Caminhos cruzados

O título do meu post é roubado do romance do Érico Veríssimo, que amo. Me faço usurpadora por uma razão nobre. Estive hoje nas Obras de Irmã Dulce, na avenida do Bonfim, em Salvador. Fui lá à convite da minha amiga Lucrécia Savernini e tive a honra de conhecer Maria Rita Pontes, sobrinha e sucessora de Irmã Dulce no trabalho incansável de ajudar os pobres, os doentes, os abandonados. Fui lá agradecer minha graça. Fui lá fazer uma doação. Eles precisam muito.
Ganhei de presente de Natal conhecer o memorial, o museu, a igreja, a tumba, o hospital, a horta, o setor da terceira idade e dos abandonados de Irmã Dulce. Abandonados não é figura de linguagem. Existem pessoas portadoras de graves deficiências físicas e mentais que lá foram deixadas por seus parentes (sem julgamentos, por favor) há quarenta anos.
A visita foi emocionante por muitos motivos. Por vários caminhos cruzados.
Conheci Lucrecia em minha pousada. Era uma cliente. Ao chegar revelou-se uma pessoa especial. Conversamos muito e contei que minha mãe era devota de Dulce desde que adotei a rotina de voar para a Bahia duas vezes por mês, em geral na madrugada. Para minha mãe, Dulce garantiu a segurança de meus vôos. Meu anjo da guarda no ar e na estrada. Lucrécia voltou à pousada trazendo medalhas, velas, santinhos, livros e medalhinhas para minha mãe. Com Dulce, voei e entreguei os presentes. Dulce passou a morar na pousada também.
Em São Paulo, quando precisei de graça e ajuda, recorri a Ela e fui imediatamente socorrida. Uma vela, muitas orações e uma benção. Hoje foi o dia de agradecer e agradecer.
Quando lá cheguei, depois de fazer um caminho alternativo pela periferia de Salvador, passei por bairros onde Dulce atuou. É pobre hoje. Era miserável ontem. E ela incansável, lutava, pedia, brigava, conquistava, negociava, invadia. Sem exageros, Dulce foi o embrião bom do MST. Seu mais novo hospital, um centro de tratamento radiológico, é fruto da invasão de um campo de futebol. Um ministro de Brasília sugeriu: “Invadam”. Eles foram. Colocaram uma imagem gigante da santa (para mim, ela já está do lado de Francisco, Rita e Clara) e começaram a cavar. Gritaria. Conchavos. Acordos. Ela adorava futebol, nada mais justo.
Durante a visita ao museu, cruzei meu caminho com Dulce mais uma vez. Pouca gente que me conhece sabe, mas quando era jovem pensei fortemente em ser freira. Estudei em colégio religioso (colégio assunção) de irmãs combativas alinhadas à teologia da libertação. Logo, antes de ser comunista, foi religiosa. Se fosse mais velha, teria sido da JUC. Viajei muito com as madres pelas missões do colégio e a miséria do povo me incomodava e mobilizava. No início dos anos 80, outro privilégio, conheci dom Pedro Casaldaglia. Era uma pirralha cheia de si e lembro, com certa vergonha, de como ele me recebeu atencioso. Apenas eu, a parva, e ele, escritor, filósofo, gênio, ouvindo com carinho meus palpites revolucionários.
Lembrei de tudo isso hoje enquanto ouvia a história de Dulce. Longe de me comparar a ela, verdadeira, legítima, Santa. Iluminada. Predestinada. Mas com ela compartilho o sentimento de inconformidade diante da dor e do sofrimento alheio. Enquanto seguia no carro com minha mãe e meu pai, Chico, meu filho, disparou: “sabe Vovó, li numa revista que as 67 pessoas mais ricas do mundo têm patrimônio equivalente ao das 3,5 bilhões de pessoas mais pobres.”  Ele ainda não sabia o que iria ver, mas acho que intuiu e trouxe a informação tão assustadora e contundente, perfeitamente adequada ao que iríamos ver.
O mais bacana da visita, no entanto, foi ver o milagre de irmã Dulce acontecendo ao vivo e a cores. Sim, o hospital dela com mais de 1000 leitos funciona com doações e com o dinheiro do SUS. No entanto, é profundamente diferente de outros muitos hospitais mantidos por doações e dinheiro do SUS. Apesar de tanta dor e doença, recebi abraços e sorrisos. Vi esperança. Vi fé. Vi dedicação. Vi Maria Rita, Lucrécia, médicos e enfermeiras ralando, ralando e ralando com uma atitude positiva. Com olhos brilhantes. Com disposição para uma palavra boa. Para um cumprimento gentil. Com braços abertos para muitos abraços. Estavam lá como profissionais, claro, mas tinham algo mais que faz, fazia toda a diferença.
A visita durou três horas. Saímos de lá transformados, motivados e felizes. Em paz. Mais uma graça de Dulce. Um presente muito especial de Natal.
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2 comentários sobre “Caminhos cruzados

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