Tudo o que sei é que nada sei

Este post é complexo e, por isso, precisa ser escrito por partes.

1) Quando comecei nesta vida de jornalista, achava um horror escrever em primeira pessoa. O pronome pessoal “eu” nunca, jamais deveria ser utilizado. Escrevo isso porque esse blog, desde que começo, é muito pessoal e intransferível. Fico constrangida, mas não tem jeito. É para ser assim e peço desculpas de antemão por, às vezes, fazer terapia em praça pública (Viva Cazuza!).

2) Jornalismo, na minha opinião, não é profissão que se escolhe. Somos escolhidos. É uma profissão de fé. Uma vocação. Um destino. No meu tempo, lá no século passado, os escolhidos queriam: fazer a revolução, contar a verdade, mudar o mundo, virar escritor, fazer arte, beber um bocado, farrear um bocado, ralar um bocado. Também havia aqueles que não sabiam o que fazer e escolhiam o jornalismo por falta de coisa melhor para fazer.

3) Jornalista do século passado queriam trabalhar em jornais, em revistas e em alguns telejornais. Quem não conseguia ia parar no banco, na assessoria, na equipe de comunicação, na propaganda.

4) Jornalista sempre foi um generalista. Um ser dotado do raro talento de falar e escrever sobre tudo e não entender de p*&%# nenhuma. Fomos felizes assim por anos a fio.

Depois destes quatro itens, começo a minha história. Nos últimos quatro anos, dei uma aula (quase) no curso de jornalismo da Escola de Propaganda e Marketing (ESPM) a convite do jornalista e professor Jorge Tarquini. Uma delícia. Jovens inteligentes e interessados. Perguntadores. Curiosos. Antenados. Eu os queria em minhas redações. Ano a ano, falei por duas horas sobre o cenário da indústria da comunicação, sobre novas mídias, negócios, jornalismo e publicidade. Em 2011, a narrativa foi gloriosa. Crescemos, lançamos, batemos recordes. Íamos dominar o mundo com um país em crescimento que diminuía o analfabetismo funcional e incluía leitores digitais. 2012 a conversa ficou um pouco mais pesada, mas era uma fase ruim. Iríamos melhorar e tinha uma tal de rede social surgindo e fazendo a diferença. No ano passado, 2013, falei muito da urgência do off-line abraçar o digital. Das empresas tradicionais buscarem um atalho para oferecer o seu conteúdo glorioso e de qualidade em novas mídias e novas plataformas de modo rentável. Não estava fácil, mas parecia haver um túnel, um caminho.

A aula de ontem havia sido marcada bem antes de 25 de agosto, my bloody monday. Jorginho, um gentleman antes de tudo, manteve o convite para a aula a despeito da minha vida, agora, sem crachá. Na classe, jovens nascido em 1994, 95 e 96. Portanto, todos nativos digitais que aprenderam a ler com os dedinhos na tela do computador. Inteligentes e interessados, aguentaram 120 minutos de falatório mantendo o celular deitado sobre a carteira (sim, houve exceções mas vamos releva-las). Falei um monte sobre o trabalho, a indústria da mídia, as marcas, a crise, sobre minha antiga empresa. Em dado momento, quando precisa fechar a conversa percebi que não sabia o que dizer. Que não tinha visão. Que não tinha palpite. Que tudo o que era sólido havia se desmanchado no ar com uma velocidade assustadora. Que recomeçar era inexorável.

Os jovens me olhavam assustados porque tinham tudo por fazer mas não sabiam por onde começar. Os meios de produção (gráfica, câmera de tv, transmissor de ondas, antenas) não eram mais importantes. Bom conteúdo (texto, foto, vídeo, áudio, arte, design) pode ser distribuído por meio de blog, rede social, youtube, canal aberto e fechado. Basta fazer. Basta acertar na mosca. Basta ter audiência. Mas Camila Coutinho, a cara da brilhante campanha do youtube, é jornalista? Afinal, o que é ser jornalista? Mais, como se é bom jornalista no século XXI? Tem emprego para um bom jornalista no século XXI? Onde quer trabalhar um bom jornalista no século XXI? Uma jovem de faixa colorida na cabeça e olhar inteligente disparou: “não quero trabalhar em nenhum veículo da grande imprensa brasileira. O que eu faço?”

Encurralada, respondi o óbvio: “não sei”. Ninguém sabe. Tudo é possível, mas diferente. O que valia ontem, certamente, não valerá amanhã. Vamos inventar, então, este amanhã. O que mantenho como crença também é óbvio e simplório: boas histórias, bem contadas, sempre encantarão os seres humanos. Vamos correr atrás dessas histórias e conta-las. Mesmo que seja a narrativa de uma quase cinquentona que descobre, atônita, depois de 30 anos de profissão que não sabe nada de nada. E, melhor, sente um batia orgulho disso porque, às vezes, a ignorância é liberadora.

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8 comentários sobre “Tudo o que sei é que nada sei

  1. Bravo, Claudia. Tudo que é sólido, desmancha no ar. A citação original (KM) ganha força no livro do Marshal Berman e ecoa no seu texto. Somos e seremos contadores de histórias, no pé de uma fogueira ou na banda ultra larga. Tá muito legal te acompanhar nesta sua metmoforse ambulante. bj

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  2. Cara Cláudia. É muito bom se dar a chance de navegar pelo desconhecido. Se não fosse por essa via, onde estaria a humanidade? E no demais, é entrando numa grande bilioteca que vemos e sentimos, na prática, a mínima dimensão do saber de um vivente como qualquer um de nós, mas também constatamos a imensidão de perguntas que podem ser feitas, com a possibilidade de muitas diferentes respostas.

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  3. Amando seus textos, você escreve com uma leveza, me transportou para o auditório imaginário da faculdade (não conheço). Espero ansiosa o lançamento do livro.

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