Só caranguejo anda para trás

Outro dia, vi no Linkedin um post que chamou minha atenção. Um profissional de marketing em fase de transição de carreira (o eufemismo usado para definir quem está à procura de emprego) anunciava-se como uma “oportunidade”. Ex-gerente, oferecia-se para trabalhar como analista sênior. Dizia ter todas as qualificações do cargo anterior e ao mesmo empo empenho e disposição para encarar o desafio de assumir uma posição inferior. Achei bacana a ideia e a postura despida de vaidade do profissional.

Há muitos anos, tive a oportunidade de ser chefe de uma grande jornalista, Judite Patarra, que havia sido minha primeira chefe na grande imprensa. Ela era diretora de redação da revista Saúde e eu uma foca rebelde recém-saída do curso de formação de jornalistas. Aprendi muito, muitíssimo com a Judite. Quando voltamos a trabalhar juntas, sentia enorme respeito por ela e nunca me constrangi com a situação. Ela era tão espetacular como pessoa e profissional, que jamais usou do seu conhecimento e experiência para qualquer tipo de intriga ou guerra de poder. Descobri, entrevistando a consultora de recursos humanos Paula Traldi, que tratava-se de uma exceção.

Na roda viva da gestão de pessoas, não faz sentido “encolher” um profissional. Se um dia, foi presidente, sempre será presidente. Se chegou a superintendente, deve buscar uma posição similar ou partir para um plano A, B ou C. A regra vale para diretor, gerente e qualquer outro cargo executivo. Miopia de RH? Falta de senso de oportunidade de pagar por x e receber x + y? Paula Traldi, cujo currículo acumula a direção de RH de grandes companhias como Unilever, Novartis e Abril, garante que não. “A pessoa até pode aceitar voltar para trás, mas é difícil se manter em paz e produtivo nesse situação, especialmente se o chefe tiver menos experiência e for mais jovem. O grupo percebe o desequilíbrio e é comum ocorrer conflitos de liderança”, diz Paula, que não contrataria um profissional nessas condições.

Existem exceções? Sempre. O filme Os estagiários, com os atores Vince Vaughn e Owen Wilson, transforma em comédia com final feliz a história de dois descrachados de meia idade, recém demitidos, que decidem lugar por uma vaga no Google. No Brasil, o publicitário Jaques Lewkowicz, um dos premiados fundadores da agência de publicidade Lew’Lara/TBWA trabalha desde março deste ano como estagiário do Google Brasil. Tudo bem, ele é rico, rico, rico de marré marré marré e está fazendo isso porque se aposentou e vendeu as ações que tinha da agência no ano passado. Nas entrevistas que deu, Jaques conta que trabalha duro e que sua rotina é totalmente focada em criatividade.

Quem não é Jaques nem Judite, faz o quê? Segundo os especialistas, outra possibilidade de andar para trás é mudar de país ou carreira. Nestes casos, os contratadores são mais abertos ao passo de caranguejo. Existe sempre o desafio da língua e a mudança de cultura, no caso de um expatriado. E, mudar de carreira é como recomeçar. Em ambos os casos, no entanto, o aprendizado precisa acontecer rápido. O profissional cansa de ser subaproveitado.

Pensando bem, não deve ser fácil posar de crustáceo. Como eles, é preciso ter uma carapaça bem dura e resistente para resistir à tentação de dar ideias, palpites e conselhos sobre aquilo que sabemos, pensamos e achamos e não somos chamados a opinar. No início da minha vida sem crachá, cheguei a pensar em virar caranguejo em uma empresa de produção conteúdo. Ainda bem que me contratei antes para escrever e tocar meu plano B.

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13 comentários sobre “Só caranguejo anda para trás

  1. Oi Claudia – Concordo com você que somente grandes mudanças, como uma nova carreira ou a troca de país, podem fazer com que uma pessoa esteja disposta a aceitar um “encolhimento” profissional. Entretanto, creio que ela deva fazer isso de maneira planejada e temporária. Sinto que a “carapaça” que você menciona não resiste eternamente… Beijos e parabéns por mais um excelente texto!!!

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  2. É curioso como está impregnada na sociedade a concepção do que seja “andar pra frente”…. crescemos com a ideia de que “crescer” é “ganhar mais e ter cargos cada vez maiores e mais importantes”. Acumular bens. E ir complicando a vida. Sim, porque não conheço uma só pessoa, dessas ditas “bem sucedidas”, que não tenha uma vida com mil coisas pra administrar. Enfim, o “andar pra frente” por um lado é compatível e diretamente proporcional ao desenvolvimento profissional. Mas em termos humanos, pessoais, emocionais e mais grandiosos que o meramente profissional, “andar pra trás” pode ser um dos maiores passos na vida. Além de exercitar habilidades profissionais que vão enferrujando com a idade, nos manter atualizados e nos permitir o contato com jovens, exercitamos também o desprendimento de PODER voltar ao começo, a humildade, a simplicidade de uma vida inicial. A LIBERDADE material e mental de olhar para “tudo” que se conquistou e dizer “POSSO viver sem isso” é para poucos.
    Admiro Jaques e Judites. São privilegiados, vêem o que quase ninguém vê. Tenho pena daqueles que só andam “pra frente”.

