A minha pele e o meu crachá. O texto que organicamente viralizou na web

A premonição

11 horas da manhã do dia 13 de agosto de 2014. Não era sexta-feira, mas pareceu ser. Eu estava sentada na plateia do Fórum Exame Brasil 2020, no Hotel Unique, em São Paulo. Aguardava a palestra do candidato à presidência da República pelo PSB, Eduardo Campos, marcada para as 12h10. Com a brochura do evento na mão, passou um flash pela minha mente. O que faço se perder o emprego? Era uma premonição. Mas eu ainda não sabia disso. Comecei a escrever num caderno em branco enquanto o Eduardo Giannetti da Fonseca falava. Na primeira página, as minhas receitas: alugueis de imóveis, pró-labore da minha pousada na Bahia, pensão do meu filho, investimentos e indenização. Na folha seguinte os custos fixos: escola e inglês do meu filho, clube, plano de saúde, ajuda de custo para meus pais, salário da Maria, salário da faxineira, internet, Netflix, luz, gás, condomínio, IPTU, alimentação, terapia, gasolina, IPVA, viagens. Na folha seguinte, a conta de padaria mostrava que ia faltar dinheiro. Comecei a cortar. E numa outra folha listei alguns desejos: 1. Doutorado na USP, 2. Projeto Professora, 3. Projeto Consultoria, 4. Projeto Escritora, 5. Projeto Comunicação e 6. Projeto Aldeia Hippie. Não fui adiante na lista de projetos porque um zunzunzum tomou conta da sala. Um avião havia caído em Santos. Um post na rede social dizia que Eduardo Campos estava a bordo. Fechei o caderno e lembrei que um dia eu fora repórter. Comecei a apurar. Liguei para amigos que faziam a campanha dele. Era verdade. Soube depois que Eduardo havia desistido de participar do Fórum. Mudou de roteiro e escolheu viajar de avião para ao litoral paulista. Saí do evento abalada com sua morte e voltei para o escritório, na Marginal Pinheiros, em São Paulo. Era diretora de uma grande unidade de negócios na maior editora do país. Tinha muito serviço me esperando e esqueci a premonição, que ficou anotada à caneta no caderninho.

