“Era uma noite de verão e fazia muito calor. Coca voltava para casa triste como um cão. Tinha brigado com o seu namorado. Na calçada da avenida larga, Coca viu um rabo comprido. Depois, quarto patas, mais um punhado de bigodes e um par de olhos brilhantes. Eram tão verdes que pareciam dois faróis no escuro.

– Que gatinho lindo, pensou.

 Ela gostava de gatos. Há cinco anos dividia o apartamento com Zanzibar, um gato loiro e forte. Coca seguiu caminhando para casa. Curiosa, deu uma olhada para trás para ver de novo o gato.

 – Ele está me seguindo, pensou.

 Estava mesmo. O gatinho preto caminhava par e passo com ela. Resoluto, a perseguia. Então, Coca chegou à porta de seu prédio. Antes de abrir o portão do edifício Brasília, olhou para o bichano e perguntou, meio séria, meio brincando:

 – Gatinho, quer ir para casa comigo?

 O gatinho não teve dúvidas. Olhou bem nos olhos de Coca, deu um miado gentil e seguiu par e passo atrás dela. Os dois cruzaram a porta de vidro do hall de entrada e foram em direção ao elevador. Antes de entrar no cubículo, Coca olhou de novo para o gatinho e falou:

 – Se você quiser vir, venha.

 O bicho peludo não pensou duas vezes. Deu seis passinhos miúdos e embarcou. Os dois seguiram em silêncio até o décimo quarto andar, onde morava Coca. Calmamente, ela abriu a porta do elevador, virou à direita em direção ao seu apartamento e enfiou, de primeira, a chave na porta. A fechadura abriu seca. Antes de entrar, ela falou novamente ao felino:

 – Se você quiser mesmo vir, venha. Prometo te amar muito.

 O bichano, de novo, não teve dúvidas. Empinou o rabo e voou para dentro de casa. Nem bem entrou, deu de cara com o Zanzibar.

 – Gatinho, este é o Zanzi, apresentou Coca. 

– Zanzi, este é o gatinho que me encontrou na rua. Ele pode viver aqui conosco?, perguntou ela ao rei dos móveis.

 

Zanzi, claro, não respondeu de cara. Roçou na perna de Coca e foi cheirar o gatinho. A simpatia imediata fez Coca achar que o gatinho era fêmea. Bingo, era mesmo.

– Gatinha, você é muito linda e o Zanzi gostou de você. Se quiser ficar conosco, agora precisa ter um nome. Que tal Nuit, que significa noite em francês?

 A bichinha, meiga como só os vira-latas sabem ser, soltou um miado gostoso, concordando com o convite e o batismo. Há 20 minutos e dois quarteirões, tinha escolhido viver aquela vida. Desde aquele instante, os três viveram felizes para um sempre que durou 10 anos. Mas o tempo, convenhamos, não tem nada a ver com esta história.

 Escrevi esse conto faz muitos anos. Lembrei dele porque estava pensando sobre como é difícil escolher caminhos quando temos toda a liberdade do mundo para decidir o que fazer e ainda estamos presos a um sentimento, objeto, pessoa que não nos “pertence” mais. Vale para morte, divórcio, separação, demissão, aposentadoria, fim de ciclo e mudança.

Quando perdi o crachá, essa foi uma das minhas maiores dificuldades. Tinha um mundo de possibilidades e não sabia o que fazer e nem por onde começar. Diferentemente da gatinha Nuit, fiquei vagando pela noite escura atrás de um “dono”. Não sabia quem ou o que escolher. Normal para quem, normalmente, tem dúvidas. Anormal para alguém como eu, que havia escrito todo o argumento da minha vida. Confesso: para mim, difícil é titubear. Sou aquele tipo chato que sempre sabe o que quer. Penne al funghi. Vinho tinto. Viagem para a Birmânia. Calça jeans escura. Sorvete de Cupuaçu. Na categoria folclore, sou capaz de comprar uma televisão prenha de tecnologias em menos de cinco minutos. Os vendedores ficam assustados e felizes. E por que não sabia o que fazer com a minha vida quando mereci o total controle sobre ela?

Hoje, olhando no retrovisor e fazendo engenharia de obra feita, acho que a resposta é carência e vaidade. Achava, naquela época, que só seria feliz outra vez se tivesse um novo e reluzente crachá para exibir. Acreditava que procurar a minha melhora era ter um novo aquário de vidro para levar minha cadeira de prego e mostrar a minha competência. Uma coisa infantil do tipo: “não me quiseram no time deles? Agora é que vou ganhar a Copa do Mundo só para mostrar o craque que eles perderam”. Bobo, ridículo, sem noção. Mas foi assim. Graças a essa bobeira, como Aquiles, perdi o poder de minha maior qualidade que é saber escolher, bem e rápido.

Mais uma vez, não buscava salário, nem poder, nem meritocracia, muito menos algo que amasse fazer. Queria apenas resgatar a autoestima, receber afagos e carinhos. Queria ser querida e disputada. Pobre de mim. Como a gata, poderia ter encurtado o caminho e encontrado de cara um sofá quente para aninhar os meus projetos mais antigos e desejados. Penei. Sofri. Aprendi. Também quebrei a cara literalmente, mas, essa é uma história que conto no livro A Vida Sem Crachá.

A boa é que consegui deixar esse sentimentos e pensamentos bobos e incomodamente recorrentes no buraco molhado e fundo no qual me meti. Por livre e espontânea vontade, afundei. Pessoas queridas estavam por perto, preocupadas em evitar meu afogamento. O resgate tive de fazer sozinha. Não tem outro jeito. Por livre e espontânea vontade, voltei à tona e nadei até a outra margem.

Devia ter lembrado antes da história da minha gatinha Nuit.

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17 comentários sobre “Todas as escolhas do mundo e a história da gata Nuit

  1. Oi Claudia

    A vida corporativa é uma ampulheta com a âmbula inferior fixa a uma base. Começamos na âmbula superior e não percebemos a areia baixando para a inferior. Quando a areia baixou completamente, cabe a nós quebrarmos a redoma de vidro para nos libertarmos do universo corporativo que terminou. Entretanto, esta ruptura emocional, não ocorre na mesma velocidade do tempo (no momento em que a ampulheta avisa que terminou).

    Temos várias referências na vida que nos ensinam e estimulam a seguir para vida corporativa: a família, a mídia, a formação escolar, os amigos, entre outros. Entretanto, não temos nenhuma referência ou apoio que nos ensine a sair da vida corporativa…

    Por essa razão, você não conseguiu se lembrar em tempo hábil da sua história da gatinha Nuit…

    Parabéns pelo excelente texto!!!

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  2. Xará, Estou viciada nos teus textos. Sério! Como me identifico com eles, como me encanto com o ritmo e a poesia do que escreve. Por favor, continue sempre! Beijos, Claudia

    >

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  3. Olá Claudia! Gostaria q soubesse que é muito bom ler seus textos. Experiência quando é compartilha nos faz perceber o quanto aprendemos, crescemos e podemos achar um caminho para nós sentimos melhores, sem crachá.
    Desejo a vc muito sucesso em todas as áreas da sua vida.
    Abraço

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  4. Claudia, parabéns por mais este texto, mostrando coragem de compartilhar momentos de sua vida, com outras pessoas. Já tive a oportunidade de lhe escrever de como me identifiquei com sua história, pelo momento parecido que estou vivendo, e está me estimulando a fazer o mesmo, escrever sobre minha experiência, não só profissional, como a pessoal também e toda a minha trajetória na oeganização que fiquei 19 anos e agora estou para a carreira solo. Parabéns.

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  5. Claudia, eu uso moleskines para fazer minhas anotações. Como engenheiro, adorava os com páginas quadriculadas, que me permitiam manter tudo organizado.
    Com o tempo, aprendi a usar também os com páginas pautadas, mas nunca tinha ousado usar os com página em branco.
    Um dia usei também e adorei a liberdade.
    Gosto das 3 versões do moleskine. Cada um tem seu tempo e hora.
    É como a vida. As vezes ter um pouco de estrutura e alguém te guiando é bom. As vezes ter uma página totalmente em branco na frente te apavora, as vezes não e sai um desenho lindo.

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  6. Muitas vezes a liberdade de escolha e caminhos é o que nos prende… principalmente quando fomos condicionados a vida toda a seguir o mesmo caminho de sempre… Tem que ter muita coragem pra sair da gaiola…

    Adorei o texto, como sempre! 😉

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  7. Conseguiu dizer o que estou tentando identificar há mais de um ano. Tenho dois sonhos: o profissional e o pessoal, sendo que estou sem ambos desde o ano passado. Sigo tentando recuperá-los de diversas maneiras, me sentindo vazia às vezes e perdendo tempo – já que ainda não os retomei por razões externas a mim. Minha mãe sempre me diz: filha, você é livre! Faça o que quiser! E penso: o que quiser? Meu Deus, o mundo é tão grande, quero ele todo e não sei por onde começar – e aí volto para meus antigos objetivos. Difícil decidir quando desistir ou insistir. Obrigada pelo texto, me desengasgou.

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