Tudo dói e é normal

Existe uma piada infame que trata das fases da vida do homem. Se não me engano, a partir dos 70, entramos na vida condor, com dor aqui, com dor ali, com dor acolá. A piada é infame, porém verdadeira. No meu caso, apesar de estar apenas aportando nos 50, sei que estou viva porque dói. As costas, a cabeça, os músculos, os olhos, o peito. Tudo dói e é normal. Nascer é doído. Dói na mãe e na criança, especialmente naquelas que chegam de parto normal. Crescer idem. Trata-se da tal da dor do crescimento, que embala toda a canção sombria de Gal e Caetano e virou verso na canção Oito Anos da Paula Toller – por que os ossos doem enquanto a gente dorme? Isso sem falar da dor não física mas igualmente dolorida das pauladas que levamos para crescer na vida no sentido figurado.

Lembrei do “condor” depois de ler uma mensagem que recebi. Era algo sério e profundo. Minha amiga, Raquel, refletia sobre a dificuldade contemporânea de se compartilhar e expor sentimentos de dor. “Em tempos atuais, só ousamos abrir nosso sofrimento em salas de terapia individuais. No Face, só postamos nossos sorrisos e sucessos, não é?”, dizia ela, concluindo que achava importante haver uma “rehumanização” da vida por meio da discussão das dores e dissabores do cotidiano. Concordei, comentei e agradeci a mensagem, que não mais me abandonou desde então.

É algo realmente muito sério. Em meio a uma galáxia de sorrisos, brindes, festas, praias ensolaradas, viagens extraordinárias e alegrias estonteantes, como se sente o ser humano normal? Aquele igual a mim e a você, que está com dor de cotovelo? Dor de corno? Dor no peito? Dor de barriga? Dor de cabeça? Ele se sente só e mais dolorido, porque está excluído do mundo dos sorrisos e sucessos. Do estoicismo de Zenão de Cício ao epicurismo e ao hedonismo na velocidade de um post. O sofrimento tornou-se motivo de vexame, na mesma medida em que o exibicionismo tornou-se corriqueiro como um pau de selfie. Sofrer é feio, obsceno e vergonhoso. Engole o choro e levanta a saia.

Pior do que sofrer escondido debaixo da cama, é acreditar na vã esperança de aniquilar a dor como se ela fosse a epidemia de dengue.  A propósito da minha experiência como gestora e atual descrachada, uma repórter perguntou se eu achava possível demitir alguém de um jeito que não fosse dolorido. Na hora, ri porque não tinha resposta. Então, lembrei de outra piada, a do gato que subiu no telhado. Ela até serve para dar a notícia da morte de alguém muito distante e pouco querido. No mais, notícia ruim sempre dói. Prefiro ser direta e objetiva. Como a dor de arrancar o esparadrapo do machucado. Ou a dor de tirar um dente. Como dizia a minha avó, quando casar passa.

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