A paixão de Alfinete

A comitiva liderada por mestre Pastinha e mestre Alfinete (à esquerda)
A comitiva liderada por mestre Pastinha e mestre Alfinete (à esquerda)

Ele chegou vestido de branco, porque era sexta-feira. Sapato, calça, camisa e boné – daqueles com aba pequena e elástico na nuca. Chegou causando, fazendo troça com qualquer um que atravessasse seu caminho. Era magrinho, ágil, apesar dos seus 70 mais. Fiquei namorando ele de longe. Achava que tinha história boa escondida naquela aparência de avô de família.

Era véspera de Natal. À noite, ele apareceu de gorro de papai Noel para fazer graça com os netos menorzinhos. De novo, fiquei olhando de longe, à espreita de uma chance de conversar com ele.

Não deu outra. Meu faro de repórter funcionava. Seu Gildo, como era conhecido o hóspede do apartamento 5, era avô, pai, administrador e dono de uma das maiores casas lotéricas de Salvador, Bahia. Nas horas vagas, claro. A vida e a paixão de Gildo, ou melhor, mestre Alfinete, é a capoeira de Angola, arte pela qual ele se apaixonou na meninice.

Foi discípulo de Vicente Joaquim Ferreira Pastinha, um dos maiores mestres de capoeira da história. Pastinha era negro, nascido em 1889. Aprendeu a jogar Capoeira por sorte, contava ele. Era moleque, franzino como quê, e vivia apanhando de um outro menino mais taludo do que ele. Depois da coça, se escondia para chorar de vergonha e tristeza. O jogo virou quando um velho africano assistiu ao massacre de Pastinha.

  • Vem cá, meu filho. Vem aqui no meu cazuá”, chamou o velho Benedito, vendo que ele chorava de raiva por sempre apanhar.

Pastinha foi e aprendeu tudo sobre a arte de jogar Capoeira. Grato, decidiu que também iria ensinar. Criou um método de ensino que valorizava a expressão artística da luta/jogo. Em 1941, Pastinha fundou a primeira escola de capoeira legalizada pelo governo baiano, o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), no Largo do Pelourinho, na Bahia. Essa escola uniu, em 1959, os destinos de Pastinha e Gildo Lemos Couto, então um rapazola de família da classe média baiana, que tinha todos os atributos para virar doutor. “Eu era magricelo como o Pastinha, por isso ganhei o apelido de Alfinete”, conta Gildo, tentando esconder a emoção atrás dos óculos de fundo de garrafa. “Escondi da minha família por muito tempo. Meu pai queria um filho médico e não um mestre de Capoeira. Mas não teve jeito. É a minha paixão”, admitiu ele, que vive bem graças a sua casa lotérica.

Por causa da loucura pela capoeira, Gildo sempre teve uma espécie de vida dupla. Ao lado de Pastinha, virava Alfinete. Juntos, viajaram o Brasil e mundo. Em 1966, na companhia de outros bambas, como Camafeu de Oxóssi, Roberto Satanás, Gato e João Grande, representaram nosso país no primeiro Festival de Arte Negra em Dakar, na África. “Conheci com Pastinha, gente importante como Jorge Amado, Mario Cravo e Carybé, que eram loucos pelo jogo”, relembra Gildo, que foi o primeiro presidente do Conselho de Mestres da Academia Brasileira de Capoeira de Angola.

Mestre Pastinha morreu em 1981, aos 93 anos. Alfinete assumiu a missão de difundir a Capoeira de Angola, na sua opinião a mais bonita. Na sua casa, fez uma espécie de museu onde coleciona documentos, fotos e objetos pessoais do mestre. Dentre as raridades, tem dois manuscritos do mestre e uma espécie de manual da arte-luta com a descrição dos golpes em texto e pintura. Gratidão e respeito são duas palavras justas para descrever o sentimento de Alfinete em relação à Pastinha. Ele pouco fala de si. Todas as glórias e méritos entrega ao professor, que o apadrinhou na juventude. Pergunto se seus filhos tomaram gosto pelo jogo/luta/dança/arte. Ele sorri, como que dizendo “em casa de ferreiro, espeto de pau”. “Não, meus filhos não gostam jogar. Nunca quiseram aprender”, disse Alfinete, pouco antes de acabar com a conversa. Apesar de ser dia 25 de dezembro, ia abdicar do almoço em família, porque haveria um evento da Escola de Capoeira de Angola ao qual ele não podia faltar. Me entregou um folheto da associação, penteou os cabelos com a mão, vestiu o boné e partiu com seus passos de bamba. Sim, caminhava no ritmo do berimbau.

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10 comentários sobre “A paixão de Alfinete

  1. Claudia, que percepção perfeita do Mestre Gildo Alfinete. Você disse tudo, é PAIXÃO. Ele respira, transpira e ama a Capoeira Angola – A capoeira mãe, palavras do mestre. Sou irmão de sangue e de capoeira de Gildo. Ele foi o responsável pela minha inserção na Capoeira e me levou aos 9 anos de idade para a Academia do Mestre Pastinha. estou na foto acima. A leitura do seu texto me levou a emoção. Obrigado, meu irmão e meu mestre Gildo Alfinete manda um forte abraço.

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  2. Surpresa em dupla dose: que a loura simpática e tão de(di/li)cada no que faz, sem crachá, poderia fazer com o mesmo afinco… que o Gildo, pai, avô e empresário estava cada vez mais permitindo espaço para o Capoeirista Alfinete… Sim Claudia, não haveria possibilidade de vocês não trocarem olhares… Sou filha orgulhosa, apesar de estar fora do jogo… rs, mas por dentro de todas as artes e cenas que a Capoeira Angola trouxe para a vida do Gildo e do Alfinete. A PAIXÃO que dele transborda, nos invade e nos traz sempre a certeza de que algo maior nos move e que podemos e devemos ser Múltiplos. Em agradecimento, Nosso Mestre promete um novo encontro com novas velhas histórias…

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  3. Arrepiada com essa história…. as raízes da capoeira no Brasil são lindas, Pastinha era lindo. Amo a capoeira com todas as forças, pratiquei por 6 anos, comecei “velha”, aos 33 anos, mas como disse Gildo, capoeira é paixão. Quem ama, não consegue escapar. E apesar da pouca habilidade, fiz enquanto pude e ainda vou voltar, porque o som do berimbau, do atabaque, a roupa bramca, os pés descalços, as palmas e a ginga, fazem um bem à alma, que só quem é capoeirista sabe o que é….

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  4. Cláudia, conheço mestre Alfinete, talvez mesmo antes de nascer. Os seus pais, principalmente a figuraça do velho Thomé, foram os responsáveis pela vinda do meu pai, do fim das Alagoas (Quebrangulo), no final da década de 40.
    Sempre andamos juntos e ele me levou para a Angola onde fiquei de 60 até 72, quando, não lembro porque me afastei. Lá, além de Gildo, tinha seus irmãos, Genésio Meio Quilo, Gil Ruy e às vezes Genaro. Lá convivi com Pastinha, os Mestres João Grande e João Pequeno, Robertinho e outros que não lembro.Depois disso, me formei e comecei a viajar me afastando de Salvador, mas sempre lembrando dos velhos tempos do Pelourinho. Em 2005 retornei para Salvador conincidindo com o nascimento do neto, que um dia me apresenta um coleguinha. Miguel. Neto de Gildo, através dele voltamos a nos falar com maior frequencia. Isto foi muito bom para mim. Foi um feliz retorno a uma das melhores epócas da minha vida. Parabéns pelo artigo.

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