Mais uma primeira vez

Voltei ao cinema. Dessa vez, em uma segunda-feira e na companhia do meu filho, Chico, de 12 anos. Vimos Boyhood, filme que recomendo fortemente para pais e mães de pré e adolescentes. Trata-se da história de um garoto contada “em tempo real”, já que o filme foi produzido durante 12 anos, mostrando o crescimento, a adolescência e o envelhecimento real dos atores que interpretam os personagens principais. Não é reality show, mas excelente ficção potencializada com a vivência dos atores Ellar Coltrane, o Mason Júnior, que narra sua vida dos 6 aos 18 anos, quando sai de casa para fazer faculdade de fotografia. Ele adolesce ao lado da atriz Lorelei Linklater que faz o papel de sua irmã Samantha, dois anos mais velha. Os pais são os atores Ethan Hawke e Patricia Arquette que ganham rugas e quilos durante as três horas de filme.

Sim, foi a primeira vez que vi um filme com um casting tão realista, mas não é cinema o assunto do post. Quero escrever sobre a incrível (e difícil) experiência de ver o filho crescer. A primeira vez que isso aconteceu comigo, Chico tinha cinco anos. Estávamos sozinhos na praia de Juqueí, litoral Norte de São Paulo, onde iríamos passar cinco dias. Nadamos, brincamos, andamos de bicicleta, tomamos muito sol e comemos muita porcaria, como deve acontecer nas férias. No terceiro dia, escolhi um peixe que estava estragado e quatro horas depois estava à beira do precipício, colocando a alma para fora na privada. Lembro de dizer para o Chico: “filho, fica aqui quietinho, que a mamãe precisa ir lá para o banheiro. Não saia da cama”. Alguns muitos minutos depois, ouço um bater na porta e uma voz doce e preocupada: “Mãe, você está bem? Está precisando de alguma coisa?”

Senti um choque tão grande, que quase curei. Meu bebê, que até então dependia 100% de mim para sobreviver, estava ali, atrás da porta, preocupado comigo e me oferecendo ajuda? Bingo. Chico havia crescido e cortava, naquele momento, o seu segundo cordão umbilical. Era um ser pequeno mas auto suficiente ao ponto de poder oferecer ajuda. Daquele dia em dia, a minha vida e nossa relação mudaram. Começamos a tecer uma trama de afinidades, gostos, cuidados e respeitos.

Ontem, depois do filme, saímos abraçados da sala e começamos a conversar. Olhei para Chico e vi que ele havia crescido mais um pouco após aquelas três horas de projeção. Era um espectador interessado e com opinião. Sim, tinha gostado do filme que temi ser chato para um menino de 12 anos. Chico havia se identificado com Mason, da mesma forma em que me vi em Olivia. Falamos sobre os Estados Unidos, a crise, a juventude, a escola, bebida, drogas, contei minhas histórias e ouvi as dele. Ofereci brigadeiro, que ele recusou dizendo ser dispensável e caro. Descemos para o estacionamento e ele indicou a direção certa do carro. De novo, acontecia a mágica da vida. Ao meu lado havia um adolescente, anteprojeto de homem, que era um bom companheiro. Emocionada, disse: “Chico adoro ir ao cinema com você”.

Meu bebê, que até então dependia 100% de mim para sobreviver, estava ali, atrás da porta, preocupado comigo e me oferecendo ajuda?

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