A fuga

Vamos fugir

Deste lugar, baby

Vamos fugir

Tô cansado de esperar

Que você me carregue

– Não vale a pena morrer por um pouco de carinho e purpurina. Melhor sumir.

IMG_1412Ela não era maníaco depressiva. Longe disso. Estava mais para uma alma sem relevo e portanto sem qualquer vocação para a depressão. O pensamento de morte era recorrente, dizia ela, por causa da data de nascimento e do signo. Finados. Escorpião. “Nasci logo depois da família visitar os mortos no cemitério e só celebrava meu aniversário após colocar flores em quatro tumbas”, dizia gozando de si, da data e do destino. Por isso, imaginar o próprio velório era uma diversão para momentos agudos. Aqueles em que dá um cansaço, uma vontade louca de desistir. Sem drama nem melancolia, escolhia a roupa e os sapatos com os quais receberia os amigos no caixão. Previa uma superlotação se o passamento fosse no meio da semana, já que uma morte como a sua seria um bom pretexto para gazetear o trabalho. Imaginava um fiasco de público se fosse no final de semana, quando a maior parte dos amigos e conhecidos viaja para o campo, para a praia ou estava de ressaca.

A parte de imaginar diálogos era a mais divertida. Haveria gente para chorá-la. Haveria quem iria apenas para ver quem ia e parecer da “turma”. Haveria os que sentiram, de verdade, sua falta. E os que pensariam, fazendo cara de pesar: “foi tarde”.

  • Não vale a pena morrer por um pouco de carinho e purpurina. Melhor sumir, repetiu para si mesma quando a vontade de dar fim àquilo tudo não passava.

Fazia horas que ela dirigia por uma autoestrada americana. Destino: Grand Canyon, um destino desejado e sonhado por três décadas. A paisagem é linda, mas depois de quatro horas vendo montanha, pedra, deserto e céu azul dá tédio, ah, isso dá. A ideia do sumiço surgiu assim, como antídoto contra o sono e a modorra. Sua acompanhante, aborrecida com um comentário besta, virou para o lado e dormiu. Profundamente. Ruidosamente.

O roteiro pode dar filme. Casal em crise resolve viajar pelos Estados Unidos. Ela tem o sonho de conhecer o Grand Canyon. Ele não tem sonho algum e por isso embarca no sonho dela. Passam por Las Vegas e voltam a brigar. Ele gosta da cidade do pecado. Ela não. Discutem. Divergem. Ampliam-se as diferenças. Ele quer ficar por lá três dias. Jogar. Ver shows. Comer. Beber. Ela se deprime e quer partir. Passa mal no hotel Venetian Palazzo antes de verem o show Le Reve. É noite de lua cheia, mas chove. Antes do show, comem pizza, bebem champanhe e falam sobre as famílias. Parece que o equilíbrio foi reestabelecido. Mentira. Tudo é frágil.

No dia seguinte, no caminho para o GC, a estrada é longa e o caminho duro. Silêncio no carro. Ela dirige. Ele finge dormir. A gasolina precisa ser reposta. Ele “acorda”. Ela comenta que precisa parar. Fala sobre um assunto qualquer. Erra no assunto. Começam uma nova briga. A briga esquenta. Trocam desaforos. Fazem ameaças.

 

– Eu não aguento mais você.

– Eu não suporto mais viver com você.

– Você não me ouve.

– Você não me escuta.

– Você não me ama.

– Você não me deseja.

– Eu te odeio.

     – Eu te detesto.

         – Eu quero me livrar de você.

– Eu nunca mais quero te ver.

– Eu vou te deixar.

– Eu vou te deixar.

 

Ela para o carro no posto. Bufando. Segue pisando duro até o caixa para pagar a gasolina. Nas mãos, uma nota de cem dólares. No bolso, o celular. Coloca 40 dólares de combustível. Pega o troco de 60 e vai ao banheiro. Enquanto lava mão, pensa que ele é um chato mas ainda gosta dele. Vai se esforçar para começar de novo.