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  3. Oi Claudia Giudice, tudo bem? Discordo um pouco desse título do post.

    Concordo com o comentário da Caudia Albuquerque, muito bem colocado e também da Priscilla.

    Eu mesma, por situações difíceis que enfrentei numa época da vida, aceitei “ser carangueja” e dar 2 passos para atrás, sem nenhuma vergonha. Isso as vezes se faz necessário para suprir nossas necessidades momentâneas e não por isso “perdemos a paz ou nos tornamos improdutivos”. Muito pelo contrário, são nessas situações que exercemos a nossa melhor qualidade de ser humano de adaptação, tendo a humildade de “andar para trás”.

    Seria um grande equívoco dos RH`s serem contrários aos “caranguejos”, pois em muitos dos casos, a empresa se beneficia, afinal eles contribuirão com toda a vasta experiência adquirida e até mesmo superior àquela função, aceitando uma remuneração bem inferior à que teriam direito! Então como isso poderia gerar “conflitos de liderança”, se dar o passo para trás foi aceito humildemente pelo “caranguejo”?

    Não digo que essa minha situação de “carangueja” tenha sido um dos maiores passos na minha vida, mas com certeza me trouxe mais experiência, desprendimento, força, garra, humildade, dentre outros sentimentos.

    Abraços.
    Rosely

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    1. Rosely, obrigada por sua mensagem. O título do post, como normalmente são os títulos de crônicas, é uma provocação. A ideia era mesmo chamar a atenção para um tema tão complexo e sério. Concordo com você. Existem diferentes situações. Tentei mostrar alguns exemplos e uma visão clássica de RH. grande abraço

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  4. Oi, Claudia. Hoje me vejo justamente nessa situação. E sabe que, depois de alguns erros que transbordam a esfera profissional, acredito que a única forma de eu voltar a crescer (e agora me refiro ao espectro profissional) foi rever minhas habilidades e parar de insistir em uma carreira para a qual tenho que exercitar características que não são meus pontos fortes; por isso (e pelos enganos cometidos por mim na vida que inclui aquela ‘além crachá’) decidi pela transição de carreira. E sabe que estou mais confortável com esta situação, ainda que implique um ‘encolhimento profissional’, termo utilizado aqui em seu post.
    Abraços.
    Chico

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  5. Oi Claudia. Vou sempre ficar na dúvida se deveria ter feito este caminho de não aceitar nada menos do que alcancei. Mas, por saber que “pra mim”, pior do que andar pra trás era ficar desempregada – o que me desequilibraria, acabei umas três vezes aceitando qualquer coisa que aparecia na minha área, e assim aprendi a fazer tudo. Uma das vezes mudei de cidade, na outra, aceitei começar fazendo algo que eu detestava, e em mais uma , a que foi mais incrível, aceitei um salário inicial que era um terço do que ganhava – e fiquei me mantendo com aquele dinheiro guardadinho da saída do emprego anterior. Nesta última, fui sendo promovida e em 3 anos já estava ganhando mais do que em qualquer outro emprego, recusei virar chefe e logo depois a empresa abriu concurso e o meu bom emprego ficou com data de validade. Logo que apareceu um convite pra ganhar menos em outra empresa, acabei aceitando, tinha 47 anos. De certa forma, acabei fugindo de altos cargos, fiquei na média. E o que reparei é que amigos que tinham conquistado os altos cargos não conseguiam emprego. Eu que ficava ali no salário nem muito, nem pouco sempre acabei recebendo mais propostas pq sabiam que eu era competente e não ameaçava ninguém. Já chegava negando status ou cargo de “chefe”e falava que eu era boa para ser funcionária e não tinha talento para chefiar – o que é verdade. Hoje, estou prestes a completar 51 anos e morrendo de medo pq agora, de novo, surgiu uma proposta de subir de cargo e cansei de ter gente menos competente do que eu, ganhando mais e mandando em mim, vou aceitar e começar a traçar planos B pra vida sem crachá. Não quero convencer ninguém de que “não subir na carreira” é um bom caminho, até pq não foi programado, aconteceu e percebi bem tarde. Só queria usar este exemplo para compartilhar o absurdo da nossa sociedade onde se você não for chefe tem boas chances de estar sempre no bloco dos empregados. É apenas uma constatação “envergonhada”, mas que acho importante dividir. As empresas geralmente fazem cortes na base ou no topo e quem tá ali no meio vai se mantendo. Triste, mas verdadeiro, ao menos para a geração baby boomers.

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    1. Lis, muito obrigada por sua mensagem. Seu depoimento é muito importante e sua análise, perfeita. Fui gestora muitos anos e te digo que não tem certo nem errado. Tem o que nos faz mais felizes, mais confortáveis. Eu, ao contrário de vc, sempre fui ambiciosa e errei muito por isso. Hoje olho para trás e entendo as escolhas. Quer saber, faria de novo porque estavam na minha alma. Te desejo sucesso neste novo desafio. Beijo grande

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