O que é o fracasso?

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Som estrepidoso provocado pela queda ou destroçamento de algo. Encontrei essa definição na página 923 do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Ela é a primeira definição da palavra fracasso, que tem sua origem na Itália no ano de 1707. Eu só conhecia a segunda definição do substantivo. Essa todo muito sabe. É uma das primeiras palavras que aprendemos na escola. Como bronca e punição: “Que fracasso, menino! Por que não tirou 10 na prova?” Como ameaça e vaticínio: “Se não estudar, será um fracasso quando crescer”. Eu mesma, confesso, repito a ladainha para meu filho, esquecendo de celebrar o fato de ele estar na escola, de gostar de ler e de estudar.

O antônimo de fracasso é ainda pior do que ele. Antônimo de fracasso é triunfo, êxito, sucesso, conquista, vitória. Antônimo de fracasso é definição de super-herói, de Deus do Olimpo, de Alexandre, o Grande. Está aí a chave dessa lógica invertida. Quem disse que somos super-heróis, deuses do Olimpo e imperadores épicos com a obrigação de triunfar, vencer, conquistar e fazer sucesso sempre?

Fracassar é comum. Fracassar é humano. Fracassar é normal, óbvio e cotidiano. Frequentemente, falhamos. Normalmente, falhamos em nossas previsões, apostas e propostas. O fracasso faz parte da nossa natureza. Ele é a mola do aprendizado e do conhecimento dos animais e dos humanos. O ratinho de Pavlov fracassa um montão de vezes até descobrir qual é o botão que libera o queijo. Um bebê fracassa um milhar de tombos até aprender a andar. Vemos a criança cair e levantar e achamos normal, achamos lindo. O que acontece depois? Por que a partir de certa idade o fracasso se torna proibido? Feio? Vergonhoso?

Decidi escrever sobre essa palavra, porque ela é a que eu mais escuto quando converso ou recebo mensagens de pessoas que perderam o crachá. “Me sinto fracassado.” “Sou um fracasso.” Os verbos em ambos os casos não combinam. O fracasso ou é um barulho forte ou é um falta de êxito ou derrota pontuais. Sem o fracasso não haveria inovação, muito menos sucesso.

Engenheiros de pontes do início do século passado sabiam disso. No livro Fama & Anonimato, o jornalista Gay Talese conta em A ponte como alguns engenheiros tiravam proveito, na surdina, das falhas dos outros. “Toda vez que há um desastre com pontes, os engenheiros que não trabalham em sua construção correm para o local da ponte para tentar descobrir por que a ponte caiu. Então, calados, eles voltam aos seus projetos e, de posse dos conhecimentos obtidos com o desastre, corrigem suas próprias pontes, esperando poder evitar o mesmo erro”, escreve Talese. Assim, graças a queda da ponte Tacoma Narrows em novembro de 1940, no estado de Washington, Estados Unidos, a Golden Gate, em São Francisco, pode ser consertada e estar firme e forte até hoje.

Ok, não somos ponte e ninguém gosta de perder o emprego, falir o negócio, tomar prejuízo ou fracassar na venda de um projeto. O verdadeiro fracasso, o baque, a ruína, a desgraça é se prender à vergonha do erro e não tirar proveito dele para fazer certo da próxima vez. É não aceitar à oportunidade do aprendizado que só um malogro é capaz de dar.

Nos Estados Unidos, a terra do Super-Homem, existem alguns grandes empreendedores que, como os engenheiros de ponte, ficaram famosos por celebrarem o fracasso como metodologia de aprendizado. Thomas Edison, o cara que inventou a lâmpada e fundou a companhia General Eletric (GE), brincava com a ideia ao dizer que nunca tinha fracassado na vida. “Eu só encontrei 10 mil alternativas que não funcionaram”, dizia ele. O fracassado mais famoso foi Henry Ford, fundador do fordismo e da fábrica de automóveis que carrega até hoje o nome dele. Antes de criar a Ford, ele fundou e faliu duas outras companhias, a Detroit e a Henry Ford. Antes de lançar o Ford T, o início de sua glória e de seu império com 15 milhões de unidades produzidas, ele gastou um alfabeto de carros aprendendo a fazer direito. É dele uma das melhores definições deste substantivo: “fracasso é somente uma oportunidade para começar novamente de forma mais inteligente”.

Eu sei que parece papo de palestra do youtube. Eu sei também que fracassar dói, produz medo e, às vezes, dá vontade de ficar para sempre de pijamas, debaixo da cama, no escuro. Por isso, a declaração a seguir é pessoal e intransferível. Em 30 anos de carreira, aprendi mais, muito mais, com os fracassos do que com os sucessos. Só percebi isso quando consegui silenciar o som estrepidoso provocado pelo destroçamento da minha vaidade se estabacando ladeira abaixo. Uma vez, duas vezes, três vezes, de novo, de novo e de novo até acertar.

