O Papai Noel e o fusca vermelho

A menina Coca tinha seis anos e adorava o Natal. Gostava das luzes e do clima feliz que tomava a cidade. Gostava de fazer a lista de presentes e depois ficar procurando por eles nos armários gigantes da casa da avô. Era neta única e por isso muito paparicada. Gostava também do calor do verão, que transformava a paulicéia garoenta e abria os portões da piscina do clube. Coca gostava, especialmente, do Papai Noel, que todos os anos vinha visitá-la em sua casa. Ela podia sentar no colo dele e agradar sua barba branca. Ele comia uma prato de bacalhau com ovos e batata palha que sua avó preparava, bebia um copo de vinho tinto e saía correndo para entregar o resto dos presentes da molecada da rua, do bairro, da cidade, do Brasil e do mundo.

Este Natal de 1971, seria especial. Coca ganharia um irmãozinho na chegada do inverno e a família se desdobrava em carinhos para evitar a dor da perda da majestade. A avó havia feito um acordo com o Papai Noel e a menina receberia um saco de presentes do tamanho dela, à época um metro e alguns centímetros. Por isso, a menina fizera muitas visitas à loja Balão Vermelho, no Shopping Iguatemi, para olhar as novidades e preparar a lista. Fora também ao Mappin, o maior magazine da cidade, que tinha a boneca Gui-gui, último lançamento, e um incrível velocípede de três rodas da Trol. A menina estava na dúvida entre os dois, mas na hora agá trocava tudo pelo presente de sentar no colo do Papai Noel.

De banho tomado, fivela no cabelo, vestido de pique branco com detalhes em azul, meia calça e sapato de verniz branco, a menina vestida de boneca seguiu para a casa da avó no começo da noite de Natal. Não sabia direito olhar as horas, mas passava o tempo todo cercando o relógio cuco que saia da casinha nas meias horas e horas cheias.

— Falta muito para o Papai Noel chegar? – perguntava a menina para qualquer adulto que se aproximasse.

E de verdade, o tempo estava lento, lerdo. O bom velhinho que costumava chegar às 21 horas ainda não havia dado as caras quando os adultos começaram a se mobilizar para servir a ceia. A família era tradicional e só comia depois da Missa do Galo em respeito ao nascimento do menino Jesus. Coca, sempre faminta, nem sentiu o gosto do bacalhau e do bolo de nozes, seu pratos preferidos.

No peito, uma sensação forte de rejeição e abandono. Ele me esqueceu. Ele não vem. Ele não gosta mais de mim….

Não era fita, não. O Papai Noel estava mesmo muito atrasado. Os adultos tentavam disfarçar o nervoso. No telefone preto, tentaram uma chamada para o bom velhinho. Nada. Ninguém em casa para saber se ele estava na ativa. Faltava pouco para uma da manhã, hora de todos irem para casa, quando um barulho de vozes e gritos veio da rua. Coca se agitou. Será ele?

Era sim. Papai Noel não falha, dizia a avó aliviada. Papai Noel não falha, repetia a tia avó, gerente do Mappin, que havia contratado o velhinho e iria puxar sua barba e orelha na segunda-feira quando ele aparecesse para receber o seu cachê da loja e da visita noturna.

Alheia a esses combinados de gente grande, a menina era só felicidade. Nem ligou para o saco de presentes do seu tamanho, onde estavam a boneca Gui-Gui e o triciclo Trol. Queria o seu papai Noel, que havia chegado cheio de sorrisos e ia comer com ela o bacalhau com claras e batatas palhas. O velhinho, afogueado pelo excesso de trabalho, recebeu feliz o abraço da menina e pela primeira vez na noite, aceitou sentar na poltrona, confortável como um trono de um legítimo São Carlos. Resfestelou-se ao lado da garota, que não desceu um segundo do seu joelho. Pareciam íntimos. Depois do salgado, comeram bolo de nozes e pudim de leite. A bochecha vermelha do velhinho brilhava lustrosa. Provavelmente diabético, devia estar feliz com a estripulia. Coca ia e vinha com novos quitutes para agradar o seu convidado particular. Até que o relógio cuco saiu de novo da casinha, marcando uma da madrugada. Papai Noel se mexeu na poltrona.

– Vamos? – sim, vamos.

– E o Papai Noel? – perguntou a menina – Como ele vai embora? Onde estão as renas?

A família sem graça, como quando ouve a pergunta “de onde vem os bebês”, aumentou o tom das conversas para não responder.

A pirralha não se fez de rogada e perguntou de novo, com voz mais aguda e mais forte:

  • Cadê as renas? Como o papai Noel vai embora?

A história está chegando ao fim e o milagre acontece agora, fruto do jogo de cintura e amor dos pais pela menina.

  • O Papai Noel vai embora conosco, filha. Vamos levá-lo até a casa de outra criança, onde as renas estarão o esperando daqui a pouco. Temos que sair correndo para não haver desencontro.

E assim, o Papai Noel da Coca embarcou no fusca vermelho do pai da Coca. Sentou no banco traseiro, de mãos dadas com ela. Ainda estava de luvas e alegremente embriagado com as três taças de vinho tinto italiano que tomou. Sorria feliz para ela, no que era completamente correspondido.

Coca hoje tem 49 anos e não consegue esquecer a emoção que sentiu. E o orgulho também. Afinal, toda a rua Ministro Costa e Silva, em Pinheiros, saiu na calçada para ver o Papai Noel embarcar no fusquinha vermelho do filho da Dona Gina. Ele, feliz com a carona – ia de carro e não de bumba para casa –, não se fez de rogado. Acenou para todos. Mandou beijos e daria autógrafos se pedissem. Antes de engatar a primeira, o pai de Coca deixou as crianças encostarem a cara no vidro do carro para terem certeza de que se tratava realmente do Papai Noel, o bom velhinho.

– Sim, era ele! – repetiram todos, enquanto o fusca vermelho virava a esquina em direção à Freguesia do Ó.

Desse dia em diante, Coca acredita no amor, em milagres e no Papai Noel, que atrasou sua volta à Lapônia só para fazer feliz uma garotinha.

Feliz Natal!

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