O mergulho

Calor. Uma gota escorre pelo meio das costas. Outras aparecem no rosto. Em torno dos olhos, no nariz, ao redor dos lábios. Abundam. Parece choro. É suor. É calor. O trabalho termina. Olho para o relógio. Posso responder email. Posso escrever. Posso ir ao mar. Escolho ele. Está ali, azul, todo esparramado pra mim. Quando me vê, brilha ainda mais, refletindo o céu anil sem nuvens. Está alto, está cheio. Pego a máscara, os pés de pato tão grandes quanto os meus e vou. Não tem ninguém lá. Só eu. Posso entrar, mergulhar, afundar, sumir. Como certa vez vi em um filme italiano. Não consigo lembrar o nome, nem do filme, nem do diretor, nem da atriz. Vou fazer 50 anos. Mas relembro a cena como se acontecesse agora. A mulher, jovem, linda, cabelos raspados, entra nua no mar e desaparece.

Só mergulhei. A água estava fria. Gelada. Contraste duro com as gotas quentes do meu corpo. Titubei. Por pouco tempo. De uma vez só, sem arrependimentos, fui. Mergulhei. E fiquei na superfície. Respirando, respirando pelo snorkel. A princípio só batendo os pés com ritmo. Lembrei o quanto eu gostava de fazer aquilo. Mergulhar, olhar os peixes, me sentir como eles. A pele fria, com escamas. O corpo ágil e escorregadio. A água estava clara e logo me vi entre eles. Muitos. Coloridos. Pequenos. Curiosos. Quem é ela?, pensariam se peixe pensasse. Por que veio? Por que respira com esse canudo apontado para fora? Por que tenta entrar em nossos buracos?

Decidi nadar. Agora com os braços e pernas. Rápido, rápido, rápido. Lembrei de quando eu nadava. A primeira vez, era bem jovem, estava mudando de vida, de emprego, de tudo. Nadava para pensar. Nadava para sonhar. Nadava para esquecer o que doía. Quando a dor passou, parei. Achava muito chato contar azulejos. Melhor ver peixes. Como os daqui, como os de Fernando de Noronha e como os do Mar Vermelho. Mergulhei no Mar Vermelho, acredita? O melhor point de mergulho do mundo. Fui ao limite e parei, porque tive certeza que nada seria igualmente impressionante. Bobagem minha. Seria como proibir meus olhos de ver obras de arte depois de enxergar as pinturas de Michelangelo na Capela Sistina. Decisões estúpidas.

Só por lembrar desse gostar, acelerei nas batidas de pé para acompanhar o cardume. Eram muitos, prateados. A água agora está quente, como eu gosto. Me sinto um bebê no útero. Não lembro como era, mas imagino que era bom assim. Paro então de nadar e fico ali como um peixe. Um deles, preto e branco, sai da toca e me olha. Somos irmãos.

É a primeira vez que saio da minha pequena baía e nado para longe. Não sei o motivo, mas fiquei confinada ali por cinco anos sem vontade de expandir meu território. Hoje eu fui e me espantei com a distância. Nadei, nadei, nadei até sentir câimbras. Primeiro na perna esquerda, depois na direita. Por fim, na mão. Não senti medo. Estava raso e de pé deixei de ser peixe para fazer a dor passar. Por que tanto tempo sem mergulhar? Por que tantos anos sem arriscar nada além?

Ontem ouvi de novos amigos que havia passado por grandes transformações em pouco tempo. Não tinha pensado nisso. Apenas tinha ido. Apenas tinha feito. Apenas tinha mudado. Mas é verdade. Assim como é verdadeiro o prazer de sair para nadar no meio da manhã e poder, sem pressa, prestar atenção. Essa era, na verdade, a intenção do mergulho. Não estava nadando para gastar calorias. Não nadei para atravessar para o outro lado. Nadei por nadar. A atividade fim confinada nela mesma. Só pelo prazer de ser peixe. Só para sentir o mar. Apenas para esfriar o corpo. Apenas mergulhar.

Apenas mergulhar.

Sai da água bêbada. Bêbada de mar. Bêbada de alegria. Quase trôpega. Quase cambaleante. Emergi e dei de cara com um conhecido, de longa data, que também ficou surpreso de me ver ali. Bêbada, molhada e muito queimada de sol.

— Isso é que é vida, hein!!!, festejou ele, impressionado com meu olhar embriagado.

Na hora, a frase arranhou meus ouvidos. Pensei: “como assim? Ele está dizendo que deixei de ser estóica, espartana, workaholic? Ia responder que havia acordado às seis horas da manhã quando uma gota escorreu até meus lábios. Lembrei do mergulho. Apenas sorri, concordando.

Sim, isso é que é vida.

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7 comentários sobre “O mergulho

  1. Estimada Claudia,
    Reitero meus parabéns por suas reflexões. Estou concluindo um livro sobre a importância de se re-inventar ao longo da vida, especialmente com o aumento da longevidade.
    Colhemos alguns depoimentos de homens e mulheres que fizeram isso como preparo para a sua aposentadoria com qualidade.
    Pensei em ouvir você sobre sua história.
    Interessa ?
    Caso queira conhecer algo sobre o que escrevo, pode acessar o Valor On-line, onde tenho uma coluna e escrevo sobre vários temas ligados a questões da vida pessoal, carreira, qualidade de vida, etc.
    Afetuoso abraço,
    Renato Bernhoeft

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  2. Cara Cláudia,

    Lendo seu blog notei bem um trecho, numa postagem, em que você menciona a questão da super disponibilidade de emails e como os cenários se adequam nas fases de transição de vida, principalmente carreira.

    Por indicação do meu Coach, li no final de semana passado um livro que eu gostaria de te indicar, se é que você ainda não conhece, que é o “Trabalhe 4 horas por Semana”, de Tim Ferris. É um texto rápido, repleto de referências e considerado ‘life-changing’, por muitos mentores atuais da administração.

    Acho que você vai gostar.

    Abraços e boa sorte na sua trajetória.

    Julian Marques

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  3. Coisas da internet. Li um texto do Estadão no Facebook (A triste geração que virou escrava da própria carreira, de Ruth Manus), e veio a indicação para que eu lesse um texto seu. “Ao arrancarem meu crachá, senti como se estivessem arrancando a minha pele”. Daí vim para o seu blog. E me identifico – por atitudes, ou somente pela vontade de ter as mesmas atitudes, com cada frase. O que posso fazer além de agradecer? Sigo lendo. E já na expectativa dos próximos que virão!

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