Você consegue gastar menos?

IMG_0888 Eu não sei fazer fórmulas no programa Excel. Nunca consegui aprender. Agora, nem mais quero tentar. Em compensação, sou fera em conta de padaria. Calculo rápido e raramente erro. Sou craque em prever receitas, custos, ponto de equilíbrio, tempo de retorno do investimento e lucro. Só uso os dedos e a cabeça. Por causa disso, sempre fui boa para gerenciar os recursos das redações e unidades de negócio nas quais trabalhei. Também sempre cuidei muito bem das minhas contas pessoais. Nunca dei cheque sem fundos. Nunca entrei no cheque especial. Jamais paguei juros no cartão. Minha fama é de pão dura, mão de vaca e doutora na Universidade da Túrquia. Tenho orgulho disso, pois mesmo sendo econômica não me considero avara, nem mesquinha. Sou OLX. Desapegada. Hoje uma amiga me lembrou de um plano antigo. Na década de 1990, quando virei editora e comecei a ganhar bem, inventei o projeto 1000. A proposta era se preparar para um dia voltar a viver com mil dinheiros. À época, todo mundo riu de mim. Tinha começado a me dar bem e já estava me preparando para abrir mão das mordomias e viver monasticamente? A vida boa, claro, me fez esquecer do projeto. Segui trabalhando e tive a sorte (e o mérito) de ser promovida, promovida e promovida. Sim, fiz dois bons pés de meia. Ao aderir à vida sem crachá, mudei de rotina, de tempo, de profissão e, principalmente, de renda mensal. Nos dias 5 e 20 de cada mês, é incerto o que pinga na minha conta.  Sem me dar conta, coloquei em prática o projeto mil. Cortei à metade as despesas para corresponder à meia receita que passei a receber todos os meses. Sem o excel mas com um preciso caderninho azul, passei a contabilizar as principais linhas de custo fixo e variável. Luz, gás, condomínio, IPTU, plano de saúde, internet, celular, passagens aéreas, escola do meu filho, salário da empregada, mensalidade do clube. Cortei tudo o que dava, especialmente as despesas do carro que vendi. Na ponta do lápis, fica claro perceber qual é a perdição da humanidade de classe média: os gastos com supérfluos, que sabemos que não precisamos mas damos um jeito de achar que não podemos viver sem. Eu me refiro a acessórios, roupas, calçados, equipamentos eletrônicos, gadgets, celulares, almoços e jantares em restaurantes, garrafas de vinho, jóias e até mesmo livros que compramos para nunca abrir. Quando olho para o meu guarda-roupa, vejo roupas para três encarnações. Por que preciso comprar um casaco corta-vento novo se tenho dois e fico apenas três dias e meio por semana em São Paulo? Por que paquerar as novas alpargatas das Havaianas se tenho apenas 30 calçados e quatro tênis no armário paulista? Por que desejar um novo equipamento de som se ouço minhas músicas com fone de ouvido direto do celular? Sim, eu posso gastar menos. Sim, eu posso controlar o impulso de comprar uma bobagem qualquer no supermercado gourmet do lado de casa. Sim, eu posso apagar a luz toda a vez que atravessar o corredor. Posso fazê-lo porque é fácil e nada disso faz falta. Posso fazê-lo, principalmente, porque o projeto 1000 embute um modelo diferente de vida, no qual a segurança financeira inclui também a liberdade. Gastar menos me torna mais livre para escolher ganhar menos e viver mais feliz. É um projeto. É um processo. É sustentável.

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25 comentários sobre “Você consegue gastar menos?

  1. Historia muito parecida com a Minha Claudia, ganhava dinheiro , e eu não tinha tempo para usufruir dos beneficios que meu proprio salario me proporcionava, nao tinha tempo porque trabalhava 12-14 por dia. inclusive aos sabados. Felicidade :PROJETO 1.000 segurança financeira inclui também a liberdade. Gastar menos me torna mais livre para escolher ganhar menos e viver mais feliz.

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  2. Lembrei da minha história dos 1.000. Eu era estagiária de hotelaria e ganhava uma ajuda de custo de 200,00 reais mensais. Sonhava e fazia planos para o dia que eu fosse ganhar os meus primeiros mil. O pagamento era feito pessoalmente, na mão, entregava e assinava uma guia de recibo. Imaginava eu contando meus mil. Formei e mudei para Brasília, fui contratada e esperava receber meus primeiros mil. Já em 2007 ele foi colocado diretamente no banco, nunca pude contá-los. Brinco com essa situação até hoje será que meus mil realmente foi colocado tudo lá. Vou sacar para contar!

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  3. Eu sou o seu contrário: bom de planilha e ruim de conta de padaria. Fiz um planejamento não muito detalhado e tento me manter nele. Algumas contas estouram e outras ficam no azul. O importante é saber que o dinheiro é meio e não fim. Beijo.

