Eu consegui!

ACapela24

Confesso, não foi fácil. Depois de anos de repetição, de ritmo, de freqüência, mesmo podendo, não conseguia. Não podia escapar do trilho. Bloqueei. Contrariei minhas teses e me perdi na rotina da falta dela. Segui, dia a dia, repetindo aquilo que não era mais necessário. Aquilo que era inútil.

Confesso, traí o princípio básico da vida sem crachá, que é desfrutar o tempo conforme a necessidade e o desejo. Fiquei amarrada à minha antiga agenda porque não queria parecer nem me sentir à toa na vida. Muito menos, ficar como fama de perua. De folgada. De desocupada. De descrachada. Seguia os mesmos horários de antes. Hora de acordar. Hora de fazer exercícios. Hora de começar o trabalho. Hora de almoçar. Hora de buscar o filho (essa, sic, imexível). Hora de navegar na internet. Hora de jantar. Hora de ver televisão. Hora de dormir. Justo eu que sempre me gabei de não ter rotina. De ter uma vida diferente a cada dia. Verdade. Mentira. Verdade.

Só rindo, não é?

Escrevo para contar que consegui. Sim, consegui marcar um jogo de tênis para o meio da tarde de uma terça-feira de maio. Joguei feliz e sem culpa com minha amiga Malu, antiga parceira de quadra, até a chuva vespertina acabar com nossa alegria. Foram 45 minutos libertadores. Ao voltar para o escritório, livre de qualquer sentimento de culpa e alforriada do grilhão do hábito, vendi diárias, respondi emails, administrei de São Paulo a minha Capela e escrevi a metade de um argumento de filme com a leveza de quem bebe água gelada no verão.

Esse post bem que pode ser a cena final da fita. Tipo assim: “a personagem feliz com sua nova vida, joga tênis com a amiga no meio da tarde enquanto o mundo corporativo pega fogo”. Match point.

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18 comentários sobre “Eu consegui!

  1. Oi, Claudia!
    Entendo perfeitamente essa dificuldade de se render à falta de uma rotina rígida. Quando decidi arrancar o meu crachá, 15 anos atrás (naquela época eu estava na Veja), minha maior dificuldade foi me livrar dessa culpa, dessa obrigação de ter obrigações. Passei a viver num ambiente radicalmente diferente ao de São Paulo (Barcelona, uma cidade meio hippie onde quase todo mundo que conheço vive sem crachá e de uma forma alternativa), mas ainda assim sentia uma culpa enorme quando acordava um pouco mais tarde ou quando não estava aproveitando intensamente (ou seja, fazendo alguma coisa) o meu tempo livre entre as aulas de espanhol e história da arte. Demorou bastante tempo para conseguir relaxar e curtir, de fato, o lado bom de ter liberdade.
    Hoje, vivendo 100% de frilas desde 2004, estou tão confortável nessa falta de rotina que não consigo imaginar a minha vida dentro de uma empresa alheia — e a ideia é não voltar a ter crachá jamaaaais. Faço jornadas de trabalho longas e intensas. Mas também mando uma banana pro mundo quando estou a fim e viajo 4 meses ao ano (venho fazendo isso desde 2007). No dia a dia, vou no meu ritmo. Acordo sem despertador na maioria dos dias, tomo o meu café loooongamente, marco minhas aulas de pilates para o horário que eu sinto que estou mais disposta, almoço e janto quando estou com fome. Não existe luxo maior do que ter o controle do seu próprio tempo. Relaxa e goza! Hahaha!
    PS: Lembro tão bem de você no Curso Abril. Aquilo tudo parecia tão sólido e eterno, né? Que coisa… 🙂

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    1. Adriana, que prazer receber uma mensagem sua! Quanto tempo. Daqui acompanho suas viagens e textos. Sim, aprender a lidar com a culpa de ser dona do tempo é o grande desafio da vida sem crachá. Assim que meu filho fizer 18 anos, adotarei sua rotina de viajar longos meses por aí!! Essa é a minha meta 2020. Vou pedir dicas suas.
      Beijo grande

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  2. Começou a cicatrizar a ferida . Pele renovada, alma em movimento. O importante é liberta-se da culpa. A velha Claudia ( no bom sentido claro) está Evoluindo sempre !!! . Um abraço ! Você é Inspiração.

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  3. Clau! Muito orgulho de você, dos seus textos, da sua nova vida. Sou sua fã, desde que era minha cliente. Agora, sou mais ainda. Beijos com carinho e com as melhores energias, de quem muito te quer bem.

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  4. Venho procurando me adaptar a essa nova vida. Aos poucos vou concluindo que provavelmente não voltarei a ter crachá de uma empresa, tudo indica que, como centenas de executivos que foram jogados no mercado com suas toneladas de experiências, eu seguirei o caminho da Consultoria, sem rotinas, sem renda fixa, vivendo um dia de cada vez e tentando me acertar nessa falta de rotina. Sua experiência e seus textos tem me dado ânimo. Ontem vi sua entrevista no saia Justa e adorei. Soube que seu livro sairá pela Ediouro, coincidência, foi ela quem arrancou meu crachá de uma forma muito semelhante a sua. Vida que segue…

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  5. Oi Claudia – A Vida sem Crachá tem seus sabores e cores que devem ser apreciados. Na minha opinião, a grande vantagem da Vida sem Crachá é o controle sobre as nossas próprias escolhas. Isto é algo que acreditávamos ter no mundo corporativo e que é uma completa ilusão. Seu texto me lembrou, também, uma publicação recente da Ruth Manus no Estadão: “Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?” (http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/quando-foi-a-ultima-vez-que-voce-fez-algo-pela-primeira-vez/). Parabéns por mais uma excelente reflexão!!!

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  6. Me identifico demais com a maioria dos seus textos.
    No meu caso, a rotina é quase que uma “determinação médica para ansiosos”. É uma forma de acalmar uma cabeça acelerada e evitar que pense demais na hora errada.
    Sigo em frente, enfrentando o que aparece!
    Boa sorte aí tb!

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