Linkedin, decifra-me ou te devoro

Viver sem crachá é possível. Viver sem ganhar dinheiro, sem ter ganho na megasena antes, não é. Dentre as muitas atividades de um “descrachado”, procurar uma atividade remunerada é a principal. Outra noite, decidi vasculhar no lugar mais óbvio e “moderno”, a rede mundial dos empregos, o linkedin. Tenho lá o meu perfil desde que a língua oficial era apenas o inglês. Usava pouco, confesso. E por burrice crônica, tinha atrelado o meu perfil ao meu ex-email corporativo. Deu um trabalho danado para o meu amigo Tiago consertar a minha burrada. Feita a união entre pessoa física e jurídica, cometi outra sandice. Apertei um botão incauto e autorizei que a plataforma acionasse todos os contatos do meu iphone. Saíram da minha máquinas mensagens para presidentes de empresa, artistas, amigos e também para o Toninho do Abará, meu fornecedor lá da pousada. Enfim, um desastre considerando-se que é o meu momento de fazer networking.

Noite passada, navegando no site para melhorar meu repertório, cliquei na aba empregos. Tem um monte de oferta. Animada, comecei a clicar nos logos das empresas mais admiradas e desejadas para se trabalhar. Travei. Apesar de ter certa fluência na língua portuguesa e inglesa, na metade da maioria dos perfis de emprego, boiei. O português virou mandarim e por muitas vezes não entendi qual “skill” o empregador queria. A quantidade de siglas e termos técnicos são tantos que precisei de um tradutor intérprete para chegar ao fim dos atributos necessários para ser manager de PR e branding em uma empresa digital. Salário: R$ 3500.

Ufa. Ainda bem que nasci em 1965. Ainda bem que comecei a trabalhar em 1982. Ainda bem que  ainda não cheguei aos 50 e tenho quase 30 anos de experiência e um bocado de jogo de cintura. Confesso que admiro os jovens (meu filho entre eles) que precisam enfrentar Enems, vestibulares, Enades e seleções atrozes para conseguir uma vaga de estágio. Hoje começar é muito mais difícil do que era no meu tempo. Lá no século passado, o que valia era o Q.I, literalmente quem indicou. No jornalismo, então, não havia outra porta além do curso Abril e o curso de focas da Folha. A gente ia trocando de emprego para ganhar um pouquinho mais no vizinho porque um amigo indicava o outro e a  ciranda cirandava de redação em redação.

A boa nova é que hoje, graças às plataformas em rede, abertas e coletivas, ninguém mais depende do emprego em grandes grupos de comunicação para produzir conteúdo de qualidade e ter relevância. Os meios de produção, antigamente caros e inacessíveis, estão à disposição do jornalistas e produtores. Da mídia ninja aos blogues das lilás, lelés e lulas, basta ter um macbook air na mão e uma opinião na ponta da língua para ser “formador de opinião”.

Confesso, no entanto, que fiquei mordida com meu analfabetismo funcional de linkedin e perguntei para meu amigo Tiago, jovem, brilhante e ultraconectado, se ele entendia tudo o que lia. Honesto, disse que não. “Tem alguns termos que são muito novos e eu também não sei. Copio e dou o google. Em geral é algo muito simples, que eles escrevem de modo difícil para tentar fazer um filtro. Faz sentido. Outro dia,  357 candidatos brigavam por uma vaga mediana em um portal. Como a esfinge, o Linkedin te devora.

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