O dia D

11 horas da manhã de 25 de agosto de 2014. Doze dias depois. Estava na minha mesa. Era o dia D na empresa. Sabia que muitas pessoas seriam demitidas. Havia falado com minha chefe e ela estava tranquila. Tinha estado com um acionista e com o presidente. Feedbacks positivos. Toca o telefone. O presidente executivo, que assumira há pouco tempo, e fora meu par dois anos antes, queria falar comigo. Subi, entrei em sua sala sorrindo e ouvi o que ele tinha a me dizer: Claudia, você está sendo demitida. Consegui manter o sorriso no rosto, acho. E apenas perguntei: Onde eu assino? Saí da sala com a folha assinada na mão. Tremia junto com ela. Fui direto falar com minha chefe. Perguntar por que ela não me demitiu. Fui demitida, eu disse. Eu também, ela respondeu. Eu, pelo presidente executivo. Minha chefe pelo chefe dele, como mandava a etiqueta hierárquica. Desci para o meu andar, reuni as redações num canto – naquele momento eu respondia por 24 marcas e liderava mais de 200 pessoas – e dei a notícia para todos de uma só vez para evitar que o falatório ficasse ainda maior. Um discurso rápido. Agradeci a todos e fui cuidar da burocracia. Meu desejo era ir embora dali o mais rápido possível. Sentia alívio, porque estava vivendo sob enorme pressão já há muitos meses. No ano anterior, não havia entregue o resultado prometido, pela primeira vez em 10 anos ocupando em cargos de direção – eu estava na profissão há 30 anos e na empresa desde 1990, com uma breve interrupção. Naquele duro ano de 2014, o cenário era ainda pior. Depois de oito meses de trabalho intenso, acumulávamos perdas e mais perdas. Era boa a sensação de saber que não precisaria mais nadar contra aquela correnteza. Aí lembrei da premonição de duas semanas antes. Preciso encontrar aquele caderno para ver quais eram os meus projetos. Ainda com a adrenalina nas alturas, dei a notícia à família – sempre uma missão árdua. Contei, numa raquetada, para meu pai: Fui demitida, preciso que você pegue o Chico, seu neto, na escola. O resto do dia foi de falar com gente: um zilhão de ligações, e-mails, zap-zaps, conversas com amigos e ex-colegas. Falar faz bem nessa hora. Espanta os pensamentos cáusticos, distrai a dor, prolonga o estofo oferecido pela adrenalina. Era neófita no assunto. Nunca havia sido demitida. Tive sorte. Tinha uma viagem de férias marcada para os Estados Unidos naquela semana. Fui e me fez bem. Escapei da falta de rotina dos primeiros dias sem crachá. Escapei da pressão familiar e dos amigos, que querem te deixar bem a qualquer preço – e, sem querer acabam escarafunchando a ferida. Lá, bem longe de casa, desabei pela primeira vez. Chorei feito criança pequena, abandonada, no escuro. Não era medo. Nem necessidade. Não tinha urgência de arrumar outro emprego. Era a dor de perder algo que eu amava. Era a dor de ter sido rejeitada. Sofria porque, ao arrancarem meu crachá de 23 anos, arrancaram junto a minha pele. Estava em carne viva. Doía, latejava, ardia. Por que eu? Por que não me quiseram mais? Por que me descartaram? Por que me despiram da minha identidade? Hoje, oito meses depois, sei exatamente os motivos e entendo a escolha. Talvez fizesse o mesmo no lugar deles, apesar de continuar me achando uma boa profissional, comprometida, uma boa líder e uma boa gestora. Mas, como dizem por aí, quem vive de passado é museu. Declinei a vaga oferecida na ala dos dinossauros e fui, como dizem lá na Bahia, procurar a minha melhora. No último dia 6 de abril, já de pele nova, entreguei o arquivo do meu livro Vida Sem Crachá para a Ediouro, que deve lançá-lo em agosto. Nele conto como processei a saída da vida executiva e a perda de coisas como holerite, email e celular da firma. E principalmente, narro histórias inspiradoras de gente que, como eu, partiu para um plano B. Tem comédia, tragédia e muitas ideias para começar de novo. Espero, sinceramente, ajudar os próximos da fila a enfrentar esse momento tão difícil e, ao mesmo tempo, tão disruptivo, tão revolucionário, tão transformador. Desde dezembro, assumi minha pousada pé na areia, A Capela, com 14 apartamentos, no litoral Norte de Salvador, como meu plano A. O primeiro trimestre de 2015 foi sensacional. Crescemos 80% relação ao ano anterior graças ao aumento do número de apartamentos e uma taxa de ocupação espetacular. Foi o melhor verão da minha vida. Trabalhei, aprendi, me diverti e, sobretudo, conheci pessoas e ouvi histórias incríveis. Fui, dia a dia, experimentando o prazer de, pela primeira vez na vida, ser dona da minha força de trabalho e da minha agenda. Decidi que não queria voltar a ter crachá e parei de procurar emprego. Me contratei para cuidar com quatro olhos da minha pousada. Me contratei para escrever o blog A Vida Sem Crachá, livros, crônicas, contos e poemas. Estou montando uma plataforma de comunicação para dar suporte ao livro. Espero desdobrá-lo em outros livros, cursos, workshops e consultoria. Estou cumprindo à risca o plano que escrevi naquela triste quarta-feira (13 de agosto não tem como não ser um dia agourento, né?). Estou feliz. E é isso que aproveito para lhe desejar aqui. – See more at: http://projetodraft.com/ao-arrancarem-meu-cracha-senti-como-se-estivessem-arrancando-a-minha-pele/#sthash.iXP7qllA.dpuf

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13 comentários sobre “A minha pele e o meu crachá. O texto que organicamente viralizou na web

  1. Tô apaixonada e amedrontada pela sua história. Quase que como num quase lá. Executiva com carreira sólida em uma única empresa. Já se vão 19 dos meus 38 anos. Como vai ser depois… Sempre pergunto também. Tem depois né? Como é bom saber que tem.

