Como ser dono de pousada 2

Adoro ser dona de pousada. Conheço gente bacana. Sinto um prazer enorme em servir e ver as pessoas felizes. Alimento meu ego com elogios sobre a decoração, o serviço e a comida. Também ganho um dinheirinho honesto no final do mês e espero viver disso, com muito conforto, quando a derradeira aposentadoria chegar.
Sim, é um trabalho muito gostoso e um empreendimento que quando dá certo (como tudo na vida), vale a pena. Porém, sempre existe um pelo caminho, engana-se que a vida de pousadeiro — a alcunha do dono de pousada — é fácil. Tipo sombra e água fresca. Se você quer passar os dias deitado na rede, aplique o seu dinheiro no mercado financeiro ou em uma franquia do Pão de Queijo.
Pousada é como uma casa com “overuse” crônico. Se for na frente do mar, como a minha, existe o coeficiente maresia que é quase tão terrível quando o coeficiente de mangue.Todo dia, acreditem, quebra uma coisa. Queima uma lâmpada. Entope um ralo. Ou você descobre, como descobri hoje, que a cabeceira da cama do quarto 6, que era feita com uma renda branca linda, está suja, preta, podre. E pior, quem viu não te avisou ou nem reparou porque não tem os olhos treinados para isso.
Na prática, significa uma operação que enxuga gelo diariamente para tudo ficar bem. Essa repetição, aparentemente insuportável para alguém que nunca teve um trabalho rotineiro na vida, exige foco, atenção e processo. Não vou comparar com o processo de decolagem de um avião, porque ninguém morre se a cabeceira estiver horrível. Mas, sim, para o serviço ser quase perfeito, é preciso checar e rechecar interminavelmente como uma Sherazade do check list. O dia que parar, bingo, a coisa ficou ruim. A sujeira do cantinho virará craca. A maresia será uma segunda pele. As luzes se apagarão e, o maior pesadelo, a caixa de email começará a ficar vazia. Não mais terei o trabalho de responder: “estamos lotados, lamento não poder atender o seu pedido.”
Conclusão: trabalhamos muito para poder perpetuamente trabalhar mais. Trata-se de um mito de Sísifo do bem. Quando eu vou deitar na rede? Nos dias em que sair de férias, viajar para Lençois, que eu não conheço, para provar o café da manhã da Estalagem do Alcino, que dizem que é muito bom. quarto7e

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