Me perdi na dor do meu umbigo e esqueci do sofrimento do meu filho

 

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Hoje de manhã recebi um torpedo. Era do meu filho, Chico, que aos 12 anos, assumiu a função de empresário de minha carreira de escritora descrachada. Com olhar crítico e exigente, opina sobre a capa do Vida Sem Crachá, questiona a foto, discute a tipologia e o subtítulo, como se ganhasse para isso. E, o melhor, está muito feliz – tanto quanto eu – fazendo isso.

A mensagem matutina dizia o seguinte:

“Mamãe, por que você não pede para lançarem o livro dia 25 de agosto? Foi o dia em que você foi demitida, e eu acho que essa simbologia ajuda”

A memória do meu filho para datas é incrível, mas isso não vem ao caso. A questão relevante desta mensagem, cujo significado e simbologia só assimilei agora, é o quanto Chico sofreu com o meu “descrachamento”, com a minha sumária demissão. Generoso, guardou a dor dele, sem exibir lamúrias, e me deixou expiar a minha. Só agora, quase um ano depois, quando a minha dor curou, ele abre o peito e mostra as cicatrizes na pele dele e realizado assume, junto comigo,a função de “meu agente particular”.

Chico, como milhões de crianças filhas de mães workaholics e apaixonadas pelo trabalho, praticamente nasceu na firma. Deixei de trabalhar em uma sexta-feira, 13 de setembro, e ele nasceu na segunda, 16. Tenho uma amiga querida, agora também sem crachá, que entrou em trabalho de parto na redação (essa história ela contará melhor do que eu). Voltei ao serviço quatro meses depois de pari-lo, para fazer meio período e poder amamenta-lo por seis meses. Com um ano, ele passou a me acompanhar aos sábados e domingos quando havia um fechamento extra. Pequenino, engatinhava pelos corredores enquanto eu terminava um assunto. Aos dois, viajou comigo para um treinamento de gestão. Ele, meu pai e minha mãe, nas horas de folga, fizeram a alegria dos meus colegas entendiados com o blá-blá-blá dos palestrantes. A partir dos cinco, podia ficar horas na minha sala, brincando no computador. Nunca enjoava. Jamais pedia para ir embora.

Com oito, aprendeu a tomar o elevador sozinho. Com meu crachá, sabia fazer compras na lanchonete ou ia visitar a madrinha na redação de sua revista preferida. Aos 10, já apaixonado por outros títulos, transitava desenvolto pelos andares e corredores. Era conhecido como o Chico, o menino. O menor incapaz. O menor aprendiz. Tinha passe livre nos eventos, prêmios e redações. Era simpático, gentil e também filho da chefe, o que lhe rendia agrados e muitos chocolates.

Nunca perguntei para ele, mas não deve ter sido fácil contar aos colegas de escola que sua mãe tinha virado ex-executiva, ex-diretora, ex-fodona. Pelas redes sociais, vários pais de amigos dele ficaram sabendo do meu destino e da minha mudança, literal, de status quo. Me lembro, no entanto, que quando eu era criança costumávamos disputar poder e fazer bullying a partir da posição dos familiares na escala richter da sociedade paulistana. Eu, por exemplo, me exibia dizendo que meu trisavô era verbete da enciclopédia Delta Larousse. Talvez Chico faturasse algum contando sobre minha proximidade com artistas e celebridades.

A dor do Chico foi interditada pela dor do meu umbigo. Na única vez em que ele fez um comentário no qual destilava a raiva que sentia, muito brava disse que ele não podia dizer aquilo. Honesto, como só as crianças sabem ser, disse que tinha vontade de explodir o prédio pelo qual transitou durante 11 anos e 11 meses. Sim, filho, na vida tudo é muito simbólico.

Chico não é terrorista. Chico é solidário e generoso. Chico é humano e, hoje, só hoje, quando tudo está bem, muito bem, obrigada, eu percebo que falhei com ele. Não lhe dei colo, nem abraço. Não lhe fiz acalanto. Não lhe permiti chorar baixinho do meu lado. Desculpe, Chico. Obrigada, Chico por entender e perdoar a minha incapacidade.

