Alface, matemática e muita conversa

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“Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar”

A história que eu vou contar não é de pescador. Longe disso. Saito, hoje advogado, começou cedo a trabalhar como horticultor. A frase da canção do Chico puxou essa história, porque estávamos nas margens do Delta do Jacuípe, litoral norte da Bahia, quando ele abriu o peito e o sorriso para me contar sua saga. Digna de samurai. Digna de um desbravador.

Saito é filho da primeira geração de japoneses que chegou à Brasília, em 1957, a convite do presidente JK. Isso mesmo. Conta a lenda que Juscelino estava com uma junta de correligionários para decidir o que ainda faltava fazer na nova capital. José Aparecido, jornalista, amigo e político, lembrou que no meio do cerrado não havia hortaliças. Nada. Nem alface, nem tomate, muito menos couve mineira, verdura base do cardápio diário dos filhos das Gerais. O que fazer? Importar de São Paulo?

– Vai custar muito caro, teria ponderado o engenheiro Israel Pinheiro, responsável pelas obras da cidade. Melhor trazer uma Kombi repleta de japoneses.

Folclore ou não, foi exatamente isso que aconteceu. De van, de ônibus, eles chegaram e se instalaram na região do Riacho Fundo, onde havia uma terra mais úmida. Segundo Ernesto Silva, autor de História de Brasília, no começo, eles plantaram, colheram e quase foram à bancarrota por falta de consumidores. Os candangos, em sua maioria vindos do Norte e Nordeste, não tinham hábito de comer legumes e verduras. Preferiam comida de mais sustança para aplacar a fome e encher a barriga sempre vazia.

O pai de Saito acreditou na promessa desenvolvimentista do presidente JK. Não pensou das vezes e embarcou na primeira leva. Comprou terra, casou e teve três filhos. Todos começaram cedo a trabalhar e a empreender. Saito-pai era inquieto, ambicioso e muito bravo. Logo se cansou do dia a dia das hortaliças. Decidiu que queria ser fazendeiro. Ganhar com bois. Juntou os filhos, o mais velho, com 13 anos, e ordenou:

— A partir de agora, vocês vão trabalhar duro. Serão os responsáveis pelo meu negócio. Quero resultado, porque com o dinheiro dos alfaces vou virar o rei do gado.

Não teve jeito. Saito-pai era uma fera. Sabia mandar e os filhos aprenderam a obedecer. “Uma vez, ele mandou que catássemos todas as batatas pequeninas da nossa plantação. Íamos ganhar um centavo por cada uma colhida. Ficamos com as costas quebradas”, conta dr. Saito, que até hoje tem tórax e bíceps de quem já carregou muito peso na vida. “Hoje, quando lembro dou risada da exploração. Elas eram batatas bolinhas, que já valiam um bocado nas feiras para gourmets e restaurantes”. No que dependesse da visão do fazendeiro, nenhum herdeiro precisava ir à escola. Bastava labutar, de sol a sol. Saito-filho era um gênio da matemática. Tinha facilidade com os números e ao mesmo tempo adorava estudar. A ordem do pai foi como uma condenação. Estava preso à vida no campo. Dura, seca e cerrada.

— Imagina um menino de 13 anos, assim como o seu filho, mandando na peãozada. Negociando a safra. Arrumando dinheiro com o gerente do banco para comprar semente. Dirigindo o caminhão com toda a mercadoria na boleia. Era muito assunto para mim. Não sei como aguentei.

Enquanto lembra e conta, Saito-filho se emociona. Revive com palavras, a dificuldade da autoridade na sua infância. A força do pai. A fraqueza sua. A desigualdade na relação com os funcionários e com a cadeia produtiva na qual foi metido à força.

— Eu era bom de negociação. Vendia bem a nossa mercadoria. Fiz muito dinheiro e meu pai perdeu tudo com o gado. Um dia me enchi. Larguei a escola, abandonei o posto de gerente da fazenda de hortaliças e me mandei para o Japão. Fui ser dekasegui. Arrumei um emprego em uma metalúrgica. Continuei a trabalhar de sol a sol, só que do outro lado do mundo. Queria estudar Direito e esse foi o jeito que encontrei para ganhar dinheiro, escapar do julgo do meu pai e me preparar para empreender sozinho.

Foram vários anos de privação. Foram vários anos de solidão. Quando voltou, foi aprovado na primeira lista do vestibular da Universidade Federal de Brasília. Saito seguia sendo um gênio, não só da matemática. Metade do dinheiro ganho na terra dos seus ancestrais, foi entregue ao pai que torrou tudo em suas loucuras empreendedoras. O resto ficou com ele e serviu para banca-los nos primeiros anos de estudo. Saito se contratou para estudar. Logo arrumou estágio em um grande escritório de Brasília. Deu certo rápido. Agradou. Prosperou.

Podia ficar sócio, podia ficar rico. Não quis. Decidiu largar o escritório e começar outro por conta própria. Estava neste momento quando conversamos a beira-mar. Ele tinha esperança e um pouco de medo. É pai de dois filhos e nem em pesadelo cogita faltar com o bom e o melhor para eles.

— Eles são o meu tesouro. Sou apaixonado por eles. Minha mulher vive dizendo que eu os estrago, porque não sei dar bronca nem dizer não. Fazer o quê? Não consigo repreendê-los sem lembrar da bravura do meu pai. Nem pensar repetir o que ele fez comigo, diz.

Pergunto sobre o velho. Está vivo? “Claro. “Acabou de se casar com uma moça mais nova do que eu. Ele é danado, tem uma energia que eu não sei de onde vem. E até hoje, teima que um dia será o rei do gado.”

Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente, laiá, laiá, laiá, laiá

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