Quer comprar uma banca?

IMG_2761O senhor Kenji colocou a sua banca à venda. Passa o ponto e a lata, razoavelmente bem cuidada, por R$ 85.000. Se o pagamento for à vista, ele negocia. Não disse quanto. Senhor Kenji descende de japoneses. É sério, fechado, de poucas palavras. O barulho dos ônibus e carros da Faria Lima, avenida nobre de São Paulo, também não ajuda a conversa. Ele fala para dentro e eu me lembro do meu amigo e grande jornalista Sérgio Zális. “Ah, ah?” quando pergunto alguma coisa, quase grudando meu ouvido da boca pequena dele.

Senhor Kenji não conta quanto fatura por mês. Diz que tem duas bancas e pouco tempo para cuidar de ambas, por isso quer vende uma. Esta que esta à venda, só abre de segunda a sexta. Vende cigarros, chicletes, chocolates, alguns gadgets, além dos óbvios jornais, livros e revistas. Ele percebe o meu interesse e pergunta se já tive banca. Respondo que já tive revistas. Ele me olha incrédulo até meu esclarecimento. “Dirigi e fiz muitas revistas, conheço o negócio e sei como funciona a Dinap”. Ele, então, se entusiasma e esboça um sorriso.
“Você pode ganhar mais dinheiro se colocar uma geladeira para vender sorvetes e refrigerantes”, ensina o senhor Kenji, alertando que teria de investir algum para isso. Pergunto se posso vender outras coisas. “Sim, pode vender crédito para celular, alguns eletro eletrônicos”.  Agradeço a ideia e digo que vou pensar. Tiro a foto para registrar o telefone e digo adeus.
Subo na minha Lola e volto a pedalar pensando como seria a minha banca. Primeiro faria uma bela faxina, como ensinava o senhor Icaro da Dinap. Ele era um especialista em bancas e nos tempos áureos fazia rondas na cidade para dar pito nos jornaleiros porcões. Adora sair com ele. Fazia check up do número de vendas das revistas só olhando as pilhas. Nunca errava. Sabia o que era capa boa e capa ruim. Era um gênio.
Na minha banca, depois da faxina, colocaria uma poltrona bem gostosa e colorida para sentar nas horas de pouco movimento e para oferecer aos clientes interessados em um bom lead (para quem não é do ramo, lead é o princípio de uma boa reportagem. Quando bem escrito, seduz o leitor a seguir até o fim). Teria também uma máquina de Nespresso para vender cafés e oferecer mimos aos clientes fiéis e amigos. No fim da tarde, traria um bolo quentinho para que o cheiro saboroso atraísse clientes. Também venderia livros e revistas de colecionador. Faria um minisebo no fundo da banca, dispensando a exibição de revistas ruins. Sempre que estivesse lá trabalhando, aproveitaria o tempo livre para ler matérias dos meus jornais e revistas preferidos. Seria uma espécie ombudswoman aleatória e informal dos meus títulos preferidos. E escreveria histórias, porque estaria todo ouvidos aos clientes interessados em desabafar. Moro perto dessa banca e cheguei em casa antes mesmo de avaliar quanto renderia o aluguel do costado. Esqueci do assunto e segui em um dia cheio de ótimas conversas. Agora pouco, olhando as fotos do dia, lembrei e senti nostalgia. Cantarolei: “o Sol nas bancas de revista, me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta noticia? Eu vou.
Quem quer comprar uma banca? Quem lê tanta notícia? Quanto fatura o senhor Kenji?
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