A água de João

João tem 13 anos, sorriso branco e olhar vivaz. João é mulato, mais para franzino. Veste roupas simples e havaianas gastas. João é baiano de Lauro de Freitas. Conheci João sorrindo. Estava contente o moleque. Reparei nele porque entrou feito um raio Atacarejo (um mercado de atacado e varejo) adentro, mostrando todos os dentes de felicidade. Estava faturando honestamente com uma desgraça. Uma van perdeu o controle e engoliu um poste de iluminação. A sorte do azar é que foi bem na frente do hospital Menandro de Farias, na estrada do Coco, litoral Norte de Salvador. Uma passageira grávida e o motorista ficaram feridos. Uma cena horrível, bem ao meio dia de domingo quando as pessoas se divertiam na praia.

No final da tarde de verão, os homens ainda trabalhavam para livrar o carro dos fios elétricos e do poste. No lugar de quatro pistas, uma e meia. A operação de resgate produziu uma fila de quinze quilômetros de carros, vans e ônibus ocupados por veranistas cansados de mar e torrados de sol. As máquinas andavam na velocidade de gente, a dois quilômetros por hora, em um congestionamento de quase 20 quilômetros. Quando João chegou ao local, as vítimas já tinham ido. Ouviu algumas histórias sobre como o acidente aconteceu. Olhou a fila de carros começando a engrossar e lembrou que não tinha almoçado ainda. Teve um estalo. Ali, naquela cena triste, podia estar a certeza do seu jantar. Correu arrumar dez reais. Pediu para a tia do acarajé, sua madrinha. Juro que devolvi em duas horas. Ela acreditou e deu. João foi pela primeira vez para o mercadão. Comprou 12 garrafas de água mineral Dias Dávila por 9, 25 reais. Estavam meio quentes e para disfarçar pediu para mergulha-las por alguns minutos na caixa de isopor do vendedor de cocos.

Foi à luta. Vendeu cada garrafinha por 2 reais. Lucro de 100%. Separou 10 em notas de dois e um real para ter troco e comprou mais 12 garrafinhas. Em cinco minutos, esgotou o segundo lote. Faturou vinte mangos. Voou para o mercado. Ia pegar dois pacotes mas ficou com medo de investir.

— Tia, já pensou se o pessoal da Coelba resolve logo o problema e o congestionamento acaba? O que eu faço com as garrafinhas? Lá em casa, a gente bebe água da torneira.

Comprou só um e o vendeu rápido outra vez. Com outros dez reais de lucro, devolveu logo o dinheiro para a tia, pois disse que não era homem de ter dívidas. Além disso, tinha pernas firmes e rápidas. Podia seguir ir e vindo.

Quando cruzei com João, ele já havia feito cinco viagens ao mercado. Faturamento cinquenta reais. Com a mão recheada de notas e um novo pacote de água mineral debaixo do braço, ele olhou pra mim depois de toda a prosa e perguntou: “A senhora quer ajuda para levar suas compras até o carro?”

O moleque gênio, claro, percebeu que eu estava interessada na história dele e pagaria uma bela gorjeta pela entrevista informal.

– Pode me ajudar João. Vamos lá!

Com o dinheiro numa mão e a água debaixo do outro braço, o moleque mal conseguia empurrar o carrinho cheio de cocos, garrafas, macarrões e frutas. Ele fez que ajudou. Eu fiz que precisava de ajuda. Fomos até o carro e ele me ajudou a colocar tudo na camionete. Enquanto isso, fiz perguntas que ele respondeu com prazer. Gostava de falar o menino. Lhe entreguei uma nota de 10 reais e parabéns. “Siga trabalhando, João. Você vai longe”. Ele agradeceu sorrindo e voou para o mercado de novo. Quando estava saindo do estacionamento, o vi com dois pacotes de água e uma Coca-Cola. Além de esperto, o menino sabe ser auto-indulgente.

João e sua história me deixaram feliz. Emocionada. Ver aquele menino radiante com o trocado ganho no exercício da oportunidade, também me deu um tico de esperança. Sorte e coragem, João. Seja safo na vida.

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