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39 comentários sobre “Me perdi na dor do meu umbigo e esqueci do sofrimento do meu filho

  1. Difícil agir diferente. Você é demitida, têm que dar conta do luto, planejar a grana, pensar nas alternativas num momento que, tudo que você gostaria era deitar e chorar ou tomar um porre.
    Não dava pra dar colo. Isso mostramos aos nossos filhos. Nossa caráter humano. Nossas dores. Essa sinceridade aproximou mais o Chico. Pode crer. Beijo.

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  2. A editora perdeu e eu ganhei. Recebo ora ou outra página da minha revista eletrônica, gratuita e com os mais vários assuntos. O de hoje me fez maquiar novamente antes de “vestir” meu crachá.

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  3. Antes de sermos profissionais, somos humanas e mulheres (ser boa em tudo, isso não é uma missão fácil), e acredito que as coisas acontecem por alguma razão. De repente, a razão era a de poder aproveitar muito mais e melhor seu tempo agora com seu filho! Tudo tem seu tempo, graças a Deus!

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  4. Oi Claudia – Foram 11 anos e 11 meses para seu filho e uma longa e bem sucedida carreira para você. O que importa é que vocês dois fizeram amizade com o tempo e deixaram que ele se encarregasse de organizar tudo de novo. Você é um exemplo de para o Chico!!! Certamente, ele será bem sucedido na vida (e aqui não importa o que isto signifca) graças a você. Beijos!!!

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  5. Belíssimo texto Claudia, vivi esse luto o ano passado também, me identifiquei muito com seu texto a vida sem crachá!!!!!! Ansiosa pelo livro!!!!!! Sucesso!!!!!

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      1. De tudo que eu venho lendo, pesquisando, sentindo e tudo mais nesse processo de autoconhecimento, eu percebo que todos nós seremos humanos, em algum momento da nossa vida, fomos rejeitados ou abandonados. E não tivemos acolhimento no momento em que precisávamos. E para fugir dessa sensação de novo, cada um encara de um jeito. Uns criam carcaças de auto suficientes, outros ficam eternamente carentes, outros agressivos, outros eternamente insatisfeitos… enfim, quando li seu texto, mais uma vez percebi esse lance da falta de acolhimento talvez que vc não teve com o Chico naquele momento, e como ele reagiu a longo prazo. Não significa que é algo negativo; apenas uma forma de reagir a falta de acolhimento….
        E pensei no meu histórico, no histórico das minhas amigas quando escuto histórias parecidas… sempre passamos e passaremos por isso de alguma forma (nos relacionamentos, trabalho, vida social….)
        Consciente ou inconscientemente….
        Na verdade tava só pensando alto, rs….

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  6. É isso! Fazemos o que precisa ser feito, também por eles – nossos filhos, e dentro do nosso zelo combinado com o turbilhão do cotidiano acabamos não percebendo algumas coisas. O bom é que sempre há tempo e as crianças sempre nos pregam as boas surpresas da vida. São “pessoas pequenas” afinal… =)

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  7. Já vivi essa situação. No dia em que minha filha nasceu, trabalhei até 5 horas antes e cheguei atrasada para a cesárea. Quando ela tinha 21 dias de vida, voltei a trabalhar. Com 2 meses, ela ia comigo para a confeção. A partir dos 5 meses de idade, eu já de volta ao mundo corporativo, ela ficava dias esperando a mãe chegar das viagens de trabalho. Foi necessário para pagar as contas, mas não tornou mais fácil ficar longe dela. Compensei com atenção dobrada e o coração apertado tanto quanto me foi possível. Ainda penso em como teria sido bom ficar mais tempo com ela no colo, ter ido mais vezes buscá-la na escola. Não deu. Mas a vida foi generosa comigo: assim como o seu Chico, o meu, que atende pelo nome de Bianca, parece ter compreendido minhas limitações e decidido que eu merecia uma segunda chance.

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  8. Que texto mais lindo!!! Mas acho que esse é o grande dilema das mulheres hoje: ser boa mãe ou ser boa profissional? É BEMMM difícil conciliar tudo isso… e ainda nos cobramos disso, mais que nossos chefes e nossos filhos…

    Que bom que o Chico é um fofo! Com certeza teve a quem puxar, hehe!

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