A arte sem compromisso de David, Picasso e Van Gogh

Luis, Janderson e Diego com suas pinturas em azulejo: arte e empreendedorismo
Luis, Janderson e Diego com suas pinturas em azulejo: arte e empreendedorismo

Fui almoçar com amigos no litoral Norte das Alagoas. Ali, onde o mar é verde água e todos os cachorros são magros como a cadela Baleia. O restaurante, craque em lagostas, ficava à beira de estrada e era simpático e descontraído. Com muita educação, três garotos se aproximaram da nossa mesa. Nas costas, traziam mochilas surradas e muito cheias. O maior e mais falante pediu licença e ofereceu: “vocês querem conhecer a nossa arte?”
Por alguns segundos processamos a informação para checar, binariamente, se havíamos ouvido bem. Amendoim ou arte? Castanha de caju ou arte? Colcha de filé ou arte? Acho que foi o fotógrafo Alaor Filho, mais rápido, quem perguntou primeiro:

— Vocês fazem arte? É isso mesmo que eu ouvi?

Com a cabeça e o sorriso já grande, Janderson, vulgo Picasso, fez que sim.

— Somos pintores. Podemos pintar, sem compromisso, para vocês? Se gostarem compram, se não, tudo certo”, respondeu o jovem, que não copiava os traços do mestre espanhol mas sabia que ele era muito importante. Neste momento, reparei que os três tinham os dedos coloridos de tinta óleo.

Fizemos que sim em coro. Não é todo dia que uma trinca dessa aparece na sua mesa de almoço. Perguntei o nome dos outros dois. Luis, o menorzinho, o mais sério e mais talentoso, era também conhecido como David. David de Michelangelo?, questionei. Ele fez que sim com a cabeça, esboçando um leve sorriso. Podia mas não expliquei que Davi era a obra e não o artista. Temi envergonhá-lo na frente dos amigos. Então, ele pode ser David, de David Hockney. O terceiro chamava-se Diogo, dito Van Gogh. Rapidamente sacaram das mochilas estojos de tinta e três azulejos brancos pequenos.

Sem cerimônia, sentaram-se no chão ao pé da mesa e começaram a pintar. Eram rápidos. Tinham verdadeiramente a noção de produtividade e meta a cumprir. No restaurante outras quatro mesas estava ocupadas por potenciais clientes, que olharam para trás depois da festa que fizemos em torno do trabalho deles.

Curiosa, puxei conversa com Janderson. “Onde você aprendeu a pintar desse jeito”, perguntei. Ele, sem tirar os olhos do trabalho, respondeu ligeiro: “Na internet, tia. Lá tem um vídeo tutorial que ensina como fazer esse tipo de pintura. Os desenhos eu tiro da minha cabeça mesmo. É só olhar a paisagem e copiar”.

Assim, digamos, embasbacada pela articulação e firmeza o rapaz, sorri e iniciei a entrevista com os outros. Davi era o mestre. Havia aprendido a técnica na escola e ensinara os truques para os demais. Era mais tímido e encabulado. Precisava da coragem dos outros para abordar os clientes e ganhar o dinheiro dele. Quando perguntei se ele queria ser artista quando fosse grande, devolveu outro meio sorriso e não respondeu. Faria bem ao Estado, com poucos expoentes, além de Delson Uchoa e Alan Monteiro.

Cinco minutos depois, nossos três azulejos estavam prontos. Paisagens marinhas, pôr do sol, saveiro. Lindos para enfeitar um canto da minha pousada. Inspiradores para quem acredita que tudo pode dar certo no final. Um argumento para quem defende a arte educação, como forma de engajar jovens de baixa ou alta renda. Parodiando o ambulante que circula dentro dos vagões do metrô, “eles poderiam estar pedindo; eles poderiam estar roubando; eles poderiam estar na praia jogando bola”. Felizmente, além de artistas, eram empreendedores, vendedores e safos. Não mergulhei fundo na história pessoal deles, para saber se estavam trabalhando no almoço para poder comer o jantar. Confesso que deixei a reportagem de lado para admirar a obra e, também, a hipótese de que estava na frente de três jovens artistas, com talento e disposição para buscar um futuro produtivo, criativo e empreendedor. Sempre gostei de arte naif. Acho que esse encontro foi um presente para mim.

Cada azulejo com arte custava dez reais. Entregamos uma nota de 50 com incentivo e gorjeta embutidos. Voltei para casa no dia seguinte. Não pude reencontrá-los para fazer todas as perguntas que tinha e não fiz porque detesto destruir momentos mágicos. Felizes, posaram para a foto que publico acima e foram oferecer a “arte sem compromisso” na mesa ao lado.

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4 comentários sobre “A arte sem compromisso de David, Picasso e Van Gogh

  1. Claudia, a escrita reflete a sensibilidade do seu olhar . Os três artistas realmente são simbolos do poder da arte educaçao . Pena , que o investimento nesta temática seja muito pequeno . É incrível o que assistimos em Japaratinga , interior de Alagoas . Fico feliz por ainda existir “davis” Picassos e Van Goghs no interior de muitos meninos brasileiros ! Janice

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