De bermuda na vida

A cena é um clássico. Casal na cama depois do amor. Antes com cigarro na mão, agora sem. Um vira para o outro e diz: “Estou com uma sede”. Normalmente é sempre o mesmo que diz, porque o outro, de pronto, levanta e vai buscar o copo de água. E o que levanta e busca, nunca diz. Antes de dizer, vai lá e pega. Dá para generalizar e dizer que a humanidade se divide, neste caso, em duas partes: os que buscam e os que pedem. Nem preciso dizer que sempre fiz parte dos buscadores. Tenho um ânimo que cansa só de olhar. Sempre disposta. Sempre à disposição.

Pois é, vesti bermuda hoje. Foi à tarde, é verdade, depois de uma reunião na consultoria de outplacement. Tenho lição de casa para fazer. Tenho projeto para escrever. Tinha outra reunião para conduzir. Vesti bermuda. Levei meu filho para a aula de violão e, de bermuda, sentei em um café na Vila Madalena. Nem é preciso dizer que fui flagrada. Outro querido amigo, de terno e gravata, sem crachá como eu, largou o carro no meio da rua e veio me encontrar. Saudade e espanto. Afinal o que eu estava lá fazendo de bermudas?

Pesquei a imagem da bermuda porque bermuda para mim é algo que lembra verão, calor, praia e diversão. Falei muito sobre isso hoje. Minha nova amiga, Matilde, coach e consultora de outplacement, me perguntou o que eu gostaria de fazer da vida. Respondi de bate pronto: trabalhar e me divertir. Meio espantada, ela disse: “é, as pessoas que trabalharam na sua ex-empresa falam muito em diversão. Você deve ser alguém de perfil J, que se motiva por desafios associados ao prazer e a diversão”. Encabulei e até me defendi, dizendo que tinha me expressado mal, que era séria, cumpridora, trabalhadora, coxinha. Que não era hedonista. Não menti, mas sim, a diversão é fundamental para mim.

Tive sempre muita sorte. Meus trabalhos sempre foram uma Disneylândia. Conheci pessoas extraordinárias, ouvi e escrevi histórias incríveis, viajei meio mundo e até mesmo quando me deparei com a magia dos números, experimentei uma temporada de viés de alta com muitos negócios, muitas oportunidades e grandes parcerias.

Acho que vesti bermuda hoje porque estou enxergando um futuro apertadinho e difícil. O que era milhão será milhar. O que era milhar virará centena e por ai vai. Não adianta sofrer. Não adianta resistir. Será um momento de se adequar, economizar, simplificar e buscar o essencial. No meu caso, prazer e diversão por meio de grandes projetos criativos e baratos. Vou trabalhar de bermuda e curtir a vida.

Vesti bermuda. Levei meu filho para a aula de violão e, de bermuda, sentei em um café na Vila Madalena. Nem é preciso dizer que fui flagrada.

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