Gente, histórias e fé

Em um dos primeiros Natais de que tenho memória, ganhei uma bicicletinha Caloi. Era vermelha, com banco e manetes brancos. Escrevi carta ao Papai Noel para pedi-la, queria muito aquele presente. Foi comprada no Mappin, onde minha tia avó trabalhava, com muito carinho por meu pai. Chegou na caixa, fechada. Quando abri `a meia noite e cinco do dia 25 de dezembro de 1970, aprendi três lições inesquecíveis. Primeira: a lei de Murphy existe e tem predileção por algumas pessoas. Sim, a magrela veio com defeito. Faltava um pedal. Segunda: quando a gente quer muito alguma coisa, não adianta pressa mas paciência. Tive que esperar o Mappin abrir no dia 27 de dezembro para troca-la e começar a descobrir o mundo em duas rodas. Terceira: não deu certo da primeira vez, não desista, lute, tente, lute de novo. Uma hora, você consegue. E, se no limite não conseguir, terá certeza que fez de um tudo para lograr sucesso.

Hoje eu vivi, com novo roteiro, as três lições. Estou com um processo enrolado na Previdência Social. Lei de Murphy total. Paguei tudo certo, guardei os recibos e os carnês, mas a Previdência quando informatizou esqueceu de mim e não colocou todos os registros no CNIS (Cadastro Nacional de Informações Sociais). Queria muito começar a vida sem crachá com tudo arrumadinho. Sou assim, coxinha. Até agora não consegui. Ando para baixo e para cima com pastas cheias de documentos. Paciência, uma hora chego lá.

A terceira lição mais valiosa é o motivo deste texto. Por causa do erro da Previdência ouvi um não bem redondo para um direito adquirido. Só com o papel foi a resposta. Quem conhece a burocracia mundial sabe que não é fácil conseguir rapidez e eficiência em processos assim. Às vezes, pequenos ajustes levam anos de tribunal em tribunal. Fui à luta. Gosto de guerra. Os despachantes que me perdoem, mas prefiro ir eu mesma, pessoalmente, com minha mochila resolver esses perrengues. Foi o que fiz. Rumei para a rua dos Trilhos, onde por muitos anos trabalhei na gráfica do DCI revisando jornais de Sindicato. Emoção e fé me fizeram acreditar que ia ser fácil, afinal estava voltando lá para o passado, onde tudo começou. Errei. De novo, o exercício da paciência.

A coisa complicou e parecia que não ia mesmo dar certo. No último dia 26, desesperada depois de ouvir um cordel de nãos, toquei para lá disposta a tudo. Senha na mão, ombros caídos, aguardei a funcionária me chamar. Era uma senhora simpática que vestia uma camiseta Hering que eu tenho igual em meu armário. Lembrei de uma cena com a Sonia Braga (um dia eu conto) e resolvi ganhar no papo. Com meu melhor sorriso, olhei fundo nos olhos delas e disse: “tenho uma camiseta igual a sua. É linda.” Ela devolveu a simpatia e perguntou qual era o meu problema. Contei minha corrida contra o relógio, falei do que poderia perder, do sentimento de injustiça, do meu filho Chico (sim, filho é sempre bom nessas horas), do quanto eu havia me dedicado em anos de trabalho. Quase chorei de verdade, porque estava realmente triste. Acho que estabelecemos uma cumplicidade. Ela, funcionária, tinha o poder e a chance de ajudar uma desempregada. Sem me prometer nada, se despediu de mim de maneira gentil e cortês.

Voltei de viagem torcendo para encontrar o documento atrás da porta. Dez dias passados e nada. Trouxe na mala roupa suja e um presente que ganhei de uma hóspede, Lucrécia, que trabalha nas obras de Irmã Dulce em Salvador. Sou devota da Santa baiana, que segundo minha mãe me protege nas idas e vindas pelo mundo. Pois na segunda-feira, decidi acender uma vela de 7 dias para ela e passei a usar seu brochinho na minha lapela. Ateus e agnósticos uni-vos contra mim: tenho fé, rezo e faço promessa sim. Acredito na força divina, nos santos e em seus milagres.

Aconteceu. Acordei decidida a voltar à rua dos Trilhos, como quem perdeu um guarda-chuva. Fiquei na fila, pedi minha senha e estava só de olho na minha amiga da outra semana. Não foi ela quem me atendeu, mas outra funcionária. Contei o caso todo de novo e quando ela abriu o sistema, bingo: assunto resolvido. O vermelho virou azul. O vazio ficou cheio. Todos os dados estavam lá. Até uma data de nascimento trocada havia sido consertada. Agradeci, agradeci e agradeci. A moça não entendeu a minha efusão e alegria. Não conhecia toda a história. Tentei falar com a outra mulher, que evitou olhar para mim pois sabia o que havia feito por mim. Decidi sair sem agradece-la. Voltarei lá na próxima semana com uma caixa de chocolates. Na porta do Posto da Previdência, liguei para minha mãe e chorei. A paciência, a luta e a fé estavam comigo outra vez. Pessoas e suas histórias cruzadas sempre fazem a diferença.

Ateus e agnósticos uni-vos contra mim: tenho fé, rezo e faço promessa sim. Acredito na força divina, nos santos e em seus milagres.

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4 comentários sobre “Gente, histórias e fé

  1. Por mais simples ou complexos que sejam nossos problemas e por menor que seja, toda e qualquer ajuda é sempre bem vinda! Reconhecer e agradecer de alguma forma é um gesto humilde e simbólico! Quem planta o bem se esperar nada, quando menos espera colhe algo melhor do que o desejado! pelo menos é isso que eu acredito! parabens pelo texto e pela conquista de direito!

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  2. Claudia, seus posts são perfeitos e, em muitos deles , chego a sentir o que voce descreve, porque embora aposentada, já vivi momentos de grande Empresa e o vazio esquisito da vida sem um crachá….Mas só em alguns momentos!! Sinto-me ótima agora!! E rezar é uma benção, pedir a Deus muito importante! A fé e o carinho para com as pessoas, certíssimo!!

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