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  2. Olá Claudia !

    Nunca escrevi para alguém em um blog e confesso nunca ter tido muito interesse neste tipo de canal de comunicação, apesar de admirar e achar muito legal que tem um.

    Recebi de uma amiga sua história e foi para mim como se estivesse lendo a minha.

    Trabalhei durante 22 anos em uma grande empresa aérea brasileira…com suas operações encerradas sai como os milhares de colaboradores sem trabalho e tão pouco com as verbas rescisórias de direito.

    Reconstruí minha carreira, sou um profissional de T&D, e recentemente fui desligado da empresa que estava trabalhando de maneira muito parecida com a sua.

    Aprendi que devemos estar sempre prontos a “recomeçar” de novo e foi uma injeção de animo ter lido seu relato.

    Grande abraço e muito sucesso sempre!

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  3. Olá Cláudia, tudo bem? Ontem, vendo o Saia Justa e assistindo o seu depoimento sobre “a vida sem crachá” – blog do qual eu já havia ficado sabendo por meio do facebook de uma amiga – notei que, sobre a mesa diante da qual você deu a entrevista, estava o livro “Wilderness”, produzido pela ONG ambientalista Conservação Internacional, que é o meu ‘ex-crachá’! Fui diretora de comunicação da organização no Brasil por quase 10 anos e fiquei curiosa para saber como o livro chegou em suas mãos…Parabéns pela iniciativa e me identifico com você por ser também jornalista e por, depois do desligamento, tampouco estar buscando outro emprego. Descobri que preciso apenas de trabalho, quero prestar serviço e não arrumar outro crachá…! E viva a liberdade do lado de cá do balcão 🙂 Sucesso sempre, um abraço.

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  4. Bom dia Claudia.
    Conheci o seu trabalho por uma entrevista televisiva, e me deixou muito curioso…explico. Com essa crise nacional minha cabeça esta por um fio onde trabalho e isso vinha me atormentando, estou nesta empresa a 9 anos e antes trabalhava mais SOLTO…renda variavel. Mas era solteiro, menos responsabilidades…enfim sua historia de vida me ajudou muito. Talvez seja a tal SINCRONICIDADE que um “pensador” famoso falou. Ahhh….como Editora desculpe-me os erros ortograficos, ainda nao me encontrei com esse TECLADO do meu telefone, rssrrs. Abraços e muito SUCESSO.

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  5. Olá Claudia. No dia em que apareceu sua entrevista no Saia Justa, eu estava fazendo alguma outra coisa em casa e meu marido estava assistindo o programa. Quando ouvi você contando sua história, seus sentimentos diante de tudo que aconteceu, me perguntei: será que dei entrevista em algum lugar e nem sei????kkkk Os sentimentos foram exatamente os mesmos… fui desligada da empresa no dia 16 de abril deste ano. Ainda estou na fase meio perdida, ainda estou muito magoada com tudo que aconteceu, mas eu também estava abrindo um negócio próprio, uma loja de chocolates com sempre foi meu sonho. A inauguração estava marcada para 02 de maio, mas eu queria que as duas coisas andassem juntas. Ainda estou muito insegura com tudo isso, com todas essas mudanças, afinal foram 13 anos na mesma empresa onde comecei como estagiária, e ainda sou nova, tenho 33 anos, mas lendo novamente sua história (pois já tinha assistido no programa), sinto um pouco de alívio e tenho esperança que todos esses sentimentos ruins passarão e que terei muito sucesso na minha vida fora da empresa onde tanto me dediquei. Muito obrigada pela sua história, tenho certeza de que ajudará ainda muitas pessoas que estão passando pela mesma situação. Beijos e muito sucesso para você. Quero conhecer sua pousada 😉

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