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  4. Claudia, parabéns por esta qualidade de econômica, é caso raro no Brasileiro, que não aprendeu até hoje, como se controlar diante das “promoções”, os “juros baixos dos cartões e as ofertas de crédito fácil nas financeiras, e aproveitam aquela promoção das Casas Bahia, para comprar algum eletrodoméstico em suaves prestações de R$ 29,99, durante 60 meses. Não fomos preparados de maneira Educativa a ter planejamento Financeiro, e mais recentemente fazer esta reflexão que fez do que realmente precisamos para viver. Muito bom e parabéns mais uma vez. Continue assim, e a compartilhar esta maneira de viver, para influenciar outras pessoas, precisamos ser sustentáveis. Abraço.

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  5. Olá Claudia! Tive a felicidade e o privilégio de “cruzar” com você, virtualmente. Li todos os seus textos, estou impressionado, gostei muito, PARABÉNS!!! Um dia quero abrir um asilo/condomínio e convidar pra morar, só pessoas feras e incríveis como você, que edificam qualquer pessoa que venha ler seus textos. Você poderia postar foto dos seus gatos, né?!! Um grande quebra costelas pra vc!!

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    1. Giovane obrigada por sua mensagem. Curiosamente, quando eu aposentar, meu plano C será fazer da minha pousada um asilo/condomínio como esse. Os filhos vão pagar para se livrar dos pais e a gente vai se divertir. Conto como é no livro. Abraço

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  6. Claudia, amei o seu post! Eu também deixei (voluntariamente) uma carreira de educadora no ensino oficial de SP, com 3 décadas de trabalho, para viver uma nova realidade profissional. Hoje tenho uma consultoria de Harmonização de Pessoas e Ambientes, trabalho com algo que amo e que dá resultados muito positivos. E assim seguimos…vou inspirando as pessoas com as quais me encontro nesse caminho. E vivendo com menos, para uma vida libertária.
    Já na minha wish list: conhecer a sua pousada!
    Se quiser, visite o meu blog: http://www.armazemdaenergia.com.br
    Bjs e muita paz no seu coração!

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  7. Sem falsa modéstia, sou bom em ambos… minha fórmulas de Excell são essenciais e pitorescas. Fiz um curso de Avançado e não consigo parar de usar planilhas… uso pra tudo. E na conta rápida, sou imbatível, sempre que vou às compras, como bom mineiro “chorão” que sou, faço a soma dos itens, a dedução do desconto e já dou pronto pro vendedor minha proposta para pagamento à vista ou o valor das parcelas que vai pro meu cartão de crédito…. enquanto ficam na calculadora.
    Parabéns pelo artigo e sobretudo pela disciplina financeira, sou também adepto, e acredito que este estilo de vida, de ser educado financeiramente, nos liberta de preocupações e medos que nos travam. Muito Sucesso pra Ti. Abraços.

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    1. Rondinelli, obrigada por sua mensagem. Bom saber que você é craque em negociação. Vou me preparar para um dia vender diárias para você. Brincadeira. O mundo seria bem diferente se na escola houvesse aula de economia doméstica. Grande abraço

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  8. Fato ! Precisamos levar um choque para cair na real…eu sempre gastei mais do que precisava, mas nunca além do que poderia. Pagar juros nem pensar…
    Com os custos e gastos da empresa eu era o Guarda Mau…nada passava sem que precisassem me dar muitas explicações, mas o meu….ah, o o meu eu relaxava, pexinxar ? Deus me livre….morria de vergonha, agora a coisa mudou. Uso todo o meu expertise de excel, sem o qual não sou ninguém e controlo na unha…comparo os preços, mudei de supermercado, não compro sem necessidade….e continuo tendo a mesma qualidade de vida. Queria ter feito isso antes, estaria com uma poupança agora…liçao de vida !

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  9. ahahahahahuha adoreiiiiii!!!!!
    eu estou super nessa fase!!!!
    usamos/ compramos taaaaantas coisas desnecessárias!!!!
    Esse novo modelo mais contemporâneo e com certo conforto mas sem exageros variáveis, eu diria que seriamos os novos hippies….. #ésustentável

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  10. Nunca me sobrou muito dinheiro na vida. Sou pesquisadora e no Brasil, não sou de uma raça bem paga. Mas tenho a alma hippie e sempre acreditei que quanto mais dinheiro temos e quanto mais gastamos, menos felizes somos…. a simplicidade e o pouco gastar traz embutida uma felicidade que poucos têm a capacidade de entender. Nos últimos 4 anos estou ganhando melhor. Mas ainda penso da mesma forma. Ter a liberdade (= $ sobrando) para comprar um mimo ou outro, de vez em quando, é legal. Não passar sufoco também. Mas saber viver com pouco é libertador, leve e dá muita felicidade!

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  11. Olá Claudia, adoro ler seu textos. Sempre nos leva a reflexão. Não é fácil, mas tento colocar na ponta do lápis os gastos diários,mensais. Ganho pouco, mais tenho tudo que preciso para viver bem… Simples e feliz. Abraços.

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