A história de Carnaval da vovó bananeira

Não foi durante a folia que Claudia conheceu Luiz. Nada a ver. Eram colegas de colégio, praticamente namorados de infância. Amor adolescente, à base de hormônios incandescentes e novas descobertas. Os pais não eram liberais como hoje. A pegação era filha da oportunidade, do fortuito, do escondido. O diabo é que deixava o namoro mais gostoso e cheio de tesão. Perigo. Ninguém usa camisinha direito. Quanto muito nas primeiras vezes. Depois relaxa. O azar era sempre com os outros, acreditava-se. Nosso erro. Foi assim com Claudia. Foi assim com Luiz. E com Maria e Antônio porque a história é danada e se repete.

Contei dezenas de vezes a história de Claudia, Luiz, Pedro, Antonio, Maria, João. A minha história de Carnaval. Sensacional, a trama era meu enredo para entreter os convidados vips durante o trajeto do hotel até o camarote na rua Marques de Leão, na Barra, em Salvador. Como uma sherazade de meia pataca, fazia o tempo passar graças as venturas de Claudia e sua família. Ela gostava e abria o sorriso branco e farto nas horas mais dramáticas.

Neste ano, não vai ter van nem camarote. E se houvesse, não estaria lá para entreter ninguém. Por isso, decidi cumprir minha promessa e escrever. Começa assim:

— Abre essa porta menina! Por que você agora se fecha na hora de tomar banho?

Com um tranco, a mãe arrebenta o trinco e invade o banheiro esfumaçado. Mês de maio, a água está bem quente. A jovem adolescente, 16 anos recém-completados, se assusta e com as mãos esconde o ventre. Está grande, redondo, mais do que inchado.

— Menina, você está grávida??????????

O silêncio de cinco segundos é a resposta. A mãe nem espera os primeiros muxoxos. Sai do banheiro aos gritos à procura do marido, pai e agora avô. Claudia ouve a porta bater e ainda com os olhos fechados, ajoelha no chuveiro. Abraça a barriga com o corpo e soluça. Banho e lágrimas se confundem. Apesar da dor e da vergonha, está aliviada. Não sabia como contar a verdade.

O amanhã sempre é outro dia. A mãe, prática, marcou logo o médico. Foram todos, mas Claudia entrou só para fazer os exames de ultrassom. Ansiedade. Nervoso. E, não dá para mentir, curiosidade. Como é que é ser mãe aos 16 anos? Não deu tempo de desenvolver o devaneio. O médico passou e repassou o equipamento na barriga da garota até ter certeza.

— Parabéns, menina, você será mãe de gêmeos.

Nem é preciso dizer que a notícia da dupla maternidade fez a família se descabelar outra vez. Duas bocas, duas roupas, dois berços, duas mamadeiras, duas escolas. Dupla jornada sempre. O pai, louco pela filha, lamentou o destino apressado da menina, que teria de adiar muitos sonhos e planos, como a viagem à Disney. “Minha menina vai crescer rápido”, pensou.

Cresceu a menina, cresceu a barriga, cresceram os desafios. Não foi fácil encarar o pai, a família toda, as colegas do colégio de freira, os amigos do prédio. Mas com o tempo acostumou e curtiu. Gostava da ideia de ser mãe. Amava Luiz. Gostava da ideia de ser adulta. Claudia pariu mas não deixou a escola. Se formou e foi cuidar sozinha dos meninos, dois meninos idênticos, morenos, cabeludos e lindos. Morava em um apartamento pequeno junto com o pai dos gêmeos em São Paulo. Estudava para a faculdade.

— Péeeeééeeeeeeeeeeee. Tem alguém em casa?

Claudia dava de mamar aos gêmeos e foi um sufoco catar os dois para correr abrir a porta. Não esperava ninguém e a faxineira já tinha ido embora. Olhou pelo olho mágico e viu uma moça loira, mais ou menos da sua idade, com uma bebê linda e rosada no colo. Achou estranho, mas pensou ser uma vizinha buscando amizade. Abriu.

— Oi, você é a Claudia? Eu sou a Rita. Essa é a Clara, que é irmã do Antonio e do Pedro.

Claudia até hoje não lembra como despachou Rita, amamentou Antonio, fez as malas dos três e partiu. De táxi, voltou para a casa da mãe que mais uma vez berrou, sofreu e aceitou. A vida não lhe sorriu. Firmes, os pais impuseram condições. Ajudavam a criar os gêmeos, mas Claudia tinha que estudar e trabalhar. Festas, bares, baladas, namoros? Passado. Agora era responsável pela vida dela e de seus filhos. Tinha que se virar nos 60.

Atendente de telemarketing, vendedora, assistente, estagiária, assistente de supervisão, trainne, assistente de marketing júnior, assistente pleno, gerente, diretora. Enquanto ouvia sua história e sacolejava na van, Claudia repassava detalhes e sentimentos. Seu olhar era sempre feliz e o sorriso denunciava como tinha sido e como ainda era bom. No trabalho, conheceu o amor de sua vida, que aceitou namorar uma jovem mulher com dois brindes. Namoro, noivado e casamento. Claudia entrou na igreja de branco, tendo os filhos como pajens.

História de carnaval não sobe a Serra e também não termina sem apoteose e emoção. Quando os gêmeos adolesceram, Claudia imita a mãe e invade o quarto deles à procura de um flagra. Na mosca. Pega os dois no maior papo com uma garota desconhecida. Marcavam um encontro no parque do Ibirapuera. Na ânsia de saber mais sobre a moça que os boyzinhos queriam impressionar, Claudia descobre tratar-se de Clara, a meia irmã dos meninos. Se fosse novela, claro, os críticos diriam ser inverossímil.

No domingo seguinte, Claudia, Fernando, seu marido, e os gêmeos aguardavam o encontro com a meia irmã no parque Villa Lobos. À época, Claudia comentou que preferia ser transparente sempre. “Já pensou se eu não descubro e um deles se apaixona pela menina. Ia ser um problema. Fomos lá, eles se conheceram, mataram a curiosidade e o assunto foi resolvido”. O encontro com o ex foi bom. Fernando e Claudia pediram e Luiz aceitou abrir mão do pátrio poder sobre os gêmeos. Fernando, um homem de olho puxado, neto de japoneses de Kioto e com menos de 20 anos de diferença de idade, tornou-se oficialmente pai dos meninos.

Conheci Claudia no trabalho. Era uma brilhante gerente de marketing. Trabalhava com a garra de quem amamentou gêmeos. Era incansável. E muito divertida. Mesmo quando ela deixou a empresa para morar nos Estados Unidos, continuei a contar sua história, com o final feliz coroado pelo nascimento de Giovana, a primeira filha com Fernando. Ao voltar da América, Claudia retornou à empresa onde trabalhávamos. Eu seguia andando de van no Carnaval e para minha alegria e dos passageiros, a saga de Claudia só ficava melhor. 36 anos, diretora de marketing da maior editora do país, mãe de 4 filhos.

— “Preciso falar com você”. Era assim curto e urgente o torpedo recebido naquele sábado. Parei o carro na calçada e liguei. Claudia do outro lado, aflita, tinha que me dar a notícia: “Vou ser avó”. Comecei a rir antes de dar os parabéns.

Sim, o gêmeo mais certinho, mais estudioso, mais religioso, havia engravidado a namorada paulista quando ela foi visita-lo nos Estados Unidos. Seria pai aos 18 anos e nada nesse mundo o faria mudar de ideia. Aconselhei, acalmei, confortei e ri com Claudia. O tempo não para e a história se repete.

— “Preciso falar com você”. O torpedo era novo, mas o texto velho. Comecei a rir ao lê-lo, mas confesso que não imaginava qual seria a bomba. Dessa vez, estava à pé quando liguei. “Vou ser avó”, ela falou. Não resisti à piada. “O menino nem nasceu e você já ficou gagá. Você me deu essa notícia na semana passada, sua louca”, detonei. “Vou ser avó outra vez. Meu filho engravidou outra menina, que conheceu na Flórida. Vou ter dois netos, de duas mães diferentes”. Tal pai, tal filho.

A história de Claudia, claro, se tornou o assunto mais interessante daquele semestre. Contávamos que ela ia ser avó para todas as novas pessoas com as quais mantínhamos contato. Era um ótimo jeito de quebrar o gelo com clientes, de começar um almoço ou reunião de trabalho. Ela, como era de se esperar, encarou o desafiou com força e bom humor. Tem hoje uma família linda, com quatro filhos e dois netos. O filho mais novo é apenas quatro meses mais velho que os sobrinhos. Entre os amigos, Claudia é conhecida como a vovó bananeira porque em uma noite de folia na casa de amigos aceitou o desafio de plantar uma bananeira no meio da sala. Conseguiu ficar de cabeça para baixo 30 segundos. Ela merece o título e sua incrível história. Que não acaba.

Há pouco recebi um torpedo: “Ele casa sábado. Tô arrasada. E para piorar me avisou com apenas dez dias de antecedência da data”.

Ri e ainda não respondi. Quem quiser saber mais, que fique na fila da próxima van…

Quem qu

iser saber mais, que fique na fila da próxima van.

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3 comentários sobre “A história de Carnaval da vovó bananeira

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