A primeira vez

Tive um grande professor chamado Flávio Di Giorgi. Era uma mente brilhante e uma alma iluminada. Conheci-o no primeiro ano de jornalismo da PUC-SP. Era uma pirralha de 17 anos, gulosa, ousada e cheia de planos. A primeira aula que tive com ele teve o efeito de um raio partindo a minha cabeça. Ele sabia tudo, falava sobre tudo, recitava poemas de Lorca e Pessoa, citava autores, discursava e contava muitas histórias. Flávio também falava fluentemente seis línguas e conhecia a estrutura de dezenas de outras. Era amigo do lingüista Noam Chomsky e explicava, com uma naturalidade incrível, como havia aprendido tantos idiomas. Segundo ele, havia uma lógica intrínseca o que facilitava o aprendizado. O que atrapalhavam eram algumas exceções, que em geral moravam no português.

— Como explicar para uma criança que passarinho, aquele bicho tão pequenino, pode corresponder a uma palavra tão grande. Meu sobrinho, alfabetizado em inglês, foi quem me alertou sobre isso. Ele disse: tio a palavra certa para designar passarinho é bird. Pequena e curta como eles”, dizia Flávio, com seu vozeirão e sorriso manso, entre uma tragada e outra do seu Continental sem filtro.

Conto tudo isso para falar sobre a experiência da primeira vez. Tem aquela, que agora não vem ao caso, mas também tem outras.

Flavio enchia a lousa com títulos de livros que deveríamos ler. Eram muitos e o dinheiro era curto. Fiz muitos crediários na livraria Cortês para poder acompanha-lo. Um dia, ao escrever o título Crime e Castigo no quadro verde, ele parou com o giz na mão e nos disse: “Tenho inveja de vocês que poderão ler este livro pela primeira vez. Esse privilégio, esse prazer, eu perdi há muito tempo”. Na época, pensei que ele estava debochando de nós. Eu tinha tanta pressa, tanta fome, tanta sede, que seria ótimo não precisar sair correndo dali para comprar ou arrumar emprestado o livro.

Lembrei dessa história ontem quando fui pela primeira vez ao cinema no meio da tarde de um dia de semana. Por muitos anos cultivei essa fantasia. Largar tudo e me esconder na sala escura. Nunca tive coragem de tal estrepolia, porque sou coxinha demais, caxias demais. Ontem, negociei com meus botões e antes de terminar um monte de pendências — o projeto, a arrumação, o telefonema, a reserva — comprei meu ingresso e fui. No início me senti meio estranha. Parecia estar fazendo algo errado, como roubar. Sim, roubar o tempo do trabalho para gastar com o lazer. Vi outras pessoas adultas como eu fazendo o mesmo. Inclusive três moças, com cara de executivas, que devia estar pulando a cerca da corporação. Fui gostando da sensação. Comprei pipoca, chá mate zero e fui para minha cadeira. Deleite. Quando o filme Garota Exemplar acabou já era noite e eu não era mais virgem.

Lembrei do Flávio enquanto pedalava de volta para casa. Das próximas vezes, não sentirei o mesmo prazer da primeira. Ele é único e irrepetível, se é que essa palavra existe. Como gostei da experiência, vou me dedicar a buscar outras coisas para fazer de primeira. Aceito sugestões e companhia.

 “Tenho inveja de vocês que poderão ler este livro pela primeira vez. Esse privilégio, esse prazer, eu perdi há muito tempo”

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