Vivendo e aprendendo a perder

Sou competitiva. Sou briguenta. Sou lutadora. Detesto perder no palitinho. Detesto perder no par ou ímpar. Só gosto de perder peso. Tanto que um dos meus poemas preferidos chama-se A Arte de Perder, da poeta norte-americana Elisabeth Bishop. Ele é curto, por isso publico-o abaixo:

A arte de perder não é nenhum mistério; 
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. 
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Depois perca mais rápido, com mais critério: 
Lugares, nomes, a escala subseqüente Da viagem não feita. 
Nada disso é sério. 
Perdi o relógio de mamãe. 
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Perdi duas cidades lindas. 
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente. 
Tenho saudade deles. 
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. 
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério

Há dois meses perdi o crachá, a cadeira de prego e o salário (este último faz falta). Há dois meses estou aprendendo a viver de um outro jeito. Há dois meses estou aprendendo a perder com fairplay, sem drama nem dor.   Já participei de uma concorrência e não deu em nada. Perdi? Não, ganhei. Conheci gente nova e acho que fiz boa figura. Estou participando de um processo de outplacement e descubro coisas incríveis a cada entrevista. Hoje, depois de apresentar meu plano de ação, aprendi que o mercado é refratário ao desejo de se voltar ao começo. Um dia diretor, sempre diretor. Mas se eu ficar feliz como gerente? Se eu quiser ser editora? “Com o seu currículo”, respondeu a consultora, “impossível. Ninguém vai acreditar que você se contentará com um salário menor, com um poder menor, com um tamanho menor”. Comecei a rir. Lembrei o filme “Querida, encolhi as crianças” e desejei ficar pequenininha.  Já que não dá para perder “o tamanho, vamos então perder a pompa, a vergonha e os pruridos. Como diz a consultora, se o plano A não rolar, se o plano B estiver tudo bem, começa a ativar o plano C, D e E para não tirar o nome do radar. Resumo: vivendo e aprendendo a jogar, a perder, a ganhar e a manter o nome no radar.

Detesto perder no palitinho. Detesto perder no par ou ímpar. Só gosto de perder peso.

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3 comentários sobre “Vivendo e aprendendo a perder

  1. É incrível a incapacidade dos entrevistadores em perceber que um trabalhador pode e tem a capacidade para se reciclar e assumir novos caminhos, com mais conhecimento e desejo de realização . Afinal, quem perde com este preconceito? Tenho certeza que são Eles.
    Passei por um perrengue quando sai da editora Azul, pois queria voltar a ser executiva, o Elian Trabulsi acreditou em mim…a quem sou muito grata. Foram 16 anos de muito trabalho e realizações a frente da Reader’s Digest.
    E agora, vamos aos planos B,C…
    Boa sorte!!!

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