Caçador de mim

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu, caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Adoro música. Canto malíssimo. Antes do Google, sabia as letras. Era o meu recurso para garantir o direito de fazer parte da roda de cantoria. Cantava mal mas soprava as canções. Os bons me deixavam ficar por perto. Ontem, depois de assinar os papéis do meu “divórcio” com a empresa na qual me criei, estava leve, feliz e refeita. Pronta para embarcar em uma nova volta na montanha russa da vida. A música do Milton, que reproduzo acima, ficou passeando na minha cabeça. Cantarolei sem prestar atenção à letra até que o refrão “Eu, caçador de mim” brilhou como um holofote gigante.

Vou descobrir o que me faz sentir, eu caçador de mim. Caramba. Decifra-te, ou te devoro. Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Chegou a hora de eu me encarar.  De me encontrar, longe do meu lugar, do meu espaço de conforto, de poder, de domínio e de amplo conhecimento. O tal do aquário de vidro sobre a qual falei alguns posts atrás. Sem fantasia. Sem o cargo de super, que inspirava admiração e respeito. Sem segurança e sem o crachá que abriu tantas catracas, portas e cancelas.

Quem é você, diga logo, que eu quero saber?

Quem sou eu sem o sobrenome corporativo? Estou à procura do que? Estou caçando quem?

Vou descobrir, o que me faz sentir. Eu, caçador de mim.

A resposta brotou ontem da minha boca, sem estudo, sem análise ou reflexão. Foi um jorro cuspido durante uma conversa ao celular, na qual eu contava o que iria fazer com o dinheiro da indenização.

— Vou me contratar para estudar e escrever. Meu salário será de R$ 6 mil por mês. Serei minha patroa.

Quem falava comigo tinha pressa e acho que não ligou muito para minha decisão. Desliguei, subi na bike e corri para casa. Tinha que cuidar do meu filho recém-operado. Festejei o acordo com meus pais, mas não contei sobre o meu novo contrato de trabalho. Recebi visitas, falei, celebrei mas também não coloquei o plano na conversa.

Eu, caçador de mim.

Hoje no banco, decidindo com a gerente as novas aplicações, escrevi no papel meu plano.

— Vou receber R$ 6 mil por mês para estudar e escrever. Meu contrato será de cinco anos e dois meses. Até lá, me garanto.

A gerente, curiosa, quis saber sobre o que eu iria escrever. Para não esticar a conversa, respondi o óbvio: um livro sobre a minha vida sem crachá. Depois, crônicas, biografias e um romance. Ela mexeu a cabeça, satisfeita com a resposta, e sugeriu um investimento de longo prazo com taxa de 0,9 % ao mês, já descontados os impostos. É o melhor que temos, garantiu.

Assim como no dia em que me descobri feliz, escrevendo em frente ao mar, na minha própria pousada, hoje me encontro arrumando a mesa do meu novo escritório paulistano. Ele é amplo, tem quadros e fotografias lindas e vista para a piscina do clube Pinheiros. Hoje choveu e não pude ir à Kalunga comprar pastas, tinta para a impressora e papel. Não teve problema. Primeiro dia de trabalho novo é assim mesmo, a gente demora para se achar. Amanhã estarei mais sabida e produtiva. Eu, caçador de mim.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Autor: Sergio Zalis
Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Autor: Sergio Zalis
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