O direito (delicioso) à preguiça

Nos tempos em que eu era comunista, brigava muito com alguns amigos, então mais evoluídos do que eu, que criticavam a exagerada valorização do trabalho por parte dos militantes e sindicalistas. Já era coxinha e tinha convicção de que ele, o trabalho, sim, dignificava o homem. Lembrei desse embate hoje, segunda-feira, quando no meio da manhã decidi largar tudo o que estava fazendo para dar um mergulho na piscina do clube e fazer uma homenagem, no dia mais quente do ano em São Paulo, ao jornalista e filosofo socialista francês Paul Lafarge.
Genro de Karl Marx, portanto seu contemporâneo, Lafargue escreveu um libelo a favor à preguiça. Em seu livro, disponível no endereço http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/direitopreguica.pdf, o francês afirma que o amor ao trabalho é uma loucura que se apossou das classes operárias nas nações onde então reinava a civilização capitalista. “Esta loucura arrasta consigo misérias individuais e sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade. Esta loucura é o amor ao trabalho, a paixão moribunda do trabalho, levado até ao esgotamento das forças vitais do indivíduo e da sua progenitora. Em vez de reagir contra esta aberração mental, os padres, os economistas, os moralistas sacrossantificaram o trabalho”.
Enquanto me esbaldava na água fresca, pensei na minha existência workholic. Sempre tive hora para entrar, nunca para sair. Mesmo nas folgas ou férias, dava um jeito de arrumar um assunto, uma pauta, uma entrevista. Nunca soube fazer nada. Se estava ao sol, precisava ler algo. Se estava na água precisava queimar calorias. Se estava parada, precisava andar. Se estava dormindo, precisava acordar. Para justificar o excesso de atividade e trabalho, sempre usei o argumento de que “amava o que estava fazendo” e era absoluta verdade. Tive muita sorte na vida e sempre fiz coisas pelas quais era apaixonada — mesmo quando fazia a Revista do Consórcio.
Percorri várias vezes a piscina de 50 metros e fiquei pensando no porque da minha “loucura”. Acho que o primeiro motivo é geracional. Sou de um tempo, pré-google, no qual o repertório fazia toda a diferença. Era preciso saber, ter visto, ter lido, ter estado para ter o direito de pertencer a certos círculos, especialmente entre as tribos envolvidas com política.Era preciso ralar muito para ser aceito. As mulheres, em especial, precisavam ser muito inteligentes e muito cultas para serem respeitadas pelos pares. Caso contrário, eram apenas objeto de desejo masculino, acessórios, bibelôs. O moralismo, como escreve Lafargue, teve papel fundamental no meu “trabalhismo”. Para mim, preguiça sempre foi sinal de falta de caráter, de indolência e de fraqueza. Nunca respeitei colegas de braço curto. Jamais valorizei os ditos gênios criativos e folgados. Nunca engoli a tese do ócio criativo. Mas hoje na piscina, sem culpa por ter deixado o trabalho atrasar, conclui que estava errada. Errei ao faltar com leveza em momentos nos quais não precisava carregar sozinha o piano mudo. Errei na dose de dedicação, privando pessoas importantes da minha presença. Errei no julgamento de gente que fazia diferente.
O sinal do recreio bateu e tive de interromper os devaneios e o passeio pela piscina para seguir para uma reunião de trabalho. Na saída, dei de cara com um amigo, com o qual precisava falar. Ele também havia cedido ao prazer da preguiça. Nosso encontro, abençoado por Lafargue, foi produtivo e a preguiça me foi mais útil que o linkedin. Amanhã vai ter mais.IMG_3827

Esta loucura é o amor ao trabalho, a paixão moribunda do trabalho, levado até ao esgotamento das forças vitais do indivíduo e da sua progenitora.

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