Volta para o carro, mais leve, disposta a ceder, negociar. Quando chega à bomba, nada. Nada. Nada. Ele partiu. Deixou-a para trás. Cumpriu a ameaça, vou te deixar. Me deixou. Partiu. Perdi. Tomei. Vou me vingar. Ele vai ver. Vou sumir. Nunca mais ninguém vai me ver. Ele será culpado. Pela lei e pela consciência. 

Ele arrancou com o carro. Está puto. Vingativo. 500 metros. 1 quilômetro. A adrenalina abaixa. O ódio vai se dissipando. Ele a ama, mas ela é tão difícil. Ousada. Provocadora. Não o respeita. Parece não ama-lo mais. Suspeita que ela tem um amante. Que é traído. Sou corno. Mas gosto dela. Como pude deixa-la? Como pude deixa-la sozinha com 60 dólares e um celular em um posto de gasolina de Seligman? Na Rota 66. Fiquei doido. Preciso voltar. Preciso de um retorno. Agora. Agora, já. Ele treme e acelera. 60, 70, 80 milhas por hora. Cadê o retorno? Vê uma placa ao longe e se anima. Deve ser lá. Acelera e vê o carro da polícia. A sirene roda. A sirene toca. Não! Não, agora.

Ela tem 60 dólares e um celular. Quer sumir. Sumir. Um carro bacana para na bomba onde ela havia estacionado seu carro 15 minutos antes. Um cinquentão de filme americano está ao volante. Sozinho. Ela se aproxima. Olha-o de cima abaixo e o aborda com seu sotaque britânico.

– Bom dia. Posso lhe pedir uma carona?

O homem se assusta com a voz. Desvia o olhar da tela do celular e se surpreende mais uma vez por estar sendo abordado por uma mulher bonita, com cara de fina, rica, educada, atriz de filme francês. Ele também a escaneia de cima a baixo. E, gentil, pergunta:

  • Você está indo para onde?
  • De pronto, ela responde: “Para onde você for”.

 

 

Ele se livra da polícia contando a verdade, a mais pura verdade. O policial que o parou também está com problemas com a mulher e fica solidário. Fotografa a carteira de motorista e o passaporte dele e o deixa ir.

  • Go, man, go. Rescue your love, your life.

 

Ele corre, corre demais, faz o retorno em Seligman – a cidade mais cenográfica da rota 66 – e chega ao posto. Ela não está na bomba. Ela não está na lanchonete. Nem no banheiro. Ninguém a viu. Ninguém sabe dela. Evaporou. Sumiu.

 

Pois diga que irá, Irajá

Pra onde eu só veja você

Você veja mim só

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4 comentários sobre “A fuga

  1. Maravilhoso Claudia… Ainda bem que você tomou a sabia decisão de ‘se contratar’ pra escrever. Parabéns! e espero que a história aqui continue, que vire um livro. Que venham muitas outras, bjs
    Nivea

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  2. Estimada Claudia,
    Parabéns pela ideia e iniciativa. Trabalhando desde os anos 80 com preparo de executivos para aposentadoria acompanhei muitos dramas da perda da identidade corporativa – sobrenome organizacional -. Hoje, com o aumento da longevidade, este tema vem ganhando mais importância ainda.
    Caso queira trocar algumas ideias sobre o assunto, apreciaria. Pode ver alguns artigos no Valor On-line, onde tenho uma coluna de Carreiras. E também, desejando, posso lhe enviar alguns textos. Entendo que o grande desafio é que a maioria das pessoas não são educadas para se apropriarem da SUA história e se tornarem autores da sua biografia.
    PARABÉNS.
    REnato Bernhoeft

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    1. Olá Renato, como vai? Sim, gostaria muito de entrevista-lo. Estou escrevendo um livro sobre a experiência de perder o emprego, viver sem crachá, procurar novo emprego, criar plano B. E além de textos pessoais, a ideia é ter ideias e opiniões de especialistas no assunto. Estarei fora de São Paulo até o final de janeiro. Posso procurá-lo na volta? Enquanto isso, vou ler seus artigos e podemos trocar emails.

      um abraço

      claudia

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