Banco Expresso: 20 anos para avisar que, ops, a conta não fechou

IMG_2977Lapa. Avenida Paulista. Duas agências do Bradesco. O banco Bra (?). O banco Expresso. Nunca havia estado em ambas. Mas tinham meu nome, CPF, nome de pai e mãe e dívidas minhas lá. Isso mesmo. Contas salário foram abertas. Contas salário não foram fechadas. Contas inativas, que gotejaram custos insalubres ano a ano sem eu saber, enquanto dormia, inocente, o sono dos intolerantes a dívidas.
A conta da Lapa foi cobrada na forma de uma carta. Eu devia 160 reais, mas tinha dez na poupança. Já paguei 150 e conto com a bondade da moça do PAB da minha ex-empresa para que ela seja devidamente fechada. Amanhã, Lapa lá vou eu de novo. A da Paulista 1429 é uma história surreal que inspira este post e talvez um processo. De Kafka. De uma banca de advogados.
Vamos voltar no tempo. Primeiro de maio de 1994, Airton Senna, o herói do Brasil, morre na curva de Tamburello na Itália. 13 de maio de 1994, dia da libertação dos escravos, deixo meu emprego de editora assistente em uma semanal de informação para trabalhar no finado JB. Sou admitida como repórter especial de Cultura. O glorioso caderno B do JB. Estou feliz e orgulhosa. Alguém me entrega papéis que assino. Dias depois recebo um cartão e cheques de uma conta salário. O Brasil era presidido por Itamar Franco e FHC era ministro. Estava realizando a proeza de acabar com a hiperinflação por meio do Plano Real de da URV. Eu ganhava 1490,77 URV por mês. Descobri hoje, mais de 20 anos depois, que o banco achou o salário bom e me deu um cheque especial. Nunca pedi, mas ganhei. Em 30 de setembro de 1994, pedi as contas do JB. Adorava o jornal e meus colegas, mas estava doente do pulmão e precisa de um trabalho mais leve que o de jornal diária. Fui trabalhar na também finada e inesquecível Os Caminhos da Terra.

Juro que não lembro, mas devo ter feito todos os procedimentos básicos de quem deixa um emprego. Carta de despedida para os amigos, abraço nos chefes queridos, à época Claudia de Souza e Ibsen Spartacus (RIP grande amigo), visita ao DP (departamento pessoal que equivalia ao RH de hoje), baixa na carteira, fim da conta salário, chope de despedida e vida nova. Vinte anos se passaram. Apesar de estar sem crachá, acordei com a conta no azul, cartão de crédito pago, zero de financiamento. Achei que era pegadiça quando atendi hoje, às 9 horas, a ligação de uma empresa de cobrança do banco Bra. Devia R$ 600,15 de encargos de um cheque especial de uma conta de uma agência na Paulista. Corri ao google maps. Sabia onde era, mas nunca tinha estado lá. Sirenes tocando. Clonaram meus dados. Roubaram minha identidade. Preciso levar um advogado?, perguntei, exagerada, para a moça do telemarketing. Não, basta procurar o gerente.

`As 10 em ponto estava abrindo o banco. Todos os funcionários na porta recebem os primeiros clientes com sorrisos e bom dia, como nas liquidações de black friday nos Estados Unidos. Nervosa, contei a mocinha de vermelho a ligação que havia recebido. Como destoava da fila de boys e aposentados, me atenderam rápido. Pensaram que eu podia depositar uma bolada. Contei de novo a história e pelo CPF (sim, Big Brother is watching you) ela descobriu o meu mistério. O banco me cobrava mesmo R$ 600,15 de uma conta de 1994, que estava sem ser usada há vinte anos mas ainda respirava, negativa, com a força do capitalismo financeiro. “Isso é um absurdo! Isso é uma sacanagem!”, protestei. “Não quero pagar.” A mocinha, com assustadoras manchas na pele, foi consultar a gerente. Voltou com o veredicto. “Tem que pagar, senão não posso fechar.”

Paguei. A prova está na foto. Vou registrar em cartório que a conta foi fechada. Vou estudar direito para processar o banco. Antes de 20 anos, faço vestibular, passo na São Francisco, concluo o curso, presto OAB, me especializo em direito financeiro e recupero minha grana. R$ 750,15 em dois meses!

Contei essa história talvez enfadonha porque ela contém um Primeira Vez. Ela traduz a minha revolta de consumidora e meu resgate enquanto pessoa física. Nos últimos anos, deixei de manifestar publicamente meu descontentamento com empresas e serviços porque meu crachá não me permitia. Hoje, pela primeira vez, posso lavar a alma. Posso brincar e supor que o banco, do qual sou cliente como dona de pousada, não está cumprindo a meta. Só isso explica, lembrar, hoje, de me cobrar uma conta de 20 anos atrás. Expresso, muito expresso.

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