Travessia oceânica

salvador22009 237Nesta semana, reencontrei um querido e antigo amigo. Daqueles que vemos raramente mas com quem mantemos laços fortes e permanentes. Ele estava preocupado comigo. Trabalhamos juntos e somos muito parecidos. Ele havia perdido o crachá 14 anos antes e tinha experiência. Havia passado por muitas das situações que narro aqui. Havia perdido a pele como eu e sabia bem, muito bem, como às vezes arde, às vezes dói. Durante nossa conversa, Jorge trouxe à mesa uma imagem que mexeu muito comigo e com minhas reflexões. Falou sobre as famílias que decidem viver em barcos para viajar pelo mundo.
Meu primeiro livro, para retomar as primeiras vezes, foi Robson Cruzoé. Me fascinava a situação de solidão, abandono, liberdade, aventura de um naufrago. Me imaginava, aos 8 anos de idade, só em uma ilha. Sem ninguém para me mandar ou controlar. Inventava situações e debaixo do cobertor, onde na sala de casa brincava de “casinha”, me imaginava enfrentando desafios sem fim. Cobras. Bestas ferozes. Frio. Fome. Abandono. Sempre achava uma saída e curtia demais a brincadeira.
Cresci e cruzar os oceanos sempre foi um sonho. Tive barcos durante muitos anos. Convivi com o vento e com velejadores. Quis o destino que eu jamais tivesse um parceiro para compartilhar esse gosto. Ao meu redor, todos gostam de terra firme. Segue sendo uma fantasia, como a do naufrago.
Na conversa com Jorge, o personagem reapareceu. Ele contava das famílias que abandonaram tudo para viver em seus barcos. Essa escolha envolve desprendimento. Numa cabine há pouco espaço. Os armários são diminutos. Os guarda-roupas também. Tem gente que vive bem com três camisetas, duas calças, duas bermudas, uma camisa e que não vai à casamento porque não tem terno.
Ainda não atingi esse nível. Tenho roupas para duas encarnações, dez casamentos e três Oscars. Sim, tenho dois vestidos longos, logo dá para revezar por no mínimo três anos. Apesar do guarda-roupa estufado, a imagem do “marinheiro”, que vive um dia aqui e outro lá, me encanta. Me encanta também o desprendimento e a disposição de viver com pouco. Além do pouco pano, essas pessoas vivem com muito pouco dinheiro. São seres sustentáveis, Transformam a riqueza produzida em anos passados (rendimentos, aluguéis, previdência) em energia auto-sustentável. Não torram. Se retroalimentam. Para muitos, três mil reais são suficientes para um mês. A síntese da felicidade, que inclui bolsa cultura, bolsa família e bolsa viagem. Estou aprendendo, mas logo chego lá. Obrigada amigo, Jorge, pelo almoço inspirador. Não, não trocarei seis por meia dúzia.
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2 comentários sobre “Travessia oceânica

  1. Fiquei lisonjeado… Nao sabia q vc gostava de barcos. Lembra q te falei q estou fazendo outro livro? Tem, em parte, a ver com isso… Chamara Historias do Mar. Bj

    Jorge de Souza Revista Nautica Sul e Nautica Sudeste

    >

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