As bolinhas da árvore de Natal

A árvore de Natal da cidade de São Paulo encolheu. A prefeitura perdeu o patrocínio de um banco e por pouco a cidade ficou sem o seu maior símbolo Natalino. Para não fazer feio, o prefeito Haddad pôs a mão no bolso e bancou o enfeite para a maior metrópole do país. Ela ficou pronta nesta semana e ao ver sua foto no jornal lembrei do ensinamento precioso de um chefe querido, que era duro e intransigente na mesma proporção em que era inspirador e carismático.

Sempre que um projeto, grande ou pequeno, ameaçava dar para trás por falta de patrocínio, verba ou dificuldade, ele ouvia em silêncio todos os nossos argumentos para adiar, abordar ou matar a iniciativa. Quando achávamos que havíamos logrado sucesso em convence-lo, ele vinha com a imagem das bolinhas da árvore de Natal.

— Você está me dizendo que quer tirar essa bolinha da sua árvore de Natal? Você já pensou como ela vai ficar feia? Sem graça? Sem luz. Nada disso. Da árvore de Natal, a gente não tinha bolinhas, só coloca. Quando mais, melhor. Mais bonita e atraente, ela fica.

Era um mantra. Às vezes, parecia um enorme equívoco mas não era. As bolinhas podem até cair e você pode perdê-las. Mas tirar é diferente. Trata-se de uma ação decidida por você. Significa desistir. Jogar a toalha. Se resignar com o insucesso. Fracassar.

Enquanto trabalhei com ele, tirei só uma bolinha da árvore e me arrependo por isso. Esse movimento insignificante — o projeto era pequeno, o prejuízo idem — marcou uma mudança de comportamento. Passei a aceitar o “não consegui” como resposta. Foi péssimo. Afroxei. Esmoreci. Voltei atrás. Minhas bolinhas são intocáveis. Se quebrarem, ok. É da vida.

Lembrar das bolinhas foi providencial e simbólico. Hoje foi o primeiro dia do meu primeiro verão 100% funcionária de pousada. Estou feliz, porque, enfim, o futuro chegou. E, o principal, reconheci a sua chegada. Em 31 de dezembro de 2013, fiz vários pedidos para o espírito do Ano Novo. Confesso que não pedi para mudar de vida. O destino, a vida, Deus e os outros decidiram por mim. A princípio não entendi que era um presente da vida, do destino e de Deus. Confesso que sofri. Mas a vida, o destino, Deus, me fizeram enxergar algo óbvio. Não teria tomado as rédeas da minha existência sem um empurrão. Bem forte. De livre e espontânea vontade, não sairia da zona de conforto antes de ter todos os cabelos brancos. Ficaria com um pé lá e outro cá, eternamente dividida, adiando o futuro mais um pouquinho.

O futuro chegou e estou feliz porque vou cuidar das bolinhas da minha árvore de Natal.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s