De costas para o mar

FDY_9827

A primeira vez que vi, achei muito estranho. Estava na areia, olhando o mar, contando as ondas. Tenho essa mania faz tempo. Gosto de contá-las e compará-las. Umas nascem e quebram perfeitas. Outras ameaçam ser grandes e longas. Acabam abortadas no meio do caminho. Algumas ficam encavaladas, como se tivessem pressa de correr e voltar para o fundo.

De repente, sem mais nem porquê, a mulher começou a correr. Correr não, a trotar em minha direção. Vinha saltitante, como um cachorro. Não, um canguru. Corria, corria, sorridente, como se estivesse indo para o mar. Mas ela estava voltando. Será que aquilo tudo era para mim? Será que aquela alegria era toda minha? Será que eu era o infinito que ela mirava?

Pingando mar, ela sentou ao meu lado e sorriu. Comentou que a água estava deliciosa. Que o mar era lindo. Eu nem ouvi direito o que ela dizia. Só conseguia lembrar da cena esdrúxula. Uma pessoa correndo do mar para a praia. De costas para o mar. Trocamos meia dúzia de palavras sobre o tempo, a praia, o restaurante Mar Aberto e partimos em direções opostas. Eu tinha que tomar um avião e voltar ao trabalho. Ela se fez de esfinge.

 

Hoje voltei para aquele mesmo pedaço de areia. Confesso que tinha a esperança de reencontrá-la. Assim poderia perguntar por que ela fazia aquilo. Por que a alegria de ir correspondia em igual intensidade a alegria de voltar? Não tive sorte. Apesar do sol forte e do céu anil, ela não estava. Ninguém a vira por ali. Disseram que ela mora longe. Em São Paulo. Passou por ali de passagem, à convite de um empresário local. Italiano ou português, ninguém sabe direito. Dizem que um dia vai voltar porque deu entrada em um terreno.

Decidi esperar um pouco mais na areia. Juntei as minhas pernas ao tronco e fiquei olhando as ondas. Uma, duas, dez… Por feitiço ou monotonia, perdi o foco do horizonte e por instantes enxerguei só azul. Uma misturada de água com céu, num puro Matisse, como aquela capa de revista.

Quando pisquei, lá estava ela. Três quilos mais magra, com o mesmo biquíni azul e branco, correndo feito gazela em minha direção. Era ela, sim. Eu tinha certeza. Só ela corria do mar para a praia. Só ela, sorria daquele jeito. Pensei em levantar para correr ao seu encontro e lhe dar um daqueles abraços de comercial de pasta de dente. Antes que eu pudesse descruzar as pernas e me erguer, ela passou por mim e desapareceu pelo portão de tela do Village do tal empresário ítalo-português. De um salto, fui atrás. Não podia perdê-la. Não agüentaria esperar outro encontro para perguntar. Criei coragem e toquei a campanhia da casa. Três cachorros vieram me receber. Demorou alguns minutos e apareceu o caseiro.

– Senhor, por favor, preciso falar com a moça loira que entrou agora há pouco no Village. É urgente, pedi.

O homem me olhou com espanto.

– Com quem? Não tem ninguém aí. Todos os apartamentos estão vazios. Estava lá e ninguém entrou.

Sem ter o que responder, disse um fraco obrigada e parti. De costas para o mar, sai correndo feito ela, atrás da minha ilusão.

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13 comentários sobre “De costas para o mar

  1. Outro texto lindo, sensível e cheio de simbologias, não Claudia?
    Li, reli e parei pra refletir pq saimos do mar tão saltitantes? Talvez pq em contato c ele nos realimentamos de boas energias, lá vamos a alma e nos damos o direito de relaxar? Pq damos as costas para o mar? Quem sabe a certeza de saber q ele sempre estará lá pra nos reanimar e reabastecer nos da a segurança de lhe dar as costas sem preocupações ? Pq vamos em direção à desconhecida? Quero crer q seja pelo fato de ainda acreditarmos no bom, belo e fraterno ato de sermos Gente.
    Abraços e mais uma vez obrigada por partilhar c tanta intensidade seus sentimentos.

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