Foi assim, ontem, com esse texto. Fracassei cinco vezes até conseguir publicá-lo no face. Existem três versões pairando na rede. Fracassei, também, na forma como eu o terminei. Ficou confuso. Falsamente pretensioso. Comecei de novo. No meio desse processo, agora feito em rede, portanto nua em praça pública, recebi uma colaboração do querido amigo Nestor Amazonas. Nestor acelerou meu aprendizado na forma de um singelo poema sobre o fracasso, escrito pelo gênio e grande pensador brasileiro, Darcy Ribeiro:
“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. 
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”

Darcy Ribeiro

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24 comentários sobre “O que é o fracasso?

  1. Oi Claudia – Acredito que A Vida sem Crachá não seja nem fracasso e nem vitória… Ela é apenas o início de um novo ciclo e a vida é cíclica!
    Estive recentemente conversando com um grupo de executivos com mais de 20 ano de carreira. Muitos deles me perguntaram como eu consegui fazer a transição da vida corporativa para a vida empreendedora. Respondi a eles que precisei compreender que um ciclo havia terminado para aceitar que outro estava começando. Não houve fracasso e nem vitória. Houve apenas a compreensão de uma troca de ciclos.
    Entenda que este processo de compreensão não ocorreu tão logo eu sai da última empresa para a qual desempenhei uma função executiva. Certamente houve um período de absorção de tudo o que estava ocorrendo na minha vida. Passado este período e, entendida a oportunidade que a vida estava me brindando, não valia mais a pena buscar novos caminhos usando velhos mapas…

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  2. Oi Cláudia, tudo bem? Sou eu mel de novo, esperando o seu livro aqui pelo Rio, enfim, concordo com você que podemos aprender com o fracasso sim, e as vezes fico pensando se foi realmente um fracasso meu ou da companhia que abdicou de uma funcionária dedicada e apaixonada como eu, mas enfim, o que me preocupa agora é como recomeçar dessa maneira inteligente que você menciona, o que fazer? Tenho subido um degrau de cada vez, mas o mundo lá fora te cobra para ser ágil, rápida nessa decisão, e o medo de “fracassar”, de não dar certo, te assombra. Você pensa, não posso errar, não tenho mais tempo de seguir um caminho e não dar certo. Um beijo, Mel

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  3. Tenho duas amigas Cláudias e sempre as tratos de Claudinha e Clode. O meu marido me disse hoje: agora você tem outra Claudia! Rs
    Adoro a forma da sua escrita. Leve e inteligente!

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  4. É muito doloroso no início, assumir o erro, mas a vida continua e nós não podemos ficar para trás. Coragem é a palavra, cair e levantar sempre, mesmo que demore um pouco para levantar. Excelente texto!

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  5. Claudia!

    Entendi o que você quis dizer! Nem um nem outro é fracassado, nem o do crachá nem o empreendedor.
    Acredito que a mensagem que você quis passar foi a de que: o certo é tentar, não desistir, com crachá ou sem! Passei por isso, sofri o “luto” da demissão, mas já estou de crachá novo, criando coragem para quem sabe empreender daqui um tempo!

    Parabéns pelo texto, um beijo!

    Carmen.

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  6. Ola Claudia, gostei muito da sua historia e comento em algumas ocasiões. Sobre o fracasso, ele foi mesmo, nossa vaidade fica estampada no corpo, no rosto e na alma. Mas se pararmos para pensar que isto gera aprendizado e que vaidade nao leva a lugar nenhum.. saimos mais fortes de qq situação.
    agradeco por compartilhar sua historia.
    abracos, erica

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  7. Eu sempre penso que o problema da humanidade toda está em querer amar e ser amado. Em fugir da rejeição e do abandono. Porque todos os seres humanos em algum momento já foram rejeitados ou abandonados. E nessa fuga, cada um segue um caminho e lida de um jeito. Nosso comportamento social é feito para sempre agradar os outros, para nunca fracassar. Mas qual o conceito real de fracassar? Fugir do padrão aceito pela sociedade? A gente aprende desde pequeno que não pode errar. Por que o fracasso tem que estar associado com o erro?
    E quando “acertamos”, quando nos damos bem, ou somos arrogantes ou desqualificamos o acerto ou elogio. “Que linda sua blusa!”. “Magina, tão velhinha, paguei tão baratinho”….

    Acho que os valores estão trocados…. damos mais ênfase ao que não queremos e menos ênfase ao que aspiramos que queremos….

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