A rede. Bota a rede no mar

PescadoresemChennai, Índia

Ô canoeiro
bota rede,
bota rede no mar
ô canoeiro
bota rede no mar.

Cerca o peixe,
bate o remo,
puxa corda,
colhe a rede,
ô canoeiro
puxa rede do mar.

Felipe, Dorival, rede, Índia, Luis, Pernambuco, Franco, Floripa. Eu sei que é tarde, mas, juro, não bebi. A rede (de pesca, do pescador de Dorival Caymmi ou digital do Felipe, da Índia) me pegou hoje, logo cedo. Estava escrevendo um artigo para uma revista da Federação do Comércio da Bahia, quando o celular tocou. O código era do cerrado. Algum lugar nas cercanias de Brasília. Atendi, acreditando se tratar de um candidato a hóspede. Não era. Era o Felipe, brasileiro, funcionário de uma empresa de serviços digitais para gestão de reservas online. Na véspera, havia mandando um email consultando sobre preços e modelos de serviço. Preciso oferecer um sistema de reserva online, em tempo real, para os clientes da minha pousada. Sou eu quem faz esse serviço. Respondo rápido e religiosamente todos os emails. Tem gente, no entanto, que tem pressa. Quer resolver rápido o assunto. Escolher o quarto, conferir o preço e tascar o cartão de crédito, de preferência logo depois de ler as críticas publicadas no TripAdvisor.

Felipe era gentilíssimo e muito bem informado. Explicou tudo sobre o sistema. Respondeu a todas as minhas perguntas. Só não foi melhor nossa conversa porque, às vezes, o telefone falhava. Achei que era o meu celular dando tilt. Dessa vez, não. O problema mesmo era a distância e a ligação feita por meio de provedor.

— Onde você trabalha, Felipe? Se eu precisar de ajuda, você pode vir até a minha pousada?, perguntei.

Do lado de lá, acho que ele sorriu antes de responder:

— Moro na Índia. Posso te ajudar pelo Skype.

Engasguei. “Como assim, Índia? Que horas são ai, Felipe?”

Ele não respondeu, mas devia ter um fuso imenso. Aqui eram 8h10 da manhã. E ele garantiu que trabalhavam por turnos e que sempre havia gente a postos. “Nosso atendimento é 7 x 24”, prometeu.

O preço que Felipe ofereceu era matador. Muito mais barato do que aquele que pago para um fornecedor brasileiro, com tecnologia nacional. Fiquei animada. Fiquei com medo. Toda a minha história — passado, presente e futuro — de reservas ficaria na nuvem. Nenhum servidor na terra. Nenhum dado no computador. Tudo no céu, no ar, no éter. Não sei porque, mas lembrei da música Chuva de Prata:

Se tem luar no céu
Retira o véu e faz chover sobre o nosso amor

O momento era de decisão e não de poesia. O que escolher? Trocar a segurança do servidor físico, do atendimento próximo e caloroso e mais caro pela tecnologia desenvolvida em rede por centenas de nerds gênios lotados em Mumbai, na Índia?

Confesso, tive medo. Liguei para Luis Claudio, em Pernambuco, rezando para que ele tivesse uma solução. Luis é meu fornecedor do sistema de reservas. Confio nele. Conheço ele. Sempre que dá um pau, ligo para o celular dele chorando e ele resolve o meu problema.

E agora, Luis?

Eu sei que o meu medo é bobo. Sei que não há como escapar da rede, do tripconnected, da venda online, do cartão de plástico. Sei que para prosperar, preciso de update, database, widget, motor de vendas, modelo responsivo e de um monte de coisa que nem faço ideia que existe. É difícil dar esses passos, nos quais somos forçados a abandonar o mundo concreto e familiar por uma rede imensa, enorme, desconhecida. Tudo o que é sólido desmancha no ar. Quando li esse livro, nos anos de 1900 e bolinha, não entendi que podia ser assim tão literal. Também não me preparei suficientemente para tanta revolução. Dia a dia, aceito uma perda e um ganho. Troco a TV aberta com sua novela chata pelo seriado jóia do Netflix. Adio a ida ao cinema para comprar no iTunes Birdman, que perdi. Na livraria, no entanto, deixo o tablet de lado e compro uma belíssima edição de capa dura com uma nova antologia do Mário Quintana. Assim como marco um chá com a Marina para conhecê-la e trocar ideias. O celular, pobre, fica na mesa sem som. Só mesmo meus pais, com costumeira pressa, interrompem o meu colóquio.

Estava com a caneta em punho para assinar contrato quando meu tormento acabou e minhas reflexões meta-tecno-físicas se findaram. Obrigada Brasil profundo e retrógrado das exceções. Não, não posso comprar o serviço do brasileiro radicado na Índia, porque a minha prefeitura baiana exige impressora fiscal na ponta do caixa para evitar fuga de impostos. Só um serviço brasuca dá conta dessas idiossincrasias. Vou pagar caro. Mais do que o dobro do preço, por causa disso. Dessa vez, confesso de novo, minha alma do século passado, que completa 50 anos em novembro, ficou aliviada. A nuvem ficará lá no alto com seus “carneirinhos” e minhas reservas estarão aqui, guardadinhas no servidor. Se der pau, acabar a luz ou pifar a internet, ligo correndo para o Luiz ou para o Franco. Aí deles, se não rolar conserto rápido.

Ô canoeiro
bota rede,
bota rede no mar
ô canoeiro
bota rede no mar.

Cerca o peixe,
bate o remo,
puxa corda,
colhe a rede,
ô canoeiro
puxa rede do mar.

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10 comentários sobre “A rede. Bota a rede no mar

  1. É a rede que enreda as pessoas em relacionamentos (como a sua com seus parceiros de tecnologia) e as nuvens que nos proporcionam um futuro melhor (seja pelo compartilhamento de dados, pela nossa imaginação ou através das chuvas). Só tenho a agradecer pelo chá… Parabéns pelo belíssimo texto!!! Beijos!!!

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  2. Claudia adoro os seus textos e te acompanho já faz algum tempo (mesmo anônima). Gostaria de te fazer um convite para uma palestra, mas não possuo seu email. Meu nome é Raquel Gehling e meu email é keka1sc@hotmail.com. Você pode me enviar uma mensagem para falarmos? Super obrigada e aguardo ansiosa pela seu contato!

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