Sem crachá no Ceasa

Hoje foi dia de acordar com o sol para ir ao Ceasa. Duas camionetes Ranger que vão vazias e voltam cheias de frutas, verduras, folhas, queijos, ovos, produtos de limpeza. uma compra imensa que vale R$ 1500 em Simões Filho, município vizinho a Salvador. Se fosse no Extra da Joaquim Floriano, em São Paulo, valeria R$ 3200. Se fosse no Pão de Açucar da Gabriel Monteiro da Silva valeria R$ 4000. Se fosse no Santa Luzia, meu supermercado amado, valeria R$ 4500. Como pode? A ancestral lei da oferta e procura, associada ao fetiche, somada ao brand, adicionada ao inegável conforto e exclusividade que só o SL oferece. Não sinto saudade dele.
Adoro ir ao Ceasa. É uma das atividades mais deliciosas da minha vida sem crachá. Primeiro, porque economizo, logo faturo. Segundo porque me sinto no mundo real, repleto de gentes e cheiros. Terceiro, porque tenho a real noção do quanto pareço estrangeira neste Brasil varonil. Mesmo com a pele bronzeada e cascuda, mesmo usando camiseta, bermuda e chinelo, mesmo com sotaque baiano, a saca de maracujá custa sempre dez reais mais caro para mim. O coco, então, pula de R$ 1 para R$ 1,50, só porque meus olhos são verdes e meus cabelos mezzo grisalhos, mezzo loiros. Vou com minha sócia, morena, baixa, baiana. Se estou por perto, até para ela o preço sobe. Fico de longe. Só consigo fazer negócios nas bancas “freguesas”. Já conhecem a “galega” e a melancia sai por R$ 5 e o abacaxi por dois.
Hoje vivi a inflação do coco. Encostamos o carro no caminhão. O vendedor, bem humorado e criativo, começou a conversa. “Freguesa, coco de cinema. Lindo”.

— Quanto?, perguntamos.

— R$ 1,10, disparou o Zé.

— Como assim? Custava 1 semana passada. Baixa isso.Nós somos pobrezinhas, devolveu minha sócia.
Zé riu. E devolveu numa raquetada.
— Pobrinhas com esse carro?

Rimos. Nós e ele. Compramos 50 cocos por 50 reais. A inflação no Ceasa não resiste a uma boa piada e uma simpatia. Ela, que sempre é quase amor.

Carro quase cheio. Fomos às bananas. Da terra. Da prata. Dessa vez, fiquei no carro e descobri a lei do Ceasa. O que sobra nas caixas (e são muitas caixas e muita sobra) pode ser pego por quem quiser. Na é crime. É colheita. Vi homens e mulheres fazendo uma feira paralela e gratuita. Em São Francisco, Califórnia, seriam vegans. Aqui são pobres e como tal se viram. E contam com uma solidariedade invisível do primeiro elo da cadeia do comércio de alimentos. Gente que compra o coco do produtor. Paga 40 centavos e vende por 1. Eu compro por 1, coloco na geladeira, ofereço um ambiente lindo, vista para o mar, pé na areia, música ambiente com a melhor MPB e vendo por 4, com canudo ou copo chique, e aceito cartão de crédito, que ganha 5% disso tudo só porque o dinheiro vira plástico. Assim, o mundo gira e a lusitana roda.

Do que gosto mesmo é ir ao setor de folhas. Minha freguesa (na Bahia é tudo o contrário, freguesa é quem vende não quem compra) é uma mulher forte, gorda, masculina. Dizem que é “colega”. É gentil comigo. Sua barraca é uma loucura de odores. Hortelã, manjericão, coentro (amo coentro), salsa, salsinha e múltiplas alfaces. Chego perto e fico tonta. Tudo fresco e intenso. Fico pensando no odor de quando tudo aquilo é colhido no pé, ainda vivo, pulsando. De novo, a inflação. Agora filha do desperdício. Quase 40% do que chega é jogado fora, rejeitado. Porque não está com cara de cinema. Esperto o Zé do coco. E ai, outra vez, rola uma feira paralela. Um monte de gente fica ali do lado, catando, catando. E quando chega na Perini, o Santa Luzia da Bahia, custa 300% mais caro.

Olhando aquilo, sentindo aquilo, lembrei do George Orwell. Ele tem um livro lindo, Na pior em Paris e Londres, autobiográfico, contando sobre seus anos de juventude em Paris, quando tentando ser escritor virou mendigo. Tinha um monte de truques para comer de graça, beber de graça e fazer com que o pouco dinheiro garantisse um teto para dormir em um hotel pulguedo ou em um albergue.

Fiquei na paz. De fome, não morro.

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