A fuga de Desireé

Quando vi os olhos de Desireé pela primeira vez enxerguei algo diferente dentro deles. Apesar do jeito manso, da voz baixa, da postura quase humilde, ela guardava (ou escondia) algo forte lá dentro. Feito um bicho. Olhava como se procurasse uma rota de fuga.

Desireé chegou a nós por recomendação do pastor. “Era uma ovelha nova, recém convertida”, diziam seus irmãos de igreja e culto. Com esse nome de romance de banca de jornal, ela tinha sido hippie durante 20 dos seus 36 anos. Maluca de estrada, como se autodenominam os malucos de estrada, que aos trancos e barrancos mantém o sonho de uma vida livre, de um eterno sabático pelo mundo.

Desireé era de Minas Gerais e caiu no mundo quando realizou o sonho número 1 de todo mineiro: visitou o Rio de Janeiro. Estava com a prima na feira hippie de Copacabana quando conheceu o amor de sua vida. Ela tinha 16 e ele 21. Ela ia terminar o clássico e ele abandonara tudo para fazer artesanato e andar pelo mundo. Foi amor à primeira vista, ela me contou. “Olhei para ele e me apaixonei”. Não voltou mais para Muzambinho, sua cidade natal. Mandou recado para a mãe pela prima. “Vou correr o mundo. Um dia eu volto”.

Do Rio de Janeiro foram para Buenos Aires, ganhar um na Feira de San Telmo. Para chegar, pingaram por dezenas de cidades e capitais. Andavam sozinhos ou em bando. Às vezes davam sorte e recebiam casa e abrigo. Às vezes chafurdavam no azar e dormiam nas praças, com a barriga tapeada por pão velho e coca cola quente. Mas eram muito apaixonados. E jovens. Da Argentina foram para o Chile, Peru, Bolívia, Paraguai. Voltaram pelo Mato Grosso e deram na Chapada dos Guimarães, destino telúrico, quando ouviram falar pela primeira vez em Arembepe, na Bahia, uma espécie de Santiago de Compostela para hippies de todo o mundo.

– Preta, vamos para lá?”, convidou José, que não gostava do nome pomposo da amada e por isso a chamada de cor. Ela disse sim, porque não tinha motivo para dizer não e porque adorava fazer todas as vontades dele.

Chegaram de carona em um caminhão, desceram na estrada na frente do vilarejo e seguiram para a aldeia. Deram sorte. Tinha uma palhoça vazia que fizeram de casa. José e Desireé abandonaram a estrada e fixaram residência na Aldeia. “Descobrimos o nosso lugar no mundo. Fomos muito felizes lá. Nos amamos muito. Fizemos muitas loucuras, que nem posso lembrar porque sei que desagrado a Jesus”, contou Desireé arrependida, fixada no discurso do pastor. “Tive oito filhos com o Zé, mas agora estamos separados”.

Quando ela contou que tinha tido oito filhos, vivido 20 anos na aldeia e se separado do amor da sua vida para abraçar Jesus, tive certeza que havia algo errado com aquela nova funcionária, que tinha que chegar todos os dias às 6 horas para manhã para preparar mandioca cozida, ovo mexido, banana frita, rabanadas, montar pratos com queijo e presunto, arrumar pães, cortar frutas. Como alguém que havia sido livre se amarraria numa rotina tão rotineira?

Desireé morava do outro lado da estrada num barraco, mas falava português correto. Havia pedido um fogão de adiantamento do primeiro salário porque a filha de oito anos não conseguia preparar a comida dos pequenininhos na lenha. “Deixei a aldeia porque estava passando muita fome”, confessou quando perguntei porque ela havia decidido abraçar Jesus e o pastor. “E a fome, você não sabe como é, faz a gente perder o amor, o carinho pelo outro”, contou referindo-se às brigas de tapa e faca que passou a ter com o amado Zé. “Aceitei o convite dos missionários para ir à Igreja depois que eu e ele saímos no tapa e quase nos matamos. Quis esganá-lo e ele quase me afogou”, narrou com os olhos marejados e firmes. “Fugi. Eu sempre fujo”.

Fiquei com uma invejinha de Desireé. Sempre quis fugir. Nunca tive coragem. Quando era criança e brigava com minha mãe, planejava minuciosamente minha fuga. Pegava uma sacola, juntava todos os meus trocados, escolhia uma muda de roupa, dois brinquedos e me trancava no banheiro. A ideia era escapar quando todos dormissem, mas antes disso sentia fome, a birra passava e meio sem graça saia com meu surrão do banheiro e fazia que nada tinha acontecido. Depois, quando cresci, no lugar de fugir, fantasiava morrer, um jeito de escapar para sempre do problema. Estou viva e sigo com eles no meu surrão, agora maior.

Desireé trabalhou quinze dias conosco. Ganhou o fogão. Levou uma cesta básica para casa. Saiu do sufoco. Trabalhava bem. Falava um português acima da média com a turma da cozinha. Chegava no horário e mantinha o olhar distante. Falava pouco de Jesus e não citava o Zé. Dizia ter saudades do filho mais velho, Arco-Íris, que morava com o pai. Perguntei se ela sentia saudade da aldeia. Ela não respondeu. Perguntei se tinha usado drogas e se havia ouvido falar de Janis Joplin. Ela sorriu um sorriso de sabedoria e se calou. Me senti idiota pela pergunta óbvia. “Conheci pessoas do mundo inteiro. Falo um pouco de inglês”, disse para encerrar o interrogatório.

Fiquei interessada na história de Desireé. Queria entrevistá-la para um projeto de museu a Céu Aberto. Não deu tempo. Desireé fugiu. Foi para casa com o lanche para as crianças e nunca mais voltou. Dizem que voltou para a Aldeia com o Zé. Deixaram os filhos na creche e retomaram o clima de “amor em uma cabana”. Dizem que fugiu com o assistente do pastor e agora arregimentam fiéis em Palmas no Tocantins. Dizem que foi para o Rio de Janeiro, começar de novo. Enfim, fugiu.

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