Dinheiro não cai do céu nem aceita desaforo

Um dos meus apelidos é sueca two reais porque tenho uma cara de gringa que dói, apesar de carregar no DNA mais de 500 anos de Brasil. Meu avô paterno era Menezes e seus antepassados atracaram em Porto Alegre no século XVI vindos de Goa. Quem me conta isso é meu filho , Chico, especialista em árvore genealógica e sueco 50 cents. Somos loiros, altos, de olhos claros. O resto do sangue vem mesmo da Europa: França, Itália e Império Austro-húngaro. Parte da minha família, os Thomaz, sobrenome da minha avó paterna, vieram para o Brasil na segunda metade do século XIX à convite do imperador Pedro II para escapar da fome. Um convite nada nobre, vale esclarecer. Filho de austríaca, ele mandava emissários brasileiros à região de fronteira da Itália, Austria e Alemanha para seduzir gente branquela a vir trabalhar no Brasil. Antiescravocrata, ele acreditava no trabalho livre e honesto. A oferta encantava. Com um cartaz que exibia um Brasil-Cocanha, Dom Pedro oferecia terras de graça. Minha família, por exemplo, ganhou um terreno na Voluntários da Pátria, número 6, onde meus bisavós montaram um restaurante e uma cervejaria.

Era gente humilde, campesina, que deixou a cidade de Fiera de Primiero (hoje Itália) para não morrer de fome. Uma inundação vinda das Dolomitas arrasou com a plantação e matou todos os bichos. Desceram a pé dos Alpes até Genova, onde embarcaram em um navio de carga para chegar aqui. Minha avó começou a trabalhar com 14 anos. Assistente de chapeleira. Era uma artista. Minha tia avó entrou no Mappin — o mais chique magazine de São Paulo — aos 16. Trabalharam duro sempre e não tinham vergonha disso.

A outra parte da minha família era diferente. Italianos também, mas com mania de sangue azul. Parentes dos Trussardi de Milão enricaram logo produzindo tecidos e passamanarias como outros oriundi das famílias Crespi e Scarpa. Minha bisavó Laura nunca trabalhou, assim como minha avó e minha mãe. Trabalho não era para todos, só para os “quaisquer uns”. Dinheiro, se não caia do céu, era benção divina para poucos. Os que mereciam. Nem preciso dizer que os irmãos roubaram tudo das irmãs, que passaram a vida se lamuriando e sonhando com a riqueza que deveriam ter tido.

Vivi minha infância dividida entre dois mundos: a lida das formigas versus a flana das cigarras. E como meus avós paternos ralaram muito, queriam que meu pai, filho único, tivesse tudo do bom e do melhor. Ganhou playboy, especialmente no auge do Milagre Econômico de 1970. Não deu certo comigo.

Vivo repetindo que sempre na minha vez a mamata termina. Dito e feito. Bastou eu chegar na adolescência para a inflação e os planos econômicos acabarem com o dinheiro da família. Juro, não tem nada pior do que ficar pobre morando nos Jardins. Entendi perfeitamente a fala do Eike Batista quando tuitou sobre o drama de ser classe média ou voltar a ser classe média. Os pequenos burgueses, como os nobre falidos, vivem de aparência. E aparência custa caro.

Um dos primeiros atos da minha vida sem crachá foi perder a vergonha. Dinheiro, como dizia minha avó, não cai do céu nem aceita desaforo. No instante em que ele parou de pingar religiosamente na minha conta bancária no dia 5 e 20 de cada mês, abandonei minhas frescuras.  Negocio, pechincho e imploro desconto. Divido as despesas em dúzias de parcelas no cartão e somo pontos para minhas passagens aéreas. Em regime de gestão da Universidade da Túrquia fiz compras na semana passada no Atakarejo, o atacado mais barato e completo da estrada do Coco. Foram três carrinhos de compras, com dezenas de itens. Achei produtos ótimos, de muita qualidade, infinitamente mais baratos do que nos Peg-pague do mundo. Lotei a caminhonete com apenas 500 reais,  montante que caberia em três sacolas do Santa Luzia. Só não perdi o hábito da gorjeta. O carregador que me ajudou a levar os carrinhos quase me beijou quando recebeu cincão de caixinha — dinheiro pouco na Oscar Freire mas uma fortuna em Lauro de Freitas. Mas tinha tanta coisa, que ele mereceu.

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