Desde que perdi o crachá, aportei em uma montanha. Russa. O destino é a transformação. Faz parte e é bom, especialmente para os maiores de 49 como eu. Mas não gosto muito de montanha russa, especialmente nos momentos em que ela despenca ladeira abaixo. Sei que não tem perigo, mas não gosto de sentir medo, frio na barriga, insegurança, ansiedade e desconforto.

Na semana passada, choveu. Fez frio. Na Bahia. Nunca embarcaria em uma Montanha Russa num dia de chuva. Mas nela eu estava e não pude descer. A semana foi péssima. A experiência foi única.  Especialmente porque terminou com meu carrinho chegando intacto no ponto de partida. Não despencou. Não quebrou. Não cai. Ao sair na plataforma, era outra. Diferente. Tinha pele. Casca.

Vamos aos fatos. Trocar de pele dói. Especialmente quando sua pele foi arrancada sem aviso. Fica tudo em carne viva. No início, a endorfina e o próprio stress escondem a dor. Existe um mundo de novidades e possibilidades. Perspectivas. Fantasias. Apostas. Conversas. Convites. É o momento em que o seu carrinho está subindo a colina da montanha. A vista é linda, o ar fresco e você se pergunta porque demorou tanto tempo para experimentar aquela sensação de liberdade.

O problema é o tamanho da montanha e o tempo de duração dela. Sim, porque quanto mais alta for a colina mas abrupta será a descida. Não previ isso, quando comecei a me enfiar em um milhão de reuniões, projetos, planos e negócios. Estava sem pele, mas o pulmão estava cheio de ar e esperança. Vai dar certo. Pense positivo. Vibre.

Quem já andou em montanha russa sabe que o movimento do treco vai mudar quando o carrinho dá um tranco e a engrenagem faz um barulho seco. Creck. É o sistema de segurança se preparando para a carreira ladeira abaixo. Ouvi esse tranco durante uma reunião sobre o meu principal projeto na semana passada.

“Você precisa conter a ansiedade. Eles são assim. Tem um jeito próprio e uma velocidade particular de trabalhar”, disse a voz experiente do outro lado da linha.

Ansiedade. Mas eu não sou ansiosa!!!!, pensei com meus botões. Estava inconformada com a demora. Com a lentidão. Com a moleza. Com a falta de pressa. Será que sou só eu que responde email na hora em que ele bate na caixa? Por que cobraram tanta urgência no projeto e nem ligaram para dizer que o haviam recebido? Por que desligaram os canais a cabo? Por que o sistema não funciona? Por que o sol não brilha?

Tola, muito tola. Sai da reunião e do shopping e a chuva continuava. Pensei que era um mau sinal. Era mesmo. A partir desse momento, entrei em um túnel. Do tempo. Da falta de sorte. Do desencontro. Do desentendimento. Do desgosto. Da desconstrução. Do destino. Quebrei a cara. Literalmente, quebrei o nariz. Doeu. Mereci. Sempre que olhar para ele, vou lembrar dessa semana. Ainda bem. A memória fará com que eu não repita os mesmos pensamentos equivocados e afastará os maus sentimentos.

O texto é meio cifrado, eu sei. Mas a terapia em praça pública tem limites. Escrevo porque além de terapêutico, acho útil. Um serviço para quem possa estar vivendo uma semana péssima como a que eu vivi.

Aprendizado 1: uma semana dura sete dias. Esse é o prazo para dar um jeito no péssimo.

Aprendizado 2: fugir da dor é um jeito de ficar sempre com ela. Encare-a, sofra e despache-a.

Aprendizado 3: se achar que está no mundo dos “mortos”, imagine como seria o seu velório. Por maior que for o chororo e as loas em sua memória, a graça acaba no cemitério. Prefira a vida.

Aprendizado 4: coloque para fora. Escreva, desenhe, fale, vomite, chore. Quando acaba é um alento.

Esse foi meu vômito na minha semana péssima.

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5 comentários sobre “Semana péssima

  1. Claudia, como sempre digo, somos muito parecidas e temos experiências muito próximas, mesmo que quando nos olhem, percebam de cara como somos diferentes. Seu texto não foi nada cifrado. Me senti dentro dele. Ainda acho que tudo é reflexo do fato de que durante anos (muitos, você bem sabe), ficamos condicionados àquele quadrado, aos horários, ao dinheiro caindo certinho, no mesmo dia na conta, como ratos de laboratório, como pássaros domesticados que quando soltos querem voltar. O sobe e desce de expectativas, das tais propostas, do não sei como vai ser amanhã, me lembra uma gangorra hormonal, porque mexe diretamente com meu humor e minha energia. Eles sobem e descem. Mas como você (mais uma coisa em comum), não sou dada a prolongar depressão e mau humor. Retomo, vou em frente, enxugo a água salgada que às vezes escorre pelo rosto (e não é água de mar). Nós somos muito capazes, uma usina criativa e é nisso que me apoio para seguir em frente.

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  2. Claudia,
    Lembro quando te conheci, falamos de trabalho e de São Paulo e estava uma noite linda e a lua maravilhosa!
    Digo que a vida nos apresenta algumas pessoas para aprendermos com ela. O engraçado é que o seu texto fala do mesmo momento que estou passando. Que loucura!
    Agora, estou com sentimento de paz, minha energia e vontade de fazer as coisas acontecerem transbordam.
    E acredite, na montanha russa depois da descida, tem o looping para subir subir novamente.
    Esse é o barato da vida!!!!
    Sucesso porque tenho certeza que é uma super profissional.
    Bjssss

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