Eu não vi o filme Amor

O amor não tem que se acabar

Eu quero e sei que vou chegar

Até o fim, vou te amar,

Até que a vida em mim resolva se apagar

Eu não vi o filme Amor. Faz tempo também que não sinto amor. Vou confessar, não faz falta. Não tenho saudade. Verdade. Estou confortável aqui com meu ódio, dia após dia. Tenho foco, sabe. Odeio minha vida. Odeio meu casamento. Odeio o que aconteceu comigo. Odeio essa casa, esses móveis. Odeio essa vista que era linda mas não enxergo mais. Odeio meus parentes. Odeio meus filhos. Odeio a empregada, o zelador e o porteiro.

É prático sentir ódio. O sentimento tem só uma direção. Um fluxo. Zero um. Zero um. Zero um. Binário. Lógico. Objetivo. Detesto paradoxos. Detesto contradições. Odeio o imponderável. O improvável. O inesperado. Gosto do inexorável. Odiar é inexorável, especialmente quando se esperou tanto tempo por amor.

Já quis amar. Ou melhor, já amei e esperei ser correspondida. Muito. Era jovem, sabe. Tinha sonhos, desejos. Ele era um homem bonito, interessante, sedutor. Queria ser seduzida por ele. Queria carinho. Queria galanteio. Queria amor. Mas faz tempo que abandonei esses quereres. Hoje está mais fácil. Só quero odiar. Odeio essa escrivaninha ali. É colonial. Sim, madeira de lei. Original do século não lembro mais. Ele adorava essa escrivaninha. Tinha herdado do tatataravó e se achava nobre por ter um móvel do tempo das capitanias hereditárias. Adorava exibi-lo para os amigos. Também odeio o quadro do Di, que ele dizia valer milhões. Está lá na parede sendo comido, um pouquinho a cada dia, pelas traças.

As traças comeram o quadro e o ódio comeu a minha vida. No início, só odiava os amigos dele. Depois, passei a odiar as viagens dele. Eu odiava viajar e ele adorava viajar. No começo, me convidava para ir e eu até pensava na hipótese para estar ao lado dele. Mas meu ódio era maior que o desejo e eu ficava. Triste. Sozinha. Odienta. Odiosa. Com o tempo ele parou de me convidar. Se livrou do fardo da discussão e do risco de, eventualmente, eu dizer que queria ir junto. Acho que já me odiava também.

Nessas viagens, que sem exagero foram milhares, ele vivia o melhor da vida. Só viajava de executiva para cima. Tinha cartão vip de milhagem antes de existirem essas frescuras. Conheceu o mundo todo. Só lugares bonitos, hotéis caros, comidas de chef, bebidas de adega e, óbvio, claro, evidente, mulheres. Odeio quem cultiva prazeres. Especialmente esses. Odeio viajar. Odeio comer e beber. Só gosto de peito frango. Só bebo água. Sem gás. Nunca gostei de sexo. Odeio mulheres que gostam de safadeza. Que são lascivas. Odiava as mulheres que olhavam e se insinuavam para ele. Não era ciúme. Era ódio. Mesmo assim, tivemos quatro filhos. Todas mulheres. Quer dizer, três mulheres e um gay. Eu sei que gay é homem, mas é bom deixar clara essa diferença. Ele é o mais velho. Era o preferido. Tenho ódio disso também. Queria ter netos dele. Só tive das meninas e nasceu um pior que o outro. Que ódio, meu Deus.

Não vi o filme Amor porque disseram que contava a história de dois velhos. Odeio velhos. Eles são chatos, repetitivos e cheiram mal. Fedem a velho e odeio ter ficado velha. Ele também ficou. Bem feito. Faz dois anos que não anda. Um ano que não come comida. Só se alimenta pela veia, apesar de ainda ter dentes. Eu como frango. Ele, nem isso. E pensar que adorava tripa e rabada. Outro dia, meu filho número 3, que é parecido com o pai e por isso também o odeio, contou que ele teve um laivo de lucidez e perguntou contente: “onde vamos almoçar hoje?” Comeu pelo rabo, como os mulçumanos de Guantanamo torturados pela CIA. Odeio política, mas ouço o jornal. O Nacional e o do Marcelo Resende. Ele também odeia todo mundo, preto, pobre e bandido e me faz companhia. Odiamos juntos. Cada dia mais e com mais força.

Mas voltando ao meu ódio principal, primordial. Disse que não vi o filme porque odeio velhos. Isso tínhamos em comum. Ele também odiava velho e quando começou a ficar envelhecido pintava os cabelos e exagerava nas roupas de mocinho. Tomava banho de perfume. Colocava óculos escuros. Se achava magnata e galã. Ia à sauna. Cheguei a pensar que tinha virado gay. Que ódio.

Bem feito, desde que foi para o hospital nunca mais passou perfume. Nem comprou gravatas novas. Era maníaco por gravatas. Chegou a ter duzentas no armário. Um absurdo. Um desperdício. Odiava as gravatas dele. Tinha de todas as cores, estampas, tamanhos e marcas. As de seda eram maioria. Prada, Zegna, Gucci, Hermes, gravatas de Firenze, gravatas do lago de Como, onde dizem moram os melhores artesãos do mundo. Odiava quando ele voltava da Itália cheio de malas e presentes. Era quase tudo para ele mesmo. Quase nada para mim. Engraçado que odiei tanto, que na última viagem que ele fez, as malas voltaram vazias. Ele já estava caduco e esqueceu de comprar. Dei graças a Deus. Menos tranqueira para depois jogar no lixo.

Soube que ele hoje chamou por mim. Disse que me amava. Que eu era uma grande mulher. Que queria me ver. Perguntou com os olhos doces: “por que ela não está aqui comigo?” Que ódio. Ódio! Ódio! Será que o idiota não sabe que agora é tarde demais? Odeio essa sentimentalidades. Odeio o arrependimento. Odeio pedidos de perdão. Aqui se faz. Aqui se paga. Ele não tem o direito de querer mover o meu ódio de lugar depois de 60 anos. Mais. Casamos em 2 de abril de 19952. Fazia calor e eu suei muito na igreja.

Eu não vi o filme Amor porque ouvi na televisão que alguém morre no final. Não gosto de morte. Especialmente morte de velho. Quer coisa mais óbvia e mal cheirosa que morte de velho? Velho não tem mais nada a esperar da vida do que a morte. É assim. Lógico. Óbvio. Velho vive para morrer. Todo mundo, mas o velho mais. Falando em morte, porque você veio aqui ter comigo? Veio falar o que ? Quer o que? Saber do meu ódio? Como? Quem? Quem morreu?

Ele?

Ele?

Ele?

Não é possível.

Meu Deus, ele não. Não antes de mim.

Ele morreu? Ele morreu. Ele morreu.

Morreu.

E meu ódio? Ódio…quem?

Odeio quem…se ele morreu.

Oi. Sim, estou melhor. Estou vendo tudo. O enjoo passou e respiro bem com a bombinha. Obrigada. Posso fazer uma pergunta? Então…

…para onde vai o amor quando ele morre?

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15 comentários sobre “Eu não vi o filme Amor

  1. Olá Cláudia, bom dia. Meio que te conheci por acaso … se bem que acaso não existe. Acho que a necessidade se traveste de acaso quando a gente quer mostrar pra gente que não tá fazendo o que deveria fazer desde sempre. Paradoxo ? Sei lá… Enfim, estive lendo seus artigos. Li boa parte deles e , te confesso que me vejo em você daqui um tempo. Essa coisa de ficar juntando coisas e situações dá um Lego monstruoso. Sem forma definida mas, é a nossa forma. Você excitou meus pensamentos rumo ao futuro imediato. Um belo e sonoro tapa na cara da realidade me foi dado hoje quando comecei a te explorar… frase a frase, letra a letra, me confirmam que você , através de seus textos, foi a tábua de salvação que começou a dar forma no tal do Lego que comentei anteriormente. Vejo que agora é mão à obra ! Muito obrigado pela ajuda…Continuarei te explorando.

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  2. Claudia, fiquei chocada com seu texto! Mais chocada ainda porque me tocou de uma forma que eu não gostei, me incomodei e, se me incomodou… Poderia ter achado hilário como a Zana escreveu, mas não, não achei hilário, me incomodei mesmo. “Tô” preocupada…. Abs

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  3. Boa noite, Claudia! Meu nome é Gustavo e eu li um artigo seu falando sobre “Ao arrancarem meu crachá, senti como estivessem arrancando a minha pele” deste ano e gostaria de republicá-lo na minha coluna Um Café Executivo do Diário do Rio. O Diário do Rio é uma revista on line com 700.000 acessos mensais. Se houver interesse em publicar este artigo conosco, me mande um e-mail, por favor. gustavo@splus.com.br

    Um abraço!

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  4. Só discordo de que ódio é unilateral: ódio é como bumerangue. Ele sai de você, voa pelos ares e volta pra te acertar.
    Amor sim é sempre (SEMPRE!!) unilateral. Se não é unilateral, não é Amor!

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  5. O texto de certa forma é forte e nos remete ao nosso intimo, nos faz lembrar dos pensamentos negativos sobre as coisas. Mas o ódio é banalizado quando ele aparece de forma rotineira nos diversos momentos de vida relatados no texto. É como uma expressão de toda decepção contida ao longo da vida, uma explosão diante da constatação que a vida não é facil pra ninguém. Por isso defini como hilário.

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  6. Excelente! Excelente!! Muito forte, direto, engraçado, tocante e sim, incomoda. Por isso é ótimo.
    A propósito, visitei o site da pousada. Uau, quero conhecer! Sucesso e Prosperidade em sua nova – e maravilhosa – oportunidade de vida.

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  7. Emocionante, Claudia. Especialmente por lembrar que amor e ódio andam de mãos dadas. O que odeio no outro diz muito de mim mesmo.
    E, no fim, somos apenas amor.
    Comovente brinde neste fim de domingo!

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