A primeira noite de um homem. A primeira noite de uma mãe

chico10

A história é cômica. Na noite em que ela se deu, eu a lia como tragédia. Francisco Menezes Mieli, meu primeiro e único filho, era o protagonista. Tinha três dias de vida. Eu tinha estreado como mãe há três dias também. Não era a primeira noite de vida, mas a primeira noite que enfrentávamos sozinhos, eu, ele e o pai dele, Silvio, a nossa nova vida. No ápice da noite tragicômica, eu chorava.  Seu pai tinha o olhar preocupado. Melhor, desesperado. Temíamos pelo pior. Nos sentíamos um fracasso. Era só inexperiência. Era só o começo da mais linda jornada de nossas vidas.

A primeira noite de homem do Chico aconteceu no dia 19 de setembro de 2002, uma quarta-feira, três dias depois do nascimento dele, quando o trouxemos para casa. Três humanos e três gatos, Nuit, Che e Cabíria, juntos naquele lindo apartamento de Higienópolis, bairro tradicional de São Paulo. Também foi a primeira noite de uma mãe. Também foi a primeira noite de um pai. Vamos aos fatos.

As primeiras horas foram tranquilas, apesar de ainda não contarmos com os recursos da chupeta e do funchicória (funcho misturado com chicória e açúcar, uma “droga natural” para fazer os pequenos pararem de chorar). Marcamos bobeira e ficamos sem agenda no pediatra. A noite chegou. Você mamou. Pareceu estar com sono, mas dormir que é bom nada. Sacode, embala, nina, canta. Sacode, embala, nina, canta. Nada. Tentamos de novo toda a sequência e aí você abriu o berreiro. Com dó de peito. Sem perder o fôlego.

Quinze minutos. Meia hora. Uma hora. Tentamos de tudo. Mamar no peito outra vez. Trocar de fralda. Colocar no berço. Pegar no colo. Pendurar no lustre. De tanto chorar, você foi ficando vermelho e irritado. Estupidamente, pensamos: “está com cólicas”. Naquela altura, o único recurso disponível contra agruras intestinais era, segundo o guia da mamãe de primeira viagem, colocar uma bolsa de água quente em sua barriguinha. Aqueci a bolsa no micro-ondas e taquei em sua pança. Pra quê? Você ficou quente e vermelho como um pimentão, chorando mais do que antes. Na falta de algo melhor para fazer, colocamos um termômetro em você. 37, 2 graus.

Em pânico nível 3, tive a brilhante ideia de ligar para o berçário do hospital para pedir ajuda à enfermeira-chefe, que ao se despedir de mim, ofereceu, inocente, seus préstimos. “Ligue se precisar”, disse ela na saída. Ao contar sobre sua temperatura, a especialista em anjos disse resoluta:

– Ele está com febre. É melhor dar um banho nele agora!

Em pânico nível 6, corremos preparar a água. Você tinha três dias e já estava com febre. Havia lido que febre produz convulsões e já fui imaginando o seu corpinho estrebuchando. Desesperada, banhava você – mentira, apenas assessorava seu pai, o especialista em banho da casa – e me esforçava para não pensar no pior.

O pensamento mais otimista que me veio à mente foi: “os bebês são fortes. Os bebês sobrevivem no lixo quando são abandonados pelas mães. O Chico vai sair dessa”.

Depois do banho, liguei novamente para a Maternidade. A sua temperatura não baixava. Nessa ligação, a terceira do nosso calvário, percebi que havia algo de errado na comunicação. Ao perguntar se poderia ficar contigo no colo até a febre baixar, a voz do outro lado respondeu:

– Por que você não o deixa com a enfermeira?

Sim, Francisco, você nasceu em uma maternidade cinco estrelas. Na visão das funcionárias de lá, era impensável uma mãe sem staff para cuidar do bebê. Mal sabia a moça que havíamos optado pelo modelo “Casas Bahia”, com dedicação total à você.

Esgotados, dormimos na cadeira. Você com fome, eu do avesso. Demorei a descobrir que era um fracasso como produtora de leite. Demorei a entender que seu choro não era doença, mas vontade de comer, fome de viver. Na sua primeira noite de homem, você sobreviveu às trapalhadas de sua mãe. E, eu, sobrevivi ao pavor de perder você. Desde então, todos os dias, aprendo um pouquinho sobre a revolucionária experiência da maternidade. E, a cada dia, amo mais você.

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6 comentários sobre “A primeira noite de um homem. A primeira noite de uma mãe

  1. Quando eu tava pra ser pai, me mandaram uma piada engraçadinha de preparação que era colocar o despertador pras 3 da manhã, pegar um saco de arroz, ninar, colocar pra arrotar, voltar pra cama e repetir isso a cada 15 minutos como treinamento. Tentar vestir um macaquinho com 27 botões em um polvo sem arrancar nenhum bracinho e por aí vai.
    Eu ri.
    Mas na vida real, quando minha primeira filha chegou, a mãe teve mastite. Dupla.
    Foi um inferno. Minha filha passou fome. De verdade. Usamos o sensacional banco de leite do HMIB de Brasília. Aprendemos a dar NAM com sonda para a minha filha de forma que ela não largasse o peito. Deu certo, mas na época foi um inferno.
    Filhos são uma bênção e nos ensinam muito.

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  2. Ha, meu irmão tb veio comentar… mas o que vim compartilhar é que passei pela mesmíssima situação: não tinha leite suficiente, mas minha filha mamava por muito tempo e satisfeita. Não entendia os choros dela e até saber que era FOME, sofremos muito. Mas faz parte do aprendizado de ser mãe/pai, e é muito legal.

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  3. Na minha primeira aventura como Mãe também passei por isso … fome da criança !!! Mas aprendi na segunda vez já levei garrafinha de água morna com leite para maternidade … Noite de sonhos kkkk

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