha, 60 reais por hora em dinheiro de hoje. A conta se tornou exponencial quando Nil se mudou para Salvador, a capital. Na época, o dinheiro era cheio de zeros e a inflação comia o resultado do trabalho no final do dia. A produção era alta. Uma média entre 800 e mil coxinhas por dia, que eram vendidas em lanchonetes, barracas de rua e cantinas de colégio. Nos finais de semana, a produção migrava para festas familiares e casamentos. O lucro não era exatamente espetacular, mas dava para pagar a conta do aluguel de um apartamentinho na Barra, condomínio, gastos pessoais e um dinheirinho para a farra do final de semana. Estamos falando dos 80, os melhores anos da vida de quem já ultrapassou a barreira dos 50.

A coxinha da Nil virou um ícone cult. Especialmente quando ela deixou de fazê-las profissionalmente. Nos anos 90, ela se tornou uma das maiores produtoras de evento da Bahia, o quitute tornou-se exclusivo dos amigos e parentes. Vez por outra, um coro de famintos pedia que ela fizesse a guloseima. E ela, orgulhosa, ia para cozinha preparar a massa, o frango e o recheio. Como se trata de evento, nestas ocasiões ela monta uma bancada e faz as coxinhas ao vivo e a cores para todos verem e aplaudirem a sua habilidade. É quase um happening. Como ela tem um metro e meio de altura, sua modéstia não é proporcional ao tamanho. Ela diverte todos definindo-se como a melhor fazedora de coxinhas do mundo. Como a mais rápida de todos. Como a mais perfeitas. Todos riem. Quem discute, toma uma tapada de primeira. “Eu sei fazer coxinhas. E você, sabe fazer o quê?”

Quando ouvi a pergunta pela primeira vez, calei. Sei escrever mais ou menos. Escrever não enche a barriga de ninguém. Vou roubar uns versos da música Língua de Caetano que têm duplo sentido e cabem perfeitamente para fechar este texto:

Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira

Comecei minha jornada assim. Fazendo coxinha! Hoje estou fazendo a Coxinha da Nil para meus amigos e hóspedes queridos! #pousadacapela #coxinhadanil

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11 comentários sobre “A melhor coxinha do mundo

  1. O mundo é muito pequeno mesmo. Tenho uma grande amiga, quase irmã que morava na Barra, trabalhávamos juntas com serviços datilográficos profissionais, o nome dela, Tánia Laurentino, mãe de Kiko, Juliana e Rafael, faziamos este trabalho para aumentar a renda nas horas vagas, eu levava minha filha Rafaela pois finais de semana trabalhávamos muito também. Daí, ela tinha umas vizinhas muito legais que faziam salgados maravilhosos que nos levavam para provar, deliciosos, e quem era uma delas? Nil Pereira. Depois como o mundo é mesmo muito pequeno, a filha de um primo meu teve uma filha com o sobrinho dela Corintus,que é uma princesa linda, e há nove anos, eu, meu marido e filha moramos aqui em Arembepe e qualquer dia vamos aí provar e relembrar a deliciosa e melhor coxinha do mundo, é verdade. Parabéns Nil Pereira.

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  2. Hum. . Só de ler este texto já fiquei com vontade de provar! Deve ser maravilhosa! Estou em planejamento para logo ir visitar a pousada A Capela… li seu livro Cláudia e confesso que sonho em ir conhece-la e agora irei sonhar com a coxinha da Nil 😊 quando eu for vou querer provar!! Sucesso